Dulce, Darín, Karen

Vicente Amorim sabe tudo de cinema, e IRMÃ DULCE demonstra isso mais uma vez. Lá estão a precisão na condução dos atores, a decupagem clássica a serviço da partitura dramática, a noção de ritmo e de atmosfera. Mas lá estão também as armadilhas de um tipo de filme que pretende cortejar demais o espectador. Como se o gênero hagiográfico (biografia de santo) não bastasse, com seu aplainamento dos fatos pela régua da elegia, há também um excesso de “momentos culminantes” e cenas lacrimosas para garantir a adesão de uma plateia de fiéis. O filme se divide em três partes: a descoberta da vocação e as primeiras iniciativas caridosas (construção da heroína); a fase de enfrentamentos difíceis perante os descaminhos do “filho” João e o conservadorismo da ordem religiosa (confirmação da heroína); e o encontro com o Papa (consagração da heroína). Entre uma parte e outra, e mesmo dentro de cada uma, os saltos do roteiro deixam uma impressão de minissérie condensada. Mesmo a direção vacila em alguns momentos, como a confusa sequência do incêndio no ônibus. Os pontos positivos incluem a caracterização da religiosa e sua relação muito física com seus pobres e doentes, como comprovam as imagens documentais que aparecem nos créditos do fim. Cabe ressaltar ainda que o filme não se presta ao proselitismo religioso. A Igreja, aliás, aparece como um espaço de intolerância, preso mais a suas regras que à sua suposta missão. Irmã Dulce, então, é a heroína solitária que se impõe sobre seus pares e puxa a corrente do bem. Nada mais adequado a um cinema que se pretende de massa.

Ricardo Darín está ficando marcado por um tipo de personagem recorrente: o homem comum estressado pelas paranoias urbanas e que por isso ultrapassa o limiar do bom comportamento. SÉTIMO é mais uma variação desse tipo: um advogado em duplo processo difícil (profissional e conjugal) que vê os dois filhos desaparecerem misteriosamente enquanto desciam as escadas do edifício onde moram. O argumento é em princípio curioso, pois encerrado no interior do prédio, como um “Janela Indiscreta” invertido. Parece haver suspeitos bastantes entre moradores e porteiro, mas também entre os envolvidos com o processo em que o advogado trabalha atualmente. O clima é bem trabalhado durante a primeira metade do filme, com tudo conspirando contra o protagonista, da lentidão do elevador antigo à gasolina do carro e a bateria do celular. Mas, como todo policial canônico, este também precisa caminhar para uma solução. É quando SÉTIMO mostra seus pés de barro. O enigma vai sendo substituído por uma trama de sequestro cada vez mais implausível, um roteiro-peneira cheio de furos e uma solução canhestra que não resiste à simples análise dos personagens. Dentro do thriller policial mora um filme de família decepcionante.

A asa pesada do melodrama latino-americano limita bastante o voo do colombiano KAREN CHORA NO ÔNIBUS. O filme de Gabriel Rojas Vera foi bem recebido em seu país por fugir ao padrão temático de drogas e violência. Trata da busca de emancipação de uma mulher depois de se separar do marido, disposta a “repintar” sua vida. Habituada a um razoável conforto de classe média, ela dispensa até o acolhimento da mãe para morar numa pensão fétida, pedir esmolas na rua e fazer pequenos furtos para sobreviver. É duro de engolir como desenvolvimento de personagem, por mais que a atriz Ángela Carrizosa Aparicio naturalize cada gesto e expressão. O esquematismo é abundante, desde os homens sempre machistas até os empregadores canalhas e a colega de pensão periguete que acaba se revelando uma boa amiga. Na lógica dessa dramaturgia, toda mulher tem um destino marcado por sofrimento e muitas razões para chorar no ônibus. Se Karen vai conseguir sair desse círculo é a pergunta que o filme alimenta até a sugestiva cena final.

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