O céu segundo Bach

Meu saudoso amigo Victor Giudice (1934-1997) costumava chamar alguns músicos clássicos de “celestiais”. Bach, Mozart e Mendelsohn seriam “celestiais” por fazerem uma música que elevava o espírito e pairava acima das coisas do mundo. Eu, então, ficava imaginando quais seriam os “infernais”: Liszt, Wagner, Beethoven, talvez, em cujas obras faísca o fogo dos dramas e arde o mundo tormentoso das emoções.  

Ando pensando nisso diariamente. Na lojinha de uma igreja de Siena encontrei uma pechincha irresistível: uma caixa com 10 CDs de gravações históricas da obra vocal completa de Bach por apenas 34 euros. Lá estão o Oratório de Natal, a Paixão Segundo São João, a Paixão Segundo São Mateus e a Missa em Si Menor.

Tenho ouvido um CD por dia. O céu entra pela casa e tudo parece levitar. Nessas horas, penso que a religião talvez não seja tão má assim. Se dividiu o mundo em facções e motivou tantas guerras, ao menos inspirou tais maravilhas. Certas composições não chegam a redimir os muitos pecados da fé, mas tornam audível o paraíso. A música de Bach é uma dessas coisas que por aí chamam de deus. Pena que, em vez de ouvi-la, tanta gente teima em ouvir apenas a si mesma.   

3 comentários sobre “O céu segundo Bach

  1. Já que a fase é de música sacra, tomo a liberdade de sugerir uma ouvidinha (ou escutar de novo, caso já seja familiar) na chamada “Grande Missa em Dó Menor” de Mozart que mistura influências de Haendel, Bach (pai e filho), com uma abertura arrebatadora do tipo “celestial”: é um Kyrie em que coro e soprano se revezam de forma indescritível em palavras: só escutando. E se permite o palpite completo, a Barbra Hendricks tinha voz de mel quando gravou no registro com regência do Von Karajan para o selo Deutsche Grammophon. Temo que esteja fora de catálogo como quase tudo da Deutsche: não se compra mais CDs (por isso talvez a penchincha em que compraste os Bach sacros), mas pode-se adquirir muita coisa da Deutsche pelo site, é só pagar e “baixar”. Ou seguir o método mais tradiconal do capitão Gancho, rs. A Missa de Mozart já foi menos badalada do que o famoso “Requiem” que ainda tem uma lenda em torno de sua criação, mas – mesmo inacabadas – estas duas obras do Amadeus não fazem nada feio frente ao velho Bach.

      • Já escutou um trecho, pelo menos, sim: Robert Bresson usou o inpico da Missa em Dó de Mozart no “Condenado à morte escapou”, lembrei depois, voc~e deve ter visto este filme alguma vez na vida. Em “Amadeus” do Forman também acho que algum trecho da Missa foi usado. E certamente o trecho mais pungente do “Requiem” (o trecho “Lacrimosa”) tocava no enterro de Mozart – em vala comum. O CD está às ordens.

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