Um livro, um quadro, uma compulsão

Típica obra intertextual pós-moderna, a graphic-novel “Gemma Bovery”, de Posy Simmonds, entrelaça uma trama contemporânea com um enredo clássico. Um padeiro da Normandia, algo mitômano e paranóico, fica obcecado pela nova vizinha inglesa e, a partir da semelhança de nomes, começa a intuir semelhanças entre ela e a personagem central de “Madame Bovary”. Um tanto por ciúme, outro tanto por compaixão, ele tenta resguardá-la de um suposto destino trágico. O desfecho irônico, quase picaresco, vai selar a diferença fundamental entre Flaubert e esse Joubert provinciano. Em GEMMA BOVERY – A VIDA IMITA A ARTE, a direção de Anne Fontaine, não mais que correta, e a adaptação linear deixariam a impressão de um filme morno, não fosse a excelente química dos atores. Fabrice Lucchini está perfeito em mais um de seus habituais personagens patéticos, observadores espantados de uma vida que passa por eles como coisa alheia, inacessível. Gemma Arterton, além de acrescentar mais uma peça no jogo de nomes da história, é uma bomba hormonal que parece saltar da tela no nosso colo, uma beleza na tradição de Brigitte Bardot, Leila Diniz e Laetitia Casta. O resultado é um sugestivo encontro da sensualidade com a compulsão literária, das potências do corpo com a desordem das ideias.


Independente de suas limitadas qualidades cinematográficas, A DAMA DOURADA pode render uma boa discussão sobre a restituição de obras de arte confiscadas pela História. Nos anos 1990, a sobrinha da mulher retratada no quadro conhecido como “The Woman in Gold”, de Gustav Klimt, entrou em luta judicial com o governo da Áustria para reaver a posse da tela, confiscada da casa de sua família judaica  pelos nazistas. Maria Altmann via a obra como uma propriedade pessoal a ser levada para a América, seu país de adoção. O quadro, porém, já havia se transformado num símbolo nacional austríaco. Embora se trate de uma reparação teoricamente justa, é de se perguntar até que ponto o interesse privado de uma família deve se sobrepor ao de uma cultura nacional. O filme de Simon Curtis poderia levar esse debate a nível mais elevado se não se baseasse tanto em estereótipos de uma narrativa típica de best-seller. Temos uma adorável e orgulhosa senhorinha (Helen Mirren, um tanto imobilizada por botox) apostando num jovem advogado promissor e enfrentando feras austríacas em dois tempos: no processo atual e nos flashbacks da Anexação austríaca pelos nazistas. O objetivo principal do roteiro é manter o espectador mobilizado todo o tempo, seja com diálogos solenes, seja com fugas espetaculares ou com uma trilha sonora excessiva e onipresente. Mais que tudo, é a falta de apelo do argumento que apaga o brilho dessa Dama.


Dentro do gênero policial de serial killer, NA PRÓXIMA, ACERTO O CORAÇÃO é um tiro certeiro. Está tudo no lugar certo: sabemos sua identidade desde o início, acompanhamos sua rotina, conhecemos suas manias psicóticas, sua solidão e seu sofrimento com a condição de psicopata. A única diferença é que ele é o policial encarregado de investigar os próprios crimes. Sabemos também que tudo é uma questão de tempo até ele ser desmascarado. Talvez por isso o filme de Cédric Anger, tão bem feito, não passe de um manejo correto das regras de um gênero. O que mantém o espectador ligado não é tanto o suspense corriqueiro dos assassinatos, nem da investigação, mas sim a precisão da narrativa e o senso de atmosfera que perpassa o filme inteiro. Boa parte disso vem da trilha sonora obsedante de Grégoire Hetzel e da boa performance do ator Guillaume Canet.

 

 

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