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Num dado momento de ASSIM QUE ABRO MEUS OLHOS, um roqueiro anuncia que vai denunciar o desaparecimento político da namorada no Facebook da sua banda, que tem muitos seguidores. Estamos em 2010, poucos meses antes da Revolução de Jasmim, que deu início na Tunísia à Primavera Árabe, mas essa referência à confiança dos jovens nas redes sociais é o único indício do que estava por acontecer. O filme de estreia da diretora Leyla Bouzid, tunisiana formada em Paris, retrata o acúmulo de tensões, medos, vigilância e perseguições que antecederam o levante popular.

Aos 18 anos, Farah (Baya Medhaffer, numa performance de enorme persuasão) demonstra a mesma verve de rebeldia na vida pessoal e nas músicas de protesto que canta na banda Joujma. Sua mãe (a célebre cantora e atriz Ghalia Benali) quer vê-la formada em Medicina, mas é a música que a atrai de maneira visceral. Farah precisa enfrentar não somente os desígnios familiares, mas também as muitas faces da repressão tunisiana, em sua maioria masculinas. O lugar destinado à mulher, mesmo num ambiente progressista como o do rock, lhe será frequentemente lembrado.

Fala-se, portanto, de um país conflagrado pela pobreza, a falta de liberdade política e a tortura, assim como pelo sufocamento do feminino. O contraponto da geração de Farah com a dos seus pais mostra a passagem de uma era de rendição, resignação e vozes abafadas para um momento de florescimento que o filme, delicadamente, deixa apenas pairar no horizonte próximo.

Se demonstra fragilidade aqui e ali no roteiro, Leyla Bouzid compensa ora com uma sensível criação de atmosferas íntimas, ora com um forte apelo documental. As atuações reais da banda são energéticas e nos mergulham num universo musical pouco conhecido, em que as curvas do lamento árabe desembocam em rock rascante.



Comparado com o primeiro filme, MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 parece uma mulher que tirou os bobs do cabelo e se penteou no salão mais chique da cidade. Paulo Gustavo berra muito menos e encarna com diabólica precisão a mãezona à beira de um ataque de nervos. O melhor elogio que posso fazer é ver nele uma paródia transgênero da Meryl Streep.

Claro, é somente uma comédia de esquetes, baseada no desdobramento de uma única ideia. Mas tudo funciona agora muito melhor, as situações são mais bem aproveitadas, os diálogos são não apenas velozes, mas também engraçados. A figura de uma supermãe que tem dificuldade em aceitar que o filho gay comece a se interessar por mulheres é uma ótima inversão de paradigmas. E a sequência do auxílio materno às paqueras dos filhos na boate paulista é um momento de comicidade impecável.

Em termos de realização, o filme tem ritmo e qualidade cênica, sem qualquer sinal de indigência. A única falha gritante é mostrar a fabulosa Padaria Beira-Mar, em Icaraí, relativamente vazia. Isso é coisa de quem, ao contrário de Dona Hermínia, não conhece Niterói.



As Filipinas são um dos poucos países do mundo que rivalizam com o México em matéria de culto à morte. O número de superstições, rituais religiosos e práticas funerárias é imenso e faz com que esse seja um assunto extraordinariamente frequente no cotidiano. É o que se reflete na comédia dramática BWAKAW, de Jun Robles Lana (2012), em cartaz no Cine Joia (Rio).

A morte é uma expectativa permanente para o personagem central, um homem idoso e solitário, cuja única companhia é da cachorrinha que dá título ao filme. A morte é o tema das cenas mais dramáticas e também das mais divertidas, típicas de um humor negro popular e característico daquele raro país asiático de maioria católica.

O velho Rene (Eddie Garcia, o mais célebre e ocupado ator filipino) e sua cadela Bwakaw (Princess, uma gênia da interpretação canina) podem ser vistos como uma reedição da dupla do clássico neorrealista “Umberto D”. Mas, enquanto o filme de DeSica retratava a miséria social da Itália do pós-guerra, BWAKAW (“voraz” em filipino) aborda a miséria afetiva de um homem que só assumiu sua homossexualidade tarde demais.

Diversas situações inusitadas têm origem nas difíceis relações de amizade de Rene com seus colegas de trabalho nos correios, vizinhos, um cabelereiro e seu filho crossdressing, além de um novo amigo de temperamento oposto ao seu. A persistência do desejo na velhice, o consolo da ilusão amorosa e a aceitação da vida real recebem um tratamento simpático, de baixa tonalidade, às vezes um pouco lento, mas por fim gratificante. O filme é dedicado à memória do dramaturgo e escritor Rene O. Villanueva, mentor intelectual do diretor.