É Tudo Verdade: Karayuki-san, a Formação de uma Prostituta + A Viagem de Majub

Dois filmes que resgatam figuras à sombra e, através delas, mexem em feridas históricas do Japão e da Alemanha.

Karayuki-san, a Formação de uma Prostituta está na Retrospectiva Shohei Imamura. Rodado em 1973, reúne dois temas caros ao diretor como documentarista: a prostituição e o destino de soldados japoneses que preferiram não retornar do exterior. Neste caso, em vez de soldados ele enfoca as mulheres (dezenas de milhares) que foram sequestradas ou enganadas para servir de prostitutas em países ocupados pelo Japão entre fins do século XIX e início do século XX. No discurso oficial, elas eram um “exército feminino” que ajudava a sustentar a economia do país com suas remessas às famílias. Imamura singulariza aquele contingente na simpática e desenvolta Kikuyo Zendo, 73 anos, enviada ainda adolescente para a Malásia, onde vivia até então.

Caminhando ao lado dela com um gravador Nagra (ainda tardiamente conectado à câmera por um fio), Imamura revisita os locais onde ela iniciou sua carreira em Kelang, Malásia. O primeiro bordel em que trabalhou ainda estava ativo em 1973. Com naturalidade e boa memória, Kikuyo recorda detalhes de seu trabalho, como preços, quantidade de atendimentos diários e relações com o agenciador. Fala de sua estada em Cingapura, onde trabalhou como prostituta independente, e dos seus dois casamentos. Mais que personagem, quando leva o diretor para conhecer outras senhoras de passado semelhante ela gradativamente passa a dividir com ele as funções de entrevistadora. Entre as principais qualidades do documentário estão o vínculo carinhoso e respeitoso que Imamura estabelece com Kikuyo e a busca escrupulosa de locais autênticos para ativar suas memórias.

A história pessoal dessas mulheres se confunde com o lugar das prostitutas naquela fase da história do Japão. Por volta dos anos 1920, as karayuki-san passaram a ser motivo de vergonha e severamente discriminadas, razão pela qual muitas não quiseram mais retornar. O boicote a produtos japoneses após a I Guerra Mundial decretou também a decadência da classe como “produto sexual”. Em 1973, Kikuyo morava com a madrinha do seu filho, para quem servia de empregada. Num cemitério próximo, ela e Imamura visitam as tumbas de prostitutas que morreram ou se suicidaram jovens. Melancolia e desejo de reabilitação histórica se mesclam nesse sensível documento.

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Disputando a competição internacional está o média-metragem A Viagem de Majub, de Eva Knopf. Narra, na medida do possível, a desconcertante biografia de Majub Hussein, natural do que hoje é a Tanzânia. Ele era filho de um soldado Askari, como era conhecido o exército colonialista mantido pela Alemanha na África Oriental. Alistado desde cedo junto com o pai, Majub participou da I Guerra Mundial, foi ferido e passou a exigir reparação. Emigrou ilegalmente para a Alemanha e trabalhou sucessivamente em navios, como garçom, instrutor do idioma suahili e figurante em diversos filmes alemães dos anos 1930, sempre no papel de negro subalterno. Fiel às fantasias neocolonialistas alemãs, chegou a colaborar com o nazismo.

Eva Knopf não dispunha de muitos registros de sua vida além das cenas em que ele aparece nos filmes. Essa escassez acaba sendo um recurso narrativo interessante, na medida em que ela tem que trabalhar com indícios e aproximações simbólicas. O filme se apresenta como um resgate do papel do figurante (“o céu escuro sobre o qual brilham as estrelas do cinema”). Aborda até mesmo o uso de prisioneiros de guerra africanos como extras em épicos colonialistas.

Majub adotou o nome artístico de Mohamed Husen e conseguiu alguns papéis de coadjuvante com falas, no que lembra um pouco o Grande Otelo do início da carreira. Queria ser aceito entre os “arianos” e casou-se com um atriz branca, Maria Schwandner. Mas não escapou de outro affair do gênero, já na época do nazismo, o que valeu sua prisão num campo de concentração, onde morreu em 1944. O IMDB registra sua passagem pelo cinema (veja aqui), mas sua trajetória foi sempre a de um figurante que ficou à margem, quase sem rastros, distante do brilho das estrelas.

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