De frente para o palco

Carla Ribas em "Testemunha 4"

Estamos assistindo a uma nova onda de interesse pela relação entre o cinema brasileiro e o teatro. Diversos filmes têm investido nesse diálogo – a começar, talvez, por Moscou, de Eduardo Coutinho, que tentava abrir camadas de significação por trás dos ensaios para uma pseudomontagem de As Três Irmãs, de Tchekov.

Essa disposição do cinema para documentar e criar a partir de espetáculos teatrais conheceu um momento efusivo nos anos1990, a chamada era do vídeo. Naquela época, enquanto coordenava o setor audiovisual  do CCBB-Rio, eu programei com a produtora e curadora Irene Monteiro algumas edições da mostra Palco Eletrônico, onde diretores como Adriana Varella, Gilberto Gouma, Eduardo Vaisman, Rosane Svartman e Marisa Alvarez Lima apresentavam seus registros e ensaios filmados na boca de cena.

Estavam ali os precursores de uma geração que hoje inclui Eryk Rocha, Pedro Asbeg, Cristiane Jatahy, Marcelo Grabowsky e o Quarteto Pretti-Parente, entre outros. A variedade de abordagens do evento cênico é a principal característica dessa nova febre teatral.

Eryk e seu irmão Pedro Paulo Rocha assinam uma das cinco “(trans)versões autorais” do mega-espetáculo Os Sertões, editadas em DVD pelo Teatro Oficina com patrocínio da Petrobras. Os filmes (A Terra, O Homem I e II, A Luta I e II) destacam-se pelo apetite audiovisual com que se lançam à cena e aos bastidores da peça, e ainda pelo uso de 11 câmeras móveis, incluindo grua, steadicam e flyingcam.

Mentiras SincerasPedro Asbeg, que há dez anos vem dirigindo os DVDs da Cia. Armazém de Teatro, apresentou em festivais no ano passado o longa Mentiras Sinceras, exercício de captação das entranhas de uma montagem da peça Mente Mentira, de Sam Shepard (foto à esquerda). A linguagem fílmica se presta sobretudo a aprofundar a reflexão dos atores sobre seu trabalho. Em minha resenha de outubro último, eu classifiquei o filme como um thinking of da peça.

Outra incursão importante no rumo de um hibridismo entre cinema e teatro foi A Falta que nos Move, de Cristiane Jatahy, transposição para a tela de sua experiência homônima no palco. Tratava-se de reproduzir diante das câmeras a mesma aventura de improvisação de um grupo de atores reunidos à espera de outro que demora a chegar. Não fiquei muito seduzido pela proposta de Cristiane, na medida em que os recursos me pareceram repetitivos e os resultados, bastante inócuos tanto como cena quanto como cinema.

Outra ideia em que não embarquei foi a dos Irmãos Pretti e Primos Parente de filmar a peça Eutro, de Rodrigo Fischer, numa espécie de bolha preto-e-branco sem plateia. As câmeras de No Lugar Errado operam livremente diante e entre os quatro atores (dois casais) envolvidos num jogo cênico de atração e repulsa que se estende por uma longa noite. O teatro aqui é matéria bruta para uma filmagem minimalista (eu diria mesmo lacônica). A peça, por sua vez, me soou um tanto pueril, apesar da boa trip dos atores.

Deixo por último uma das experimentações mais curiosas nessa safra de cineteatro. Até porque Testemunha 4 vai ter uma sessão nesta quarta-feira, dia 18, às 20 horas, no Midrash Centro Cultural (Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon, Rio). Depois do filme, o diretor Marcelo Grabowsky e a atriz Carla Ribas conversam com a plateia.

Meio brincadeira, meio sério, costumo dizer que o filme é o cruzamento possível entre A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, e o documentário Zidane – Um Retrato do Século XXI. Explico. Testemunha 4, ganhador do prêmio de melhor direção da última Semana dos Realizadores, parte da montagem de O Interrogatório, de Peter Weiss, com direção de Eduardo Wotzik. Em setembro de2009, a peça, de seis horas de duração, foi encenada quatro vezes consecutivas numa “vigília cênica” de 24 horas ininterruptas. Durante esse período, os cerca de 40 atores não deveriam dormir nem sair do personagem, mesmo se estivessem fora de cena. Marcelo Grabowski optou por filmar a maratona com as lentes afixadas na atriz Carla Ribas, sua mãe.

A câmera concentra toda sua atenção nos closes dramáticos da atriz, no papel de uma das testemunhas no Julgamento de Frankfurt (1963-65), que condenou oficiais nazistas por seus atos em Auschwitz. Isso remete imediatamente à Joana D’Arc de Dreyer, que não esteve ausente das referências de Marcelo ao fazer o filme. Mas Carla Ribas também é vista nos momentos de repouso, refeições, nos bastidores do teatro etc. O filme se revela então uma testemunha do trabalho contínuo da atriz, de sua permanente “ocupação” pelo personagem. Nesse sentido, lembra o doc de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que acompanhava cada movimento ou inação de Zidane (e só ele) durante os 90 minutos de uma partida de futebol.

Nessas várias aproximações do jovem cinema brasileiro ao teatro, o que aparece em comum é o desejo de fugir ao mero registro, buscar uma interação diferente dos velhos modelos de filme-peça e, ao mesmo tempo, reinventar o que é tradicionalmente amaldiçoado como “teatro filmado”. Encarar o palco de frente e sem medo para produzir alguma coisa que só compete ao cinema.

3 comentários sobre “De frente para o palco

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