A atriz, o baterista e o Velho Guerreiro

Não vejo razão para considerar ACIMA DAS NUVENS algo mais que um bom filme. Atrizes fazendo o papel de atrizes e mergulhando na nebulosa relação entre pessoa e personagem respondem por alguns clássicos do cinema, como “Persona”, “Noite de Estreia” (Cassavetes), “A Malvada” e “Crepúsculo dos Deuses”. Olivier Assayas escreveu especialmente para Juliette Binoche essa história de espelhamento e dificuldade de aceitação do envelhecimento por uma consagrada atriz de Hollywood. Chamada para encenar novamente uma peça de sua juventude, mas agora como a personagem mais velha, Maria Enders entra em parafuso. Ao mesmo tempo, a trama da peça começa a se confundir com a relação entre Maria e sua jovem assistente (Kristen Stewart) durante os ensaios caseiros. Tudo aquilo me pareceu um tanto esquemático e previsível, com os conflitos sendo mais ditos que vivenciados. Para afastar o risco do óbvio, o roteiro providenciou algumas soluções “misteriosas”. Além disso, um acúmulo de subtramas (o divórcio de Maria, a morte do dramaturgo, o namoro da jovem atriz com um escritor casado) me pareceu mais alongar o filme do que adensar as questões centrais. A natureza dos Alpes suíços, seus abismos e arrojadas formações de nuvens criam um pretenso campo metafórico que achei bem vago e decorativo. O mais interessante é o que as personagens de Juliette e Kristen – e de certa forma também a de Chloë Grace Moretz – têm a dizer sobre as próprias atrizes e seus lugares no estrelato atual. Essa camada, misturando referências falsas e verdadeiras a suas carreiras, pode ser uma curiosidade a mais para cinéfilos. De resto, é tão pretensioso quanto agradável de ver.


Uma cena de WHIPLASH condensa o filme inteiro: a câmera chicoteia (whiplashes) sucessivamente entre os rostos enfezados do regente e do ex-aluno durante a performance liberadora final. Estamos num duelo, numa tourada. Estamos em plena catarse, completamente identificados com o jovem que sofreu como o diabo na mão do outro e agora dá o troco. Estamos a um passo do aplauso final da plateia (os americanos têm o termo claptrap para designar esses efeitos de dramaturgia e edição que atraem as palmas até de quem esteja dormindo no cinema). WHIPLASH é uma peça de mistificação do mestre torturador, pois até a “vingança” do aluno serve para confirmar o valor do aprendizado. Lembra, portanto, histórias de militares durões que arrancam o couro de recrutas ou de treinadores impiedosos que humilham esportistas para supostamente levá-los à perfeição. A postura antipática de Fletcher, sua exasperação caricata, os xingamentos homofóbicos, nada daquilo faz sentido numa consciência mais contemporânea, ficando apenas como resquícios de uma mentalidade autoritária que costumava ser admirada no passado. Eis WHIPLASH: um elogio do abuso. A música é vista como um dispositivo militaresco e capitalista: tanto melhor é a performance quanto mais for cumulativa, competitiva e meritocrática. Para que se chegue a um resultado satisfatório (a tal perfeição), não basta ter talento e perseverança. É preciso ser humilhado, quase espancado, sofrer na carne e sangrar no instrumento de trabalho. E não venham me dizer que se trata de uma relação sadomasoquista consentida entre maestro e baterista. O projeto de vingança de cada um desmente essa platitude. Vale a ressalva de que o filme é musicalmente brilhante, tanto em termos de playlist quanto de execução. Mas há que pagar o preço do concerto, que é suportar uma justificativa da tortura e, de quebra, uma das cenas mais implausíveis do cinema musical: em apresentação no Carnegie Hall, uma banda de jazz prefere acompanhar o baterista louco a esperar o comando do líder. Me chicoteia, Hollywood, que eu gosto.


No seu cantinho do inferno, Chacrinha deve estar muito feliz com a festa que a plateia do João Caetano faz a cada noite em seu nome. O povo canta junto, acompanha com palmas, aplaude como claque, responde aos bordões e se diverte pra cachorro diante dessa ultra-simpática reencarnação do Velho Guerreiro. No primeiro ato, sobre os tempos do menino Abelardo Barbosa, CHACRINHA – O MUSICAL explora um pouco o sotaque de Nordeste global, mas não ofende porque isso já vem misturado com a sátira ao pop brasileiro. Pedro Bial e Rodrigo Nogueira dosaram muito bem a introdução dos ingredientes que fariam o futuro comunicador tropicalista. A passagem do bastão de Leo Bahia a Stepan Nercessian é um momento mágico que conclui primorosamente o primeiro ato. No segundo, um pleno programa de auditório, Stepan revive Chacrinha de modo quase sobrenatural. O desfile das atrações conta com algumas imitações hilariantes e os mais críticos podem até dizer que esse ato é basicamente um show de imitações. Mas o duelo com Boni, o antagonista da peça, também é impagável. Alguns pontos sombrios da biografia e da psique de Chacrinha respondem pelas poucas quebras de ritmo, logo retomado de maneira eufórica. As competências da direção de Andrucha Waddington, da direção musical, das coreografias, das soluções ingênuas mas engenhosas da cenografia e das atuações do elenco se somam num espetáculo realmente radiante. Chacrinha já foi execrado e incensado, perseguido e copiado, mas aqui ele simplesmente volta à vida.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s