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Eu não podia deixar o ano terminar sem falar um pouco sobre A QUIET PASSION, um dos melhores filmes que vi em 2016 (no Festival do Rio). Foi particularmente reconfortante ver Terence Davies, um dos meus cineastas favoritos, voltar à plena forma depois de alguns trabalhos menores como “Amor Profundo” e “A Canção do Pôr do Sol”. A poeta americana Emily Dickinson, afinal, é uma personagem daviesiana, comprimida entre um profundo desejo de liberdade e as amarras de uma personalidade que não lhe permite ser livre. Como as sombrias criaturas dos primeiros filmes do diretor, Emily sublima na arte o que lhe fica interditado na vida.

Para caracterizar esse processo, Davies transforma as pessoas em efígies, como se mais pertencessem a um álbum de fotos do que ao mundo concreto. É justamente através de um morphing fotográfico que vemos Emily passar da juventude (Emma Bell) à idade madura (Cynthia Nixon, em atuação deslumbrante). Entre uma e outra fase, uma estranha química se dá no temperamento da poeta. Quando jovem, ela se rebelava contra os ditames piedosos da formação católica e o destino de um casamento conservador. Mais tarde, solteirona e reclusa, frustrada no reconhecimento de seu valor literário e na paixão por um pastor casado, e ainda fustigada por uma insuficiência renal crônica, Emily se torna uma mulher amarga, quase o oposto dos seus antigos ideais libertários.

Um dado curioso é que Davies absorve a dedução de um biógrafo, nunca devidamente confirmada, de que Emily era epiléptica.

Uma pequena constelação de coadjuvantes abre espaço para diálogos de alto requinte literário e performances não menos arrebatadoras. Jennifer Ehle e Duncan Duff como os irmãos Vinnie e Austin Dickinson, Catherine Bailey como a radiante amiga Vryling Buffam, Keith Carradine como o patriarca protestante (“o que acreditava”) e Joanna Bacon como a mãe melancólica (“a que amava”) gravitam em torno de Emily. De alguma forma, representam as forças opostas que se digladiam dentro dela.

Os poemas, pontuando o filme como uma espécie de comentário, se somam às composições visuais baseadas na pintura clássica americana e ao rico tecido musical para forjar a magnífica estilização do filme. É nesse tipo de superação do real pelas potências da arte que tanto Emily Dickinson quanto Terence Davies construíram suas respectivas obras. Cada uma a seu jeito, são retratos profundos e poéticos de gente solitária, introspectiva, assim como os próprios autores.