Obra-prima de autenticidade

A Árvore dos Tamancos, Palma de Ouro em Cannes  1978, foi lançado no Brasil em novembro de 1979. Na época, eu tinha pouco mais de um ano de crítica de cinema. Escrevia tijolões um tanto ingênuos na minha coluna da Tribuna da Imprensa. Resgato aqui a resenha que publiquei sobre o filme de Ermanno Olmi que passa hoje (sexta), às 15h30, e repete nos dias 28/5 e 01/06, na mostra da Caixa Cultural RJ. O texto começa com uma declaração do diretor: 

“Uma fazenda lombarda no final do século passado (XIX), onde vivem quatro ou cinco famílias de camponeses. A casa, os estábulos, a terra, as árvores e parte dos instrumentos de trabalho pertencem ao proprietário, assim como dois terços da colheita. Do outono à primavera, quando os trabalhos do campo diminuem, a vida retoma seus sentimentos, seus temores, suas esperanças, tanto diante dos fatos cotidianos como dos acontecimentos mais importantes – o nascimento de uma criança, um casamento ou uma festa regional. A vida é pobre e tudo adquire valor e significado. Nada se perde: tudo pode ser útil para o corpo ou a alma. Mas, às vezes, a vontade do patrão pode acabar com tudo tal como uma intempérie”.

É como descreve A Árvore dos Tamancos (L’Albero degli Zoccoli) o diretor Ermanno Olmi (49 anos, à época). Aquelas palavras de Olmi – é estranho – parecem guardar a mesma singeleza, o mesmo ritmo ameno e o mesmo calor humano que o filme possui. Palavras / cenas assim que vão se juntando, serenas, simples, muito próximas e amigas. Texto / filme assim que parece um abraço, um olhar verdadeiro, uma xícara de café quente. Embora desde o início o foco de exploração tenha sido evidenciado, só imediatamente antes do ponto final é que surge o travo de desgraça, como que rompendo uma reinante harmonia.

Autenticidade e beleza

Para retratar sua fazenda lombarda, Olmi foi juntar-se aos camponeses da região de Bergamo, entre os quais escolheu os intérpretes. Estes não tiveram maiores dificuldades para se colocar frente à câmera, falando seu dialeto natal e encenando a sua própria existência humilde, solidária, em que trabalho e prazer se unem num só ato: o de viver.

A viúva Runk, que lava roupas à beira do rio para sustentar sua meia-dúzia de filhos; o velho Anselmo, que planta cuidadosamente seus tomates para tê-los colhidos antes dos demais lavradores; o plácido Battisti, que luta contra os preconceitos para educar o filho pequeno. Toda essa galeria de pessoas simplórias contribui para a composição de uma teia muito diferente das cores sensacionalistas em voga no cinema atual.

Assim como o extraordinário (e superior) Pai Patrão, dos irmãos Taviani, A Árvore dos Tamancos é um exemplo singular de produção cinematográfica, que combina ecos do neorrealismo do pós-guerra com um esquema recentemente concebido pela RAI – Radio e Televisão Italianas. Um tipo de filme pobre, rodado em 16mm pra posterior ampliação, vazio de nomes célebres e profundamente comprometido com as particularidades sociais dos mais fracos. E sem fazer de tudo isso uma desculpa para trabalhos mal realizados. Mesmo retratando a penúria existente sob o tacão da opressão, a estética é admirável, a confecção é inteligente e a beleza jamais é posta de lado.

Procurar autenticidade através de uma proposta artesanal não significou para Olmi desprezar os postulados básicos de uma boa realização fílmica. Os atores-camponeses, por exemplo, estão exemplares em sua caracterização. Por outro lado, a categoria não demandou grandes recursos – o próprio Olmi entrevistou mais de 2.000 pessoas, fez o roteiro, dirigiu, operou a câmera e montou o filme (a montagem lhe consumiu quase um ano).

Conhecimento caro

É claro que nem tudo saiu perfeito. A lentidão de algumas sequências chega a ser problemática, conferindo ao filme uma duração um tanto longa. Nas muitas cenas noturnas, a qualidade da fotografia às vezes deixa a desejar. Mas isso é pouco para diminuir o encanto dessa elegia rural.

Não bastasse a absoluta autenticidade que brota de suas imagens, o filme ainda tem concepção mística que nos coloca num estado de contemplação quase permanente. O próprio centro da ação (na verdade, não é bem ação) é uma parábola da expulsão do paraíso – Battisti corta uma árvore do patrão para fazer tamancos com que o filho vá à escola, e o patrão o tange da fazenda com a sua família. Longe de estar isolado, este referencial religioso encontra-se sutilmente vinculado à postura histórico-social de Olmi. Em determinada cena, o capelão do lugar adverte: “Não basta fazer só o bem para estar imune à desgraça”. Com efeito, o castigo chega para Battisti por meio de uma imposição patronal. O camponês apenas transgredira uma regra extremamente dura: a de que não se podia interferir nos bens do patrão para proveito próprio, por mínimos que fossem a interferência ou o proveito. E, afinal, a aquisição do conhecimento sempre custou muito caro…

Moeda no chão

As outras famílias assistem com passividade à expulsão de Battisti. Cuidam apenas para que ele e os seus não se sintam constrangidos. Após sua partida, saem às portas de suas casas. A vida recomeça, agora eles são menos, a revolta inexiste do lado de fora dos corações.

A Árvore dos Tamancos também tem algo a ver com o Novecento de Bertolucci. Provavelmente, não seriam os camponeses de Olmi que, poucas décadas depois, desencadeariam a revolução socialista contada por Bertolucci. Tampouco seriam aqueles da efervescente Milão vista no filme quando o casal vai passar a lua de mel num convento de lá. Os sons dos conflitos políticos e batalhas de rua não ecoam na pequena aldeia. Ali, um discurso político é prontamente trocado por uma moedinha encontrada no chão e que Anselmo corre a esconder na ferradura de sua égua.

Olmi se furta a qualquer brado de demagogia. E faz um cinema de discrição franciscana, despojado de tomadas elaboradas ou efeitos de artificialismo. Em seu mundo crivado pela sinceridade, só o velho Bach não precisa pedir licença.

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