12 dias com Cassavetes

Ben Gazzara, Gena Rowlands e John Cassavetes

Ben Gazzara, Gena Rowlands e John Cassavetes

Como o joelho operado ainda restringe meus movimentos, tenho saído pouco de casa. As peças e exposições se acumulam na minha agenda, mas só consigo atender à prioridade dos filmes. Em casa, programei uma retrospectiva John Cassavetes diretor. Sem dúvida, melhor que qualquer atração do lado de fora.

Vendo assim, um filme a cada dia, em ordem cronológica, acompanhei não somente a evolução de sua obra, mas a progressão de sua vida. Porque era daí que Cassavetes extraía corpo e alma de seus filmes: a expansividade quase maníaca, o medo da solidão, o gregarismo, a teimosia em independer do sistema, o culto à imprevisibilidade. E também o álcool (que o matou), o fumo, a verbalização obsessiva e inteligente.

Ver/rever a obra de Cassavetes numa enfiada é ver o tempo passar sobre uma família:  as rugas surgirem aos poucos no rosto infinitamente belo de Gena Rowlands; a cabeleira e bigodes de Seymour Cassel trocarem o louro pelo grisalho; as espinhas ocuparem cada vez mais o rosto do velho Val Avery; o próprio John desfilar seu charme casual através dos anos e depois definhar na enfermidade. É ver as mudanças na decoração da casa de John e Gena (onde eles tanto filmaram, de Faces a Love Streams). É ver a paisagem e o design americanos mudarem entre os anos 1960 e 80. É amar aquela turma como se fossem amigos queridos que apenas não sabiam concretamente da nossa existência.

É também entrar de cabeça num cinema que tira sua beleza do risco. Nunca houve e talvez nunca vá haver um cineasta como John Cassavetes nos EUA. Alguns dizem que ele era o rei da improvisação. Outros, que aplicou os princípios do cinema-verdade à ficção. Era isso e não era bem isso. Cassavetes fazia um cinema de pura energia emocional, calcado no engajamento profundo de seus atores-parentes. Não há pretensão documental, mas sim uma sucessão de saltos mortais na ficção. Diálogos escritos, situações sólidas, mas tudo isso aberto ao momento da filmagem, à dinâmica interação dos atores na hora da cena. E a insubmissão a qualquer fórmula, a ausência de qualquer clichê (à exceção dos “comerciais” Gloria e Big Trouble).  

Daí aquela maravilhosa sensação de embarcarmos num fluxo de vida que começou não se sabe onde, e terminará em algum momento virtual que já não veremos mais. É disso que surge, por exemplo, o suspense extraordinário da entrada em cena de Myrtle Gordon em Opening Night; ou a hilaridade de Sarah Lawson chegando em casa de táxi com dois pôneis, uma cabra, uma pata, algumas galinhas e um periquito – tudo para reativar a afetividade do irmão em Love Streams; ou ainda o tour-de-force de Chet para salvar uma drogada Maria Forst em Faces.

Cenas inesquecíveis de um cinema radical e encantador. Cassavetes filmava com o coração e o fígado.  

Obrigado, Julio Miranda

9 comentários sobre “12 dias com Cassavetes

  1. Para quem não viu os filmes de Cassavettes, acabou de chegar um box com os cinco melhores filmes do diretor em dvd nacional. FACES, SOMBRAS, NOITE DE ESTREIA, BOOKMAKER, UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA.

    OBS: ficou faltando o MARIDOS para poder ver com legendas em portugues os melhores de sua obra.

    • Eu não coloco Bookmaker entre os melhores. No seu lugar, citaria LOVE STREAMS (Amantes), seu filme-testamento. Mas esse pacote é tudo de bom. Espero que façam fila na Cavídeo.

  2. Grande Carlinhos

    Às vezes tenho vontade de ser obrigado a ficar de molho só pra exercer minha cinefilia com mais calma e dedicação. Invejo você, embora tenho revisto boa parte da obra de Cassavetes recentemente, e gostado ainda mais. Uma Mulher Sob Influência continua sendo meu preferido, imbatível.

    abraços

  3. Lindo texto sobre Casavetes nosso herói e Gina! A linda cena de ” A Woman under the influence” em que Gina improvisa até cansar é uma das coisas mais bonitas que eu já vi em cinema…. A cena em que ela espera os filhos chegarem em casa no ônibus escolar também é incrível, o melhor do cinema junto com o melhor da atuação… Grande dupla!!!

  4. Gostei muito de “Os Maridos”, primeiro filme do Cassavetes que assisiti, uma única vez, em um dos muitos extintos cinemas cariocas (este era na Praça N.Sra. da Paz, Ipanema). E tenho outra boa lembrança de “Minnie e Moskovitz” visto no igualmente extinto Cinema-1 da Prado Júnior (que tinha excelente programação nos primeiros anos, trazendo raridades como este Cassavetes e um Kazan “independente”, “Os Visitantes”).
    Mas outros filmes do Cassavetes, que só fui conhecer nos últimos 10 anos (graças ao Julio e o Polytheama – viva! – ou mesmo em uma retrospectiva de já antigo Festival do Rio) me incomodaram um pouco pela descostura na evolução dos roteiros (melhor seria dizer “argumentos” ou “motes” ?) e das filmagens muito estendidas, às vezes dando impressão de improvisação demais para objetivo de menos. É assim que o ponto de partida impactante de “Opening Night” (com a cena de abertura citada/copiada por Almodóvar em “Tudo sobre Minha Mãe”) vai se diluindo até a cena final descozida de comédia em um palco, e “Uma Mulher Sob Influência” também se ressente de questão similar: idéias fortes se esgarçando em uma ação entre amigos atores improvisando. Tudo bem que os amigos são ótimos atores e Gena Rowlands é o máximo, mas não consigo achar todos os filmes dele tão ótimos quanto meus amigos cassavetianos garantem que são. Muitos (muitos mesmo) degraus abaixo, “Bookmaker Chinês” só não é pior do que o feito de encomenda e fraquíssimo “Big Trouble”, um melancólico encerramento de carreira. Espero poder rever um dia “Husbands” e “Minnie” sem me decepcionar. P.S: Gostei muito da direção do filho Nick (with a little help da mãe-atriz Gena) em “Unhook the Stars” (renomeado de modo indigente por aqui como “De Bem com a Vida”). E também gostei do subestimado “Alpha Dog”, tb do Nick. Abraços. Melhoras para o joelho.

    • Sugiro rever “Opening Night”, para mim uma de suas obras-primas. A sequência final, com aquele suspense extraordinário em torno da entrada em cena de Myrtle completamente bêbada, e em seguida as entradas e saídas dela e de John entre o texto original da peça e os temas da vida real deles, é tudo o que Coutinho não conseguiu fazer em “Moscou” (bom, não era bem isso o que pretendia… aliás, o que pretendia?, mas deixa pra lá).
      Cassa filmava até terminar o rolo para não cortar o fluxo de vida que corria dentro da cena. Às vezes se estende demais, é verdade, mas aquele tempo acaba adquirindo um significado interessante dentro da história. Posso me incomodar na hora, mas gosto logo depois.
      Lamento discordar de você quanto a Bookmaker Chinês: acho esse o pior da obra, bem inferior ao Big Trouble, que pelo menos é engraçado em sua mistura de Billy Wilder, Mel Brooks e Cassavetes. E tem as citações muito divertidas a “A Woman Under the Influence”.

    • Neste filme de Polanski, Cassavetes foi somente ator. Ele aplicava o dinheiro ganho como ator nos seus filmes independentes e ultrapessoais.

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