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Não sei se tem a ver com a minha chegada, mas ontem (terça) a chuva se foi e o sol se abriu sobre Belo Horizonte. No Palácio das Artes, a turma boa do Fórum Doc BH ocupava o Cinema Humberto Mauro e o café adjacente. Uma pena que a livraria Letras e Artes esteja desmobilizada. Mas bem em frente, no Conservatório de Música, é possível encontrar as atraentes edições da UFMG com 20% de desconto. Nada mau.

No cinema, tive dois programas principais ontem. Ao ver Bicicletas de Nhanderu, deu até pra entender por que houve certa rejeição dos índios guaranis ao filme, mesmo tendo sido feito por dois deles, Sandro Ariel Ortega e Patrícia Ferreira. O assunto é a perda da espiritualidade por parte dos Mbya-Guarany. Enquanto um líder da tribo coordena a construção de uma “casa de reza”, vemos um painel de comportamentos nada espiritualizados entre os índios: festas, jogo, cerveja, conversas sobre ganhar dinheiro com os filmes, crianças imitando Michael Jackson e pedindo restos de pão em casas de brancos.

O título do filme se refere ao ser humano, que para os Mbya-Guaranys seriam meros veículos dos deuses. Há certo realismo da parte do líder espiritual ao reconhecer que a pureza absoluta é impossível num mundo feito de imperfeições. O cotidiano da aldeia Koenju, no Rio Grande do Sul, revela essa imperfeição numa escala raramente vista por filmes realizados por índios. Mesmo para os padrões não conformistas da Vídeo nas Aldeias, Bicicletas éuma ousada investigação para além dos estereótipos dos indígenas simpáticos, modelares e ciosos de sua herança cultural.

A outra sessão memorável da terça-feira me trouxe de volta a alegria de quando vi pela primeira vez Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos, nos anos 1970. Contando a história de um grupo de favelados que rouba o equipamento de cinema de uma equipe estrangeira e resolve fazer a sua própria versão de Tiradentes, o filme tira um sarro hilariante do cinema dominante no Brasil à época (1977). A onda do filme histórico-literário, estimulado pela ditadura militar e patrocinado pela Embrafilme, sofre aqui uma espécie de estupro. A estética popular se apossa dos meios de produção, transforma a História oficial em carnaval e a favela em cenário épico. A operação é magistralmente levada a cabo num modelo de espetáculo que bebe nas chanchadas, nos programas humorísticos de TV e nos desfiles das escolas de samba. A antropofagia se faz não somente sobre o estrangeiro, mas também sobre as formas de expressão nacionais, inclusive com Grande Otelo repetindo um pouco seu papel em Rio Zona Norte, mas agora tentando vender um argumento cinematográfico.

Após a sessão, aplaudida com força e gritos, Jean-Claude Bernardet praticamente saiu da tela – do papel do francês Claude Rouch, que fornece negativos para os cineastas-favelados – para comentar o filme diante da plateia. Ele fez sua habitual leitura política, chamando atenção para o “limite ideológico” que levou Coni e o roteirista Sergio Sanz a, de um lado, fazerem os favelados absorver a cultura intelectual dos livros de pesquisa e, de outro, pontuar alguns questionamentos sobre o papel de Tiradentes, um branco rico e de patente, como herói supremo da História do Brasil.

Em tempos de revisão da chanchada e tantas discussões sobre a fusão entre ficção e documentário, cultura de elite e cultura de periferia, um relançamento de Ladrões de Cinema seria uma tacada de mestre.

Ontem foi exibido também Santos Dumont: Pré-Cineasta?, de Carlos Adriano, já bastante comentado aqui no blog. O “mineiro pra lá de bom” deu o recado em sua terra natal. Adriano está acertando direitos de músicas e imagens para finalmente lançar seu premiado ensaio nos cinemas.

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