ROBERTO ROSSELLINI – MAIS QUE UMA VIDA no streaming
Ele não foi um daqueles mochileiros que buscaram iluminação em Bombaim ou no Rajastão, mas pode-se dizer que a Índia mudou a vida de Roberto Rossellini (1906-1977). Em 1956, sentindo-se rejeitado pela mulher, Ingrid Bergman, que decidia voltar a Hollywood, e pelos produtores, que o consideravam ultrapassado, o mestre de Roma Cidade Aberta e Alemanha Ano Zero se oferece a Jawaharlal Nehru para fazer um filme sobre o progresso da Índia.
“O cinema como está não me interessa mais”. Ele se dizia cansado de “filmes normais”. Vendo o documentário Roberto Rossellini – Mais que uma Vida (Roberto Rossellini – Più di una Vita), eu me convenci de que Rossellini procurava um novo Neorrealismo enquanto filmava a realidade – não a magia – do país em Índia: Matri Bhumi (expressão traduzida como Terra Mãe).
Roberto Rossellini – Mais que uma Vida ganhou o Prêmio David di Donatello de melhor documentário italiano de 2025. Não deve ter havido concorrente melhor. Dirigido por Ilaria di Laurentiis (responsável pela montagem), Andrea Paolo Massara e Raffaele Brunetti, e realizado somente com materiais de arquivo, o filme sabe mesclar perfil biográfico com atrativos de um bom folhetim.
Imagens domésticas do casal Roberto-Ingrid dão conta da união em crise e da virtual separação com a ida dela para Hollywood e dele para a Índia. Lá Rossellini se enamora de Sonali Dasgupta, casada com um famoso documentarista indiano, e provoca um escândalo. Por ironia, foi Ingrid a chamada a intervir pela liberação do filme apreendido na Índia.
A partir daí, descontada a tentativa de fazer um “filme normal” com De Crápula a Herói, Rossellini se dedica a produções históricas, científicas e biográficas, especialmente para a televisão. Persegue um cinema de “utilidade social”, feito não por um intelectual, mas por um artesão. Casa-se ainda com a roteirista Silvia d’Amico e torna-se um militante do cinema independente, avesso a interferências de patrões. Como presidente do júri de Cannes, comanda a ousadia de premiar Pai Patrão, dos irmãos Taviani, filme que de certa forma concretizava seus ideais.
Narrado por atores que fazem as vozes de Rossellini e seus parentes e colaboradores já desaparecidos, este documentário lida admiravelmente com entrevistas, fotografias, cenas familiares, bastidores e trechos de filmes para descrever a fase menos celebrada de um grande cineasta. Foi o período que se seguiu ao ápice do Neorrealismo italiano, com o qual Rossellini inspirou muito do cinema moderno.
Durante uma palestra de Rossellini, a 1:09:00 do documentário, aparece na plateia Dom Hélder Câmara.
>> Roberto Rossellini – Mais que uma Vida está na plataforma Belas Artes à la Carte.
Veja o trailer no Instagram do Belas Artes.






É MUITO BOM o doc sobre o MESTRE de Alemanha ano zero. Excelente trazer essa memória aqui Carlos!!!
Saudoso abraço da Paraíba, Murilo