Pílulas na rede 14

Fui ver esse coreano HAHAHA com as melhores expectativas. Ruy Gardnier, crítico confiável, deu cotação máxima, amigos elogiam no Facebook. Estou chateado de não poder concordar. Achei o filme extremamente pueril, superestimado como dispostivo narrativo, indistinto como realização cinematográfica. Os atores são bons, há duas ou três cenas de fato engraçadas, mas não vi razão para tanto elogio. Afora o fato de que, na sessão em que eu estava, várias pessoas saíram perplexas, com cara de sono e sem entender a tal narrativa alternada, muito menos seus propósitos. Mesmo tendo acompanhado bem o quebra-cabeça, não consigo enxergar qual a novidade sobre o amor, o cinema ou os costumes coreanos que o filme encerraria. A não ser, talvez, a espantosa revelação de que lá as mães usam cabides para bater nas canelas do filhos. Ou será somente mais uma invenção diabólica de Hong Sang-soo?

Antes de tudo, é preciso garantir que QUAL É O NOME DO BEBÊ? não é a comédia boboca de gravidez que o título brasileiro sugere. A apresentação dos personagens, naquele jeito veloz e espirituoso do cinema francês, é uma delícia. Instala-se a situação a partir de um diálogo corriqueiro e dali em diante o que se vê é uma comédia dramática que nos seus melhores momentos sugere um DEUS DA CARNIFICINA mais light. O problema é esse light. “Le Prénom” não segura sua premissa e tudo se desenrola como um joguinho da verdade pequeno-burguês. A revelação culminante devolve um pouco de graça ao filme, já perto do final, mas não é o suficiente para criar algo distinto. Ou seja, não é um lixo, mas tampouco é indispensável.

A NEGOCIAÇÃO começa ruim, tudo parecendo muito óbvio, mas depois evolui para um thriller bem interessante que mistura suspense financeiro, criminal e familiar de maneira bem orgânica. Toca, ainda, em questões de ressentimento de classe e relações interraciais. Enfim, não é um mero filme-pipoca. Richard Gere está impecável, assim como Tim Roth.

Instigado por minha amiga Renata Giudice, fui conferir o monólogo A DESCOBERTA DAS AMÉRICAS no Teatro Serrador. Não tem ar condicionado mas vale cada centavo pela atuação de Juliano Adrião. A partir de um texto de Dario Fo, que Juliano provavelmente encheu de cacos impagáveis, o ator vive sozinho um épico inteiro com caravelas, tempestades, 5.000 índios (incluindo cunhãs gostosinhas), cavalos e navegadores do século 16. O cara é muito fera. Além da fala e da pantomima de vários personagens, ele também faz a cenografia e a sonoplastia. De uma tormenta no mar ao balanço de uma rede, ele sugere tudo no palco vazio. É um trabalho extraordinário que deve ser conferido por quem aprecia ou estuda técnicas teatrais. E é também uma visão crítica hilariante do processo colonizador.

O cinema francês volta e meia reinventa o naturalismo à sua maneira. FERRUGEM E OSSO, sucesso em Cannes e inédito no Brasil, faz isso de maneira diabolicamente envolvente. O relacionamento entre uma treinadora de baleias que perdeu as duas pernas e um lutador de kickbox cria uma insólita poética de corpos entregues à violência, ao prazer e aos constrangimentos. Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts dão um show de economia dramática e mostram uma química estranha, movida a oposições que se encontram em algum ponto misterioso. Trilha supimpa de Alexandre Desplat, canções super bem colocadas, uma belíssima fotografia com muita contraluz, edição sonora primorosa e um roteiro que se baseia mais nos diálogos físicos que verbais. Talvez não seja um filme substancioso, mas é daqueles que grudam em nossa sensibilidade como tatuagem indelével. E tem ainda um comentário interessante sobre o empobrecimento da França e a selva em que se transformou o mundo dos empregos.

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