A difícil maternidade

Pílulas sobre O FILHO URUGUAIO e UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA

O FILHO URUGUAIO é um melodrama que evolui em banho-maria, bem de acordo com o ritmo pacato da vida na pequena cidade do Uruguai onde se passa a maior parte da história. A atriz Isabelle Carré é uma francesa que chega a Montevidéu junto com um assistente social para sequestrar o filho que não vê há quatro anos e fora roubado pelo pai, agora já morto. A ansiedade e o nervosismo de Sylvie contrastam com a tranquilidade do lugar.

O filme de Olivier Peyon adia sucessivamente a difícil aproximação entre mãe e filho enquanto desenha um quadro de enganos, carências e sublimações. Para o pequeno Felipe (Dylan Cortes) – que parece exercer uma especial atração sobre sequestradores –, trata-se de escolher entre a felicidade numa situação falsa e a disponibilidade para o desconhecido. A simples e tocante cena final compensa uma certa trivialidade que perpassa o filme.

Demoramos a nos conectar com o drama de Sylvie porque as razões são administradas com excessiva parcimônia no roteiro. A figura de Mehdi (Ramzy Bedia), o assistente social, é a mais interessante de se acompanhar. Sua posição intermediária o torna uma espécie de consciência em ação. É bonita a sutileza com que ele se relaciona e se afeiçoa ao que não lhe diz respeito diretamente.

No fundo, esse é um modesto e cálido estudo sobre compreender as razões dos outros.



Assim como “O Filho Uruguaio”, o argentino (em coprodução com o Brasil e mais uns tantos países) UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA também gira em torno de uma mãe aflita para ficar com o filho. Mas aqui se trata de uma adoção. Malena (Bárbara Lennie) chega a uma cidade do interior em cima da hora para assistir ao parto da criança que vai adotar. Tudo estava previamente acertado, mas Malena não sabia que lidava com uma máfia de extorsão e um esquema ilegal de adoção.

O drama, então, se converte num thriller de fuga com direito a suspense na estrada e envolvimento policial. O desequilíbrio de Malena, causado por um trauma de culpa e uma ansiedade maternal exacerbada, arriscam botar o filme de Diego Lerman na rota perigosa do implausível. Mas felizmente o bom senso se impõe e aponta o caminho de uma bonita parábola sobre diferentes faces do amor materno. Na renúncia ou na aceitação.

O casting é um trunfo valioso. Bárbara Lennie contempla as muitas nuances de um arco dramático difícil, enquanto a atriz amadora Yanina Ávila, no papel da mãe biológica, se revela um primor de adequação e aparente maturidade. Lerman dirige com mão firme e cadência meditativa, compensando algumas fragilidades do roteiro com resoluções interessantes e mesmo tocantes.

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