O western na lâmina dos Coen

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS – Netflix

A palavra, a música e a morte são o trinômio dominante em A BALADA DE BUSTER SCRUGGS, o novo filme de Joel e Ethan Coen, disponível na Netflix.

A palavra reina absoluta em quatro dos seis episódios, em diálogos ou monólogos de feição literária clássica, escritos em linguagem vintage. Exemplares do cancioneiro antigo são entoados em três segmentos, um deles por ninguém menos que Tom Waits no papel de um velho garimpeiro. A morte, por fim, maneja sua foice em todos os contos, seja em tom de paródia surrealista (como no episódio-título), seja com sentido trágico ou irônico.

O filme faz uma exótica mistura de elementos míticos, estéticos e cômicos do universo do western com o gume narrativo habitual dos Coen. Em cada episódio, há sempre a criação de uma atraente expectativa, que pode levar a um crescendo dramático, a uma surpresa ou simplesmente a um desfecho mórbido e misterioso, como é o caso do grupo na carruagem que fecha o filme. Isso gera uma leve irregularidade, como costuma acontecer nesses conjuntos de histórias isoladas entre si.

Tom Waits

Mas é interessante pensar no fundo moral daquelas pequenas intrigas. A soberba de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), a má sorte do assaltante de banco vivido por James Franco, a usura do empresário (Liam Neeson) frente ao seu artista homem-tronco, a covardia do bandido que tenta se aproveitar do trabalho do velho garimpeiro, o amor frustrado do condutor da caravana pela donzela em apuros – todos os infortúnios vividos pelos personagens parecem convergir para a grande discussão filosófica final na carruagem.

Os Coen criaram o livro fictício de onde sai cada aventura, inserindo uma história de Jack London (o garimpeiro) e uma de Stewart Edward White (a donzela da caravana). Rodaram o filme em paisagens venerandas de Nebraska, Colorado e Novo México, valorizadas pela fotografia deslumbrante de Bruno Delbonnel.

O western, com seus índios, saloons, duelos, vilões e aproveitadores, ganhou uma homenagem cheia de estilo, tão anacrônica quanto mordaz e saborosa.

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