Perto e longe de Bollywood

janeiro 31st, 2012 § Deixe um comentário

Junte as palavras Bombaim e cinema, e logo você pensará numa terceira: Bollywood. É da “cidade máxima” indiana que saem entre 120 e 150 “hindi films” por ano, os mais populares entre os vários cinemas das diversas regiões da Índia. Mas Bombaim, ou Mumbai para os não-colonizados, também joga suas fichas num tipo bem diferente de filme. A prova disso é que começa nesta sexta-feira a 12ª edição do Mumbai International Film Festival. Neste não haverá requebros na tela nem desfile de celebridades pop no tapete vermelho. O MIFF, realizado a cada dois anos desde 1990, é dedicado a documentários, curtas e animação.

Como jurado da Fipresci, vou me juntar ao dinamarquês Steffen Moestrup e ao indiano Utpal Borpujari para conferir o prêmio da crítica internacional. Não tenho ideia de como funciona um festival de cinema na Índia, mas a programação é das mais interessantes. A competição é dominada por filmes indianos, asiáticos e europeus, com poucas entradas americanas. Da América Latina comparecem apenas programas informativos de curtas da Venezuela e do México. O festival é ótimo principalmente para se tomar o pulso da produção não comercial do Oriente. Onde mais se pode ver filmes do Afeganistão, da Cachemira e animações produzidas em diversos países asiáticos?

Na programação paralela, constam também exibições comemorativas dos 100 anos de nascimento de Satyajit Ray, o célebre cineasta de Calcutá, e dos 150 anos do poeta e músico Rabindranath Tagore. Seminários e master classes completam o calendário. O documentarista David Bradbury (Chile: Hasta Quando?, Front Line), membro do júri oficial, fará uma palestra tipicamente intitulada Keep the Camera Rolling No Matter (Continue filmando aconteça o que acontecer). Um dos objetivos principais do MIFF é estimular a formação e a carreira de novos cineastas não comprometidos com o mainstream.

Promovido pelo Ministério da Informação e Difusão da Índia, o festival vai se beneficiar este ano da onda de prestígio que banha o cinema documental praticamente no mundo inteiro. Até Bollywood se descobriu agora interessada em investir no cinema do real. Javed Jaffrey, um dos mais festejados comediantes e dançarinos das telas, resolveu colocar seu prestígio no mercado da não-ficção. Ele criou a Indian Documentary Foundation para levantar fundos com vistas à produção e comercialização de documentários. Acaba de co-produzir um dos títulos que estarão na competição do MIFF, Inshallah Football (Futebol, se Deus Quiser). O doc enfoca uma família de Srinagar, capital da Cachemira, a disputada e belicosa região do noroeste do país, administrada pela Índia, o Paquistão e a China. O chefe da família é um ex-militante treinado por paquistaneses e casado com uma brasileira. Seu filho cresceu sob a guerra e encontrou no futebol uma razão de viver. Encorajado por um treinador argentino, ele sonha em vir para o Brasil num programa de intercâmbio. Mas a condição do pai torna as coisas muito difíceis para o garoto sair do país.

Na mão inversa, viajo hoje (terça) à noite via Frankfurt e Nova Delhi. Chego em Bombaim somente na tarde de quinta-feira. Depois do festival, que ninguém é de ferro, faço um pequeno périplo pelo sul da Índia, incluindo as cidades de Mysore, Chennai (ex-Madras), Madurai, Trivandrum, Kochi e as famosas Backwaters do estado de Kerala. Não sei como ficará a atualização do blog nesse período, mas pretendo manter um “diário de bordo” no Twitter e no Facebook. Se os deuses da conexão estiverem velando por mim, é claro.

Cenas indianas

janeiro 29th, 2012 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

Prosseguindo nos meus preparativos de viagem, divido com vocês essas duas curiosidades tipicamente indianas que encontrei no Youtube:

1. Um flashmob à moda bollywoodiana na gigantesca estação de trens CST de Bombaim:

2. Uma cena de trânsito tão ordinária quanto inacreditável em qualquer aglomeração urbana do país:

Uma sessão de cinema na Índia

janeiro 25th, 2012 § 2 Comentários

Aí vai mais um bom pedaço de memória da minha viagem à Índia em 2005. Uma sessão no popularíssimo e folclórico cinema Raj Mandir, na cidade de Jaipur, norte do país. O vídeo tem quase 9 minutos. Em seguida, leia alguns trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima, referentes aos costumes dos indianos dentro das salas de cinema.

Trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima. Enquanto o escrevia, o autor Suketu Mehta colaborava no roteiro do filme Missão Kashmir.

“Na grande maioria, os filmes comerciais híndis são musicais que contêm entre cinco e quinze sequências de canções. Os cineastas ocidentais abandonaram os musicais quando abandonaram o próprio cinema, em favor da televisão. Musicais exigem largueza, escala; não cabem em telas espremidas de dezenove polegadas. Houve outra exigência descabida que críticos e espectadores impuseram aos musicais de Hollywood: que a canção se ajustasse ao enredo. Os filmes híndis nunca obedeceram a essas diretrizes fascistas. A suspensão da descrença na Índia é imediata e generosa, e começa antes de os espectadores entrarem no cinema. É fácil suspender a descrença numa terra onde a crença é tão generalizada e vigorosa.
(…)
Os indianos levam seus filmes tão a sério quanto os italianos levam a ópera. Quando percebem que seus heróis divergem radicalmente do que deveriam fazer, os espectadores podem chegar às vias de fato. Enquanto preparamos o roteiro, lemos que em Ludhiana, depois da primeira sessão do filme Fiza, no qual o herói também faz um terrorista, a plateia ficou descontente com a maneira como seu ídolo era retratado e manifestou seu desapontamento levantando-se e depredando o cinema. Sinto agora uma imensa responsabilidade como roteirista. Construímos o filme olhando ansiosamente para o condutor de riquixá que está sentado numa das fileiras de baixo, com uma lata de gasolina.
(…)
Toma-se infinito cuidado, como dizem os jornais, para “não ferir os sentimentos de determinada comunidade”. Vinod (o produtor Vidhu Vinod Chopra) passa e repassa a questão de saber que religião as protagonistas femininas devem professar, o que pode ser ofensivo, o que pode ser bem aceito pelos espectadores. Finalmente, ele estabelece as diferenças: a senhora Khan, mulher do policial, é hindu, e Sufi, a namorada do militante, é muçulmana. As restrições sob as quais trabalhamos são peculiares ao país. Vinod não pode usar fade to black em seus filmes. Usou cinco num de seus primeiros filmes, quando saiu do Film and Television Institute of India, e a plateia começou a gritar e assoviar. Os espectadores achavam que a luz de arco voltaico estava apagando. No interior os responsáveis pela projeção cortam os fade outs dos rolos de filmes para impedir que a plateia quebre o cinema.
(…)
Nos cinemas da Índia, as plateias aprenderam a saber quando o filme vai terminar. Este senso é ajudado pelas portas que se abrem e pelas luzes que se acendem, cinco minutos antes do fim. As pessoas que têm crianças pequenas precisam sair logo, para pegar um táxi ou um riquixá. Portanto, os cinco minutos finais de qualquer filme híndi estão inevitavelmente perdidos, mesmo que a gente permaneça no cinema, porque a maioria das pessoas na frente se levanta. É por isso que os filmes terminam com uma canção, ou com uma breve reprise dos momentos mais importantes, como a vida de um moribundo passando diante dos seus olhos”.
(…)
Uma sala de cinema indiana jamais se torna uma câmara de inconsciência de massa como no Ocidente. Em primeiro lugar, não se pode mandar ninguém calar a boca. Todos falam à vontade, muitas vezes mantendo um diálogo com os personagens. Se um deus aparece na tela, as pessoas podem jogar moedas ou se prostrar nos corredores. Crianças berram; durante a execução de um número musical, um quarto da plateia pode se levantar e ir comprar lanche no saguão. Diálogo complexo não funciona, porque a maior parte do tempo a plateia não escuta. O som é tão ruim na maioria dos cinemas que, como no teatro, não pode haver sussurros num filme híndi, e a música precisa ser executada o tempo todo no volume máximo”.

Ondas de Tom

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

O documentário do Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim seria melhor definido como uma suíte audiovisual. Não há informações para interromper a música, não há cronologia para demonstrar nada. Tudo vem em ondas (waves), num fluxo caprichoso que vai nos seduzindo mais e mais para a infinita riqueza e a insuperável qualidade da música do Tom. Quando o filme termina, é como uma missa. As pessoas estão contritas e emocionadas, aplaudem e ficam grudadas na cadeira até quase o derradeiro crédito, a derradeira nota. Já se sabia muito e muito ainda se saberá sobre Tom. Mas aqui se trata somente (e maravilhosamente) de “ver” e ouvir a sua música, embalando o coração no colo e desejando que o filme perdure para sempre.

A pequena fábrica de matizes

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Os documentários produzidos pela Matizar de Guilherme Coelho têm apresentado algumas características comuns: a presença de diretores jovens, o bom gosto formal, a eleição de dispositivos interessantes e a procura de temas que fogem às pautas mais frequentes da atualidade.

Assim foi, por exemplo, Romance de Formação, de Julia Simone, perfil sintético de três jovens universitários brasileiros estudando longe de seus locais de origem. Já escrevi aqui sobre esse doc, destacando a convergência entre a linguagem do filme e a disposição dos personagens para perseguir arduamente seus objetivos.

Recentemente vi mais dois filmes da Matizar, estes voltados para a recuperação de expressões artísticas do passado. Um deles é dirigido pelo próprio Guilherme Coelho e tem como personagem central um crítico de arte. Um Domingo com Frederico Morais começa em chave intimista, com o crítico na cozinha de sua casa preparando o café da manhã de um domingo qualquer, um pouco como Manuel Bandeira no clássico curta de Joaquim Pedro. Mas logo a conversa se enviesa para outros domingos, os Domingos da Criação que Frederico Morais, então curador do MAM-Rio, promoveu em1971. A cada domingo entre janeiro e julho daquele ano, ele convidou artistas e público a se juntarem em atividades com materiais específicos: terra, papel, tecido, corpo, som, fios. Milhares de pessoas acorriam aos jardins do MAM numa catarse artística que não deixava de ter uma dimensão política no auge da ditadura.

Um Domingo com Frederico Morais

Tudo isso é evocado em tom de conversa informal, seja em torno de fotos e registros da época, seja em bate-papo de Frederico com participantes como Cildo Meirelles, Amir Haddad e Regina Casé. Embora o dispositivo do “domingo qualquer” não seja mais retomado, prevalece a atmosfera de reminiscência pessoal, bem distante do modelo mais clássico de recuperação didática. De quebra, o filme ainda incorpora uma discussão sobre a função do crítico entre o papel de gerador de manifestações artísticas e o de mero braço auxiliar do mercado.

Esse filme será lançado em breve na caixa de DVDs Retratos Contemporâneos de Arte, juntamente com três outros rebentos da produtora: Fernando Lemos, Atrás da Imagem, de Guilherme Coelho, Cildo, de Gustavo Moura, e 5+5+, de Rodrigo Lamounier.

Uma das corroteiristas de Um Domingo…, Letícia Simões, assumiu a direção de Bruta Aventura em Versos, mais uma iniciativa no sentido de trazer à luz a poesia de Ana Cristina César (1952-1983). Aqui também o formato de “biografia de artista” é matizado por uma abordagem não apenas memorialística, mas também mediada pelos rastros da poeta em jovens criadores de hoje. É Ana Cristina César conjugada no presente através das suas influências sobre poetas, escritores, dançarinos, atores, em sua maior parte mulheres.

Bruta Aventura em Versos

O retrato que da própria Ana emerge é tão fugidio quanto dizem ter sido aquela “sereia de papel”: uma sucessão de fugas, despistes, disfarces. As duras delicadezas de Ana são contadas por contemporâneos seus como Armando Freitas Filho e Heloísa Buarque de Holanda; são incorporadas por outros que nem chegaram a conhecê-la pessoalmente, mas foram tocados pela sua poesia; e são ilustradas por um videografismo flutuante, em que textos e iconografia sugerem uma memória difícil de aprisionar completamente.

Todos esses filmes têm ainda um traço comum: não são dós-de-peito documentais. Não trazem a última palavra sobre nada. Querem apenas trabalhar os matizes de histórias que clamam por ser contadas.

A mentira que altera o mundo

janeiro 20th, 2012 § 1 Comentário

A Separação entra em cartaz pouco depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e posicionar-se como favorito absoluto para o Oscar da categoria. É desde muito cedo candidato a melhor filme do ano nas futuras listas de dezembro.

Talvez só uma sociedade islâmica possa gerar filmes como A Separação. O moderno cinema iraniano, aliás, reflete muito as questões subjacentes à cultura islâmica. A noção de “guerra santa”, por exemplo, era dramatizada metaforicamente no cotidiano nos primeiros filmes de Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf  e Abbas Kiarostami. Já o magistral Asghar Farhadi trabalha em profundidade os limites entre ética e oportunidade, virtude e pecado, que fazem o lastro moral do cidadão iraniano.

Como no anterior Procurando Elly, Farhadi arma um tabuleiro de xadrez em que cada movimento de uma peça se reflete no conjunto. Em ambos os filmes, uma mentira é que detona os acontecimentos. É como se uma mentira fosse sempre capaz de alterar o mundo a partir daqueles que estão próximos. Para recompor o arranjo rompido, será necessário levar ao extremo o jogo das aparências e das conveniências. E o espectador à beira da poltrona de tanto suspense psicológico.

A primeira cena – o casal em plano fixo discute a separação com o juiz – nos mostra a excelência do trabalho de Farhadi com os atores e o texto (o conjunto do elenco ganhou os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim). A sequência seguinte – a família em casa começa a se desorganizar com a saída da mulher – expõe a eficácia do diretor no trato com atores, espaços e sentido. Os múltiplos pontos de vista da cena e os movimentos um tanto confusos exprimem a desorientação geral. Dali em diante, os vários dilemas vão se cruzar e interagir num fluxo irresistível. Enquanto dois casais se acusam reciprocamente, oscila a balança entre os interesses ecnômicos, as regras religiosas, as normas judiciárias, a solidariedade familiar, o compromisso ético e a compaixão humana. Tudo isso repercute, em graus diferentes, sobre o olhar mais inocente de duas meninas e um avô com Alzheimer.

Talvez haja apenas uma “facilidade” na escrita de Farhadi: os lances definidores da trama são adiados para o espectador mediante a interrupção deliberada de certas cenas. Isso pode parecer um truque primário de roteiro, mas seus efeitos são tão satisfatórios que tendemos a perdoar.

De frente para o palco

janeiro 17th, 2012 § 2 Comentários

Carla Ribas em "Testemunha 4"

Estamos assistindo a uma nova onda de interesse pela relação entre o cinema brasileiro e o teatro. Diversos filmes têm investido nesse diálogo – a começar, talvez, por Moscou, de Eduardo Coutinho, que tentava abrir camadas de significação por trás dos ensaios para uma pseudomontagem de As Três Irmãs, de Tchekov.

Essa disposição do cinema para documentar e criar a partir de espetáculos teatrais conheceu um momento efusivo nos anos1990, a chamada era do vídeo. Naquela época, enquanto coordenava o setor audiovisual  do CCBB-Rio, eu programei com a produtora e curadora Irene Monteiro algumas edições da mostra Palco Eletrônico, onde diretores como Adriana Varella, Gilberto Gouma, Eduardo Vaisman, Rosane Svartman e Marisa Alvarez Lima apresentavam seus registros e ensaios filmados na boca de cena.

Estavam ali os precursores de uma geração que hoje inclui Eryk Rocha, Pedro Asbeg, Cristiane Jatahy, Marcelo Grabowsky e o Quarteto Pretti-Parente, entre outros. A variedade de abordagens do evento cênico é a principal característica dessa nova febre teatral.

Eryk e seu irmão Pedro Paulo Rocha assinam uma das cinco “(trans)versões autorais” do mega-espetáculo Os Sertões, editadas em DVD pelo Teatro Oficina com patrocínio da Petrobras. Os filmes (A Terra, O Homem I e II, A Luta I e II) destacam-se pelo apetite audiovisual com que se lançam à cena e aos bastidores da peça, e ainda pelo uso de 11 câmeras móveis, incluindo grua, steadicam e flyingcam.

Mentiras SincerasPedro Asbeg, que há dez anos vem dirigindo os DVDs da Cia. Armazém de Teatro, apresentou em festivais no ano passado o longa Mentiras Sinceras, exercício de captação das entranhas de uma montagem da peça Mente Mentira, de Sam Shepard (foto à esquerda). A linguagem fílmica se presta sobretudo a aprofundar a reflexão dos atores sobre seu trabalho. Em minha resenha de outubro último, eu classifiquei o filme como um thinking of da peça.

Outra incursão importante no rumo de um hibridismo entre cinema e teatro foi A Falta que nos Move, de Cristiane Jatahy, transposição para a tela de sua experiência homônima no palco. Tratava-se de reproduzir diante das câmeras a mesma aventura de improvisação de um grupo de atores reunidos à espera de outro que demora a chegar. Não fiquei muito seduzido pela proposta de Cristiane, na medida em que os recursos me pareceram repetitivos e os resultados, bastante inócuos tanto como cena quanto como cinema.

Outra ideia em que não embarquei foi a dos Irmãos Pretti e Primos Parente de filmar a peça Eutro, de Rodrigo Fischer, numa espécie de bolha preto-e-branco sem plateia. As câmeras de No Lugar Errado operam livremente diante e entre os quatro atores (dois casais) envolvidos num jogo cênico de atração e repulsa que se estende por uma longa noite. O teatro aqui é matéria bruta para uma filmagem minimalista (eu diria mesmo lacônica). A peça, por sua vez, me soou um tanto pueril, apesar da boa trip dos atores.

Deixo por último uma das experimentações mais curiosas nessa safra de cineteatro. Até porque Testemunha 4 vai ter uma sessão nesta quarta-feira, dia 18, às 20 horas, no Midrash Centro Cultural (Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon, Rio). Depois do filme, o diretor Marcelo Grabowsky e a atriz Carla Ribas conversam com a plateia.

Meio brincadeira, meio sério, costumo dizer que o filme é o cruzamento possível entre A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, e o documentário Zidane – Um Retrato do Século XXI. Explico. Testemunha 4, ganhador do prêmio de melhor direção da última Semana dos Realizadores, parte da montagem de O Interrogatório, de Peter Weiss, com direção de Eduardo Wotzik. Em setembro de2009, a peça, de seis horas de duração, foi encenada quatro vezes consecutivas numa “vigília cênica” de 24 horas ininterruptas. Durante esse período, os cerca de 40 atores não deveriam dormir nem sair do personagem, mesmo se estivessem fora de cena. Marcelo Grabowski optou por filmar a maratona com as lentes afixadas na atriz Carla Ribas, sua mãe.

A câmera concentra toda sua atenção nos closes dramáticos da atriz, no papel de uma das testemunhas no Julgamento de Frankfurt (1963-65), que condenou oficiais nazistas por seus atos em Auschwitz. Isso remete imediatamente à Joana D’Arc de Dreyer, que não esteve ausente das referências de Marcelo ao fazer o filme. Mas Carla Ribas também é vista nos momentos de repouso, refeições, nos bastidores do teatro etc. O filme se revela então uma testemunha do trabalho contínuo da atriz, de sua permanente “ocupação” pelo personagem. Nesse sentido, lembra o doc de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que acompanhava cada movimento ou inação de Zidane (e só ele) durante os 90 minutos de uma partida de futebol.

Nessas várias aproximações do jovem cinema brasileiro ao teatro, o que aparece em comum é o desejo de fugir ao mero registro, buscar uma interação diferente dos velhos modelos de filme-peça e, ao mesmo tempo, reinventar o que é tradicionalmente amaldiçoado como “teatro filmado”. Encarar o palco de frente e sem medo para produzir alguma coisa que só compete ao cinema.

Sucessos segundo Ely Azeredo

janeiro 16th, 2012 § Deixe um comentário

O crítico e amigo Ely Azeredo enviou comentários a respeito do assunto do meu post anterior, As contas do nacional-popular.  Mais que meros comentários, acho que merecem o destaque de um post especial.

Rabiscos às margens de seu estudo para Filme Cultura

>O CANGACEIRO – Um dos muitos enigmas, até porque é sabido que havia “caixas de ingressos 2″ no mercado exibidor. A coisa se complicou quando a Vera Cruz entregou o filme à Columbia para quitar dívidas. O filme de Lima Barreto rodou mundo (legendas em árabe, japonês etc). Na última rodada pelos grotões USA, ”O cangaceiro” passou como “anglo”, com título trocado, e elenco de nomes gringos, à moda do western espaguete.

>APLAUSOS ENGAJADOS – O Partidão mandava seus fiéis puxarem aplausos para alguns lançamentos “nacional-populares”. O caso mais conhecido: “O pagador de promessas”. O companheiro e autor da peça teatral, Dias Gomes, merecia.

>O ÉBRIO – Um dos maiores sucessos de nossa História. Infelizmente sem registros “matemáticos”. Os exibidores rogavam por cópias. Pelo menos até as vésperas do Cinema Novo a produção da Cinédia ainda rodava pelas periferias e pelo deep Brasil. Nada que empolgasse a classe média – ao contrário das chanchadas Atlântida.

>OS HOMENS QUE EU TIVE – Só faltou dar cadeia para a menina Teresa Trautman, 22 anos, estreante na longa-metragem - essa historia de “ter homens”…no Brasil Grande (e Macho) da ditadura militar.  Um estouro em 1973, no Rio, reforçado por polêmicas que atraíram a ira das censuras. Um grande circuito de SP reservara datas “a seguir”. Proibidíssimo. Quando Brasília largou o osso, muitos anos depois, a produção tinha perdido o Ponto G (a sexualidade estava na geléia geral) e os contratos de exibição deteriorados.

>MAZZAROPI – Sua história econômica nunca foi muito bem apurada. Sou testemunha ocular de que o pseudo-Jeca apreciava  levar dinheiro de bilheteria em maletas. Eram tempos de menos bandidagem, e ele não fazia cerimônia com isso nos escritórios das distribuidoras. A partir de 1958, quando se tornou produtor, fechava seus acordos de exibição com os donos de cinemas – por circuitos e, frequentemente, sala por sala. Tornou-se também distribuidor. Pelo que faturava (isoladamente) na capital de São Paulo, continuaria rico se perdesse o resto de SP e do Brasil.

>INGRESSOS BARATOS – Enquanto os filmes norte-americanos chegavam montados no lucro de seu mercado doméstico, as produções brasileiras sofriam com o tabelamento dos ingressos – fator de estresse que entrou pelos anos 1960. ”O cangaceiro”, por exemplo, estreou durante o último governo Vargas, que não admitia qualquer reajuste na entrada da grande diversão popular. Certamente ingressos menos nanicos não impediriam a grande adesão popular a filmes como os citados acima.

Ely Azeredo

As contas do nacional-popular

janeiro 12th, 2012 § 1 Comentário

Em tempos de muitas estatísticas sobre o mercado do cinema brasileiro, publico aqui a matéria que fiz para a revista Filme-Cultura nº 52, cujo tema de capa era uma história dos arrasa-quarteirão verde-amarelos. O artigo se refere aos sucessos de bilheteria dos anos 1960 e 70.

Numa cena do documentário Cinema Novo (Improvisiert und Zielbewusst), dirigido em 1967 por Joaquim Pedro de Andrade para a TV alemã, vemos Cacá Diegues e Zelito Viana fazerem a ronda pelos cinemas do Rio no dia da estreia de A grande cidade. O diretor e o produtor do filme entram em cada sala para conferir a afluência de público. Por duas vezes, a câmera se detém nas urnas transparentes onde eram depositados os ingressos. Àquele recipiente mágico, termômetro do sucesso de um filme, Glauber Rocha se referia como “cacife”.

A semântica de jogo não era desprovida de sentido nos anos 1960. Mais que hoje, a sorte de um lançamento era decidida pelo acaso. Não havia P&A (orçamento para despesas de comercialização), nem qualquer ciência de divulgação. As fichas eram jogadas nos anúncios de jornal publicados pelo exibidor. O chamado “decreto” (lei que reservava 56 dias por ano para a exibição de filmes brasileiros), se garantia a chegada às salas, também induzia à retirada de cartaz tão logo se cumprisse o prazo mínimo exigido pela lei.

Os filmes eram produzidos com recursos próprios, empréstimos bancários pessoais e patrocínio privado, às vezes favorecidos pelo que Gustavo Dahl chamou de “industrialização do mecenato”. Podia-se obter, quando muito, uma mãozinha oficial do governo do estado da Guanabara ou, a partir de 1967, do Instituto Nacional do Cinema (INC). Se a renda fosse gorda, o filme se pagava e talvez sobrasse para comprar carro e apartamento. Se não fosse, assumia-se o prejuízo e partia-se para outra. “A gente andava mesmo pelos cinemas olhando o ‘cacife’, conversando com o gerente, conferindo o som”, lembra Zelito Viana, um dos fundadores da produtora Mapa Filmes.  Continue lendo

Tiffinwallas

janeiro 9th, 2012 § 5 Comentários

Sempre que estou preparando uma viagem mais, digamos, intensa, gosto de submergir nas referências do lugar: leituras, filmes, músicas, conversas com quem já foi lá e revisita às minhas próprias imagens e recordações quando se trata de um local onde já estive antes. Essa pré-viagem é, para mim, quase tão importante quanto a viagem em si. É a criação de expectativas, a pré-seleção do que ver, o antegustar dos detalhes. Às vezes acaba sendo melhor que a viagem em si, o que vale como uma espécie de compensação.

Agora mesmo estou em plena pré-viagem para a Índia. Em fevereiro vou participar do júri de um festival de cinema em Bombaim e, em seguida, conhecer um pouco do sul do país, que ficou de fora da minha viagem de 2005 pela metade norte. Estou lendo Bombaim Cidade Máxima, de Suketu Mehta, relendo trechos do incontornável Índia – Um Olhar Amoroso, de Jean-Claude Carrière, e ainda pretendo passear ao léu pelas 900 páginas de Shantaram, de Gregory David Roberts. A exposição do CCBB e a Mostra Bhava de cinema indiano vieram a calhar no final do ano.

Fui rever minhas gravações em vídeo de sete anos atrás em Bombaim e tive vontade de editar essas cenas com os Tiffinwallas (ou Dabbawallas), os famosos entregadores de marmita da cidade. Trata-se de um serviço inimaginável numa cidade moderna, mas que lá se mantém por tradição. Os trabalhadores saem de suas casas de subúrbio pela manhã sem levar suas lunch boxes. Por volta das 11 horas, os Tiffinwallas começam a coletá-las nas casas e transportá-las por trem até a estação de Churchgate, no centro. Dali sai uma malha de distribuição para os escritórios e locais de trabalho. O objetivo é que a comida chegue ainda quentinha às mãos do cliente.

O mais incrível ainda está por vir. À tarde os Tiffinwallas recolhem as marmitas e as devolvem da mesma maneira às casas de origem. Vale tudo para dar emprego às multidões indianas. O serviço é tão eficiente que já mereceu o prêmio Six Sigma da revista Forbes. Veja meu vídeo de 6 minutos:

407 horas de cinema brasileiro

janeiro 5th, 2012 § 5 Comentários

A Programadora Brasil, distribuidora de filmes brasileiros em DVD para exibições não comerciais, vinculada à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, completou em 2011 cinco anos de existência, com um público superior a 500.000 espectadores. Eles publicaram um catálogo geral do acervo e me convidaram para escrever o texto de apresentação. É um tanto mais longo que a média postada aqui no blog. Vamos a ele:

Poucas cinematografias no mundo podem se orgulhar de ter, numa mesma coleção de DVDs, um acervo amplamente representativo como o da Programadora Brasil. Com uma vantagem que não é pequena: eis uma coleção que, ao invés de ser vendida a preço de ouro em livrarias chiques, é disseminada a custo baixo em cineclubes, escolas, espaços culturais, bibliotecas e espaços correlatos país afora, do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Uma cinemateca ambulante, pode-se dizer. Os números são expressivos: em 255 discos (ou programas), encontram-se 825 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. Totalizam 407 horas de cinema. Para assistir ao catálogo inteiro, um espectador precisaria dedicar 50 dias em jornadas integrais de oito horas, sem intervalos. Mas como essa não é uma experiência das mais saudáveis, os programas vêm formatados para se conhecer, com calma e esclarecimento crítico, os momentos mais interessantes dessa aventura que é o cinema brasileiro.  Continue lendo

Rastros de 2011

janeiro 2nd, 2012 § 9 Comentários

Divido com vocês as informações de um relatório enviado pela WordPress a respeito do desempenho deste blog em 2011. Não foi nenhum Mashable!, mas também não creio que tenha sido desprezível para um blog individual, solto no mundo e sem celebridades envolvidas.

Os rastros de carmattos receberam 92.000 visitas durante o ano, o que, segundo a WordPress, corresponde à visitação do Louvre durante quatro dias. Isso dá uma média de 7.666 visitas por mês, 1.916 por semana e 273 por dia. Brasil, Portugal e Argentina foram os países onde mais se clicou por aqui.

O dia com mais tráfego foi 19 de março, com 920 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Menos silêncio, por favor. Ao todo foram publicados 238 novos artigos, contendo 288 imagens.

A performance de comentários continuou sendo bem fraquinha. Mas vale a pena destacar os comentadores mais ativos, pela ordem: Fernando Trevas Falcone, Vitor Souza Lima, Thereza Jessouroun, Ariane Mondo e Paulo Lima. A eles agradeço em nome da troca e da interatividade. Agradeço, é claro, a todos os visitantes frequentes e aos assinantes que recebem notificações automáticas por email.

Aproveito para informar que o blog vai ter atualização um pouco menos frequente nos meses de janeiro e fevereiro. Mas pelo menos um post novo por semana dá pra garantir. Quem anda sempre deixa rastros.

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