Pílulas 34

Em AMOR PLENO, Terrence Malick prossegue sua interrogação sobre o lugar do Amor no mundo e a existência de Deus. Este é mais intimista e experimental que A ÁRVORE DA VIDA. Não chega a recriar o planeta e encenar o Além, mas tem a coragem de botar Javier Bardem no papel de um padre que interroga o Pai Eterno em espanhol. A família de novo está no centro, embora concentrada no casal. De resto, é a mesma maneira “extraterrena” de filmar: vozes que vêm da mente ou não se sabe de onde, montagem descontínua e tão livre que chega ao limite da arbitrariedade, um clima onírico sublinhado pela ideia de que “a vida é sonho”. E o mesmo virtuosismo visual. Não sei o que seria desse Malick atual se não fossem a steadicam, as contraluzes e as “horas mágicas” dos fins de tarde em que a luz dourada se refrata entre árvores e cabelos ou adoça os campos ao som de Haydn, Wagner ou Rachmaninoff. Ben Affleck é bastante ajudado pela ausência de falas. O título original, TO THE WONDER, se refere a “La Merveille”, apelido do Monte Saint Michel, ícone romântico e religioso da França onde começa para nós a história desse casal à beira da paixão e da incomunicabilidade.

Não li o romance NORWEGIAN WOOD do Murakami, mas por outras adaptações que conheço de sua obra, percebo que o filme do vietnamita Tran Anh Hung captou muito do romantismo estranho e melancólico das histórias do escritor sobre amores juvenis. Aqui temos um rapaz tímido que se envolve com três mulheres diferentes enquanto tenta deixar para trás os “cadáveres” dos amigos que vão morrendo pelo caminho. Ambientado nos anos 1960, trata daquela idade em que o sexo era difícil, os amores incompletos e a morte rondava sempre os planos de felicidade dos jovens. Hung filma no seu estilo sensual e preciosista, com tomadas sempre em movimento e superfícies que se interpõem entre os atores e a câmera – recurso favorecido ou inspirado pela arquitetura oriental com seus painéis, cortinas e portas de correr. NORWEGIAN WOOD se passa no Japão, mas o que temos é sempre o “país” de Hung: a natureza usada de maneira expressionista, os espaços fluidos, um distanciamento quase autista entre os personagens e a realidade ao seu redor. Não estamos no nível de PAPAYA VERDE ou CYCLO, mas há belas imagens e delicados sentimentos de sobra para quem aprecia.

Ricardo Darín é mais uma vez o aval de um sucesso do cinema argentino. Mas TESE SOBRE UM HOMICÍDIO está longe de merecer Ricardo Darín. Desde a cena inicial, dá pra perceber que o filme vai explorar os clichês mais corriqueiros do gênero policial dentro de uma roupagem visualmente estilosa, mas sem conexão entre forma e conteúdo. Pontuada por citações sobre o funcionamento da Justiça, a trama que coloca o professor de Direito na investigação de um crime soa pretensiosa a não mais poder. Cedo, porém, a gente começa a intuir que nada de interessante ou surpreendente poderá surgir, tal é a maneira como o roteiro vai fechando todas as portas para que isso aconteça. Sobram o ar cool de Darín, os volteios sedutores da câmera, os requintes de cenografia do “bom gosto portenho” e a trilha sonora atmosférica. No saldo final, apenas uma tese sobre como vestir com elegância um corpo flácido.

AUGUSTINE é um belo drama pré-psicanalítico que consegue administrar informação científica e erotismo com rara felicidade. Há mesmo um lance quase exploratório no roteiro da diretora Alice Winocour. Assim como a ciência expunha e objetificava os pacientes no século XIX, o filme aguça a curiosidade do espectador sobre a histeria da personagem e sobre sua relação de transferência amorosa para o médico que se dispõe a curá-la. A atriz-cantora Soko, com sua presença fortemente carnal, é um elemento importante nessa equação, assim como a testosterona a custo contida de Vincent Lindon. Tive a impressão de que os acadêmicos engolem facilmente demais a farsa final de Augustine, mas como meu colega crítico-picanalista Luiz Fernando Gallego Soares não menciona isso no seu artigo, devo estar errado. Vale a pena ler a análise e as informações importantes reunidas por ele aqui.

Se a medida é o risômetro, eu ri bem mais com JUAN DOS MORTOS do que com o desastre aéreo do Almodóvar. A comédia de Alejandro Brugués radicaliza aspectos que o cinema cubano sempre abordou, como a crítica bem-humorada às mazelas do regime de Fidel e os dilemas da solidariedade popular. Radicaliza ao ponto da incorreção política, retratando uma epidemia de dissidência que se transforma em ataque generalizado de zumbis e põe Havana literalmente em chamas. O léxico do filme de zumbi se presta surpreendentemente a esse escracho da vida em comunidade e de alguns dos ícones mais queridos da Revolução cubana. Não sei se isso representa um avanço na liberalidade do ICAIC ou um retrocesso para os padrões de “qualidade” do instituto, mas que o filme tem seus momentos irresistíveis, lá isso tem. Além do mais, há um sabor de novidade em retratar o socialismo pela lente do trash.   

Fui ver a versão longa de A CIDADE É UMA SÓ? Acho bacana o cinema desencanado do Adirley Queirós, mas é preciso tratá-lo sem paternalismo nem demagogia. Há ali algumas ideias ótimas, como falar dos 50 anos de Brasília através de uma reflexão sobre a Ceilândia. Um jingle gravado em 1970 pelo governo do DF e outro gravado agora por um fictício candidato político com um pé no hip hop; a remoção dos pobres do Plano Piloto nos 70 e a especulação imobiliária na periferia atual. Dois polos interessantes para se confrontar o passado e o presente. Mas se o média-metragem já sofria da escassez de material e da repetitividade de argumentos e situações, isso se agrava ainda mais no longa. A história da criação da Ceilândia já foi contada melhor em diversos filmes (sobretudo CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA). Já a atualização das questões através dos personagens ficcionais e da regravação do antigo jingle é politicamente pálida e dramaturgicamente redundante. Taí um filme que deveria ter ficado nos 50 minutos. Tinha mais músculos e menos gordura.

 

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