Entre o cangaceiro e o homem cordial

Um pouco do que vi e percebi na viagem por Sergipe e Alagoas
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Orla de AtalaiaAracaju, minha primeira parada, é uma cidade que parece querer esconder sua condição litorânea. A famosa Orla de Atalaia, por exemplo, é uma avenida separada do mar por uma barreira de construções, facilidades esportivas, restaurantes, sorveterias e um Oceanário. Para divisar o oceano é preciso subir aos andares superiores de algum prédio (os mais altos têm quatro) ou encontrar alguma passagem quase secreta para chegar à larguíssima faixa de areia que ainda nos separa das ondas distantes. Nas margens do rio Sergipe, o mesmo se repete em boa parte da estranhamente chamada Avenida Beira-mar, separada das águas por um manguezal e atualmente pelas obras de um calçadão. Em suma, a gente quase esquece que está numa cidade tão abundantemente banhada, a ponto de ter como seu herói o célebre nadador Zé Peixe (1927-2012).

TototóTalvez para compensar essa relativa “invisibilidade” das águas, fachadas de equipamentos públicos, bancos de rua e logotipos ostentam as curvas de ondas, forma que disputa com a do caju o título de ícone da capital sergipana. Outro símbolo que teima em permanecer são os barquinhos de madeira que cruzam o rio entre o centro de Aracaju e o município fronteiriço de Barra dos Coqueiros. O ruído do motor lhes valeu o apelido de tototós. Nem as balsas maiores, nem a construção de uma ponte vistosa conseguiram retirá-los da paisagem. Por 1 real e meio você faz a curta e simpática travessia, seus joelhos quase roçando com os do passageiro sentado no banco em frente.

Museu da Gente SergipanaUma pequena exposição temporária sobre os tototós estava em cartaz no delicioso Museu da Gente Sergipana, orgulho do estado que já começa no nome. O acervo permanente, com curadoria artística do craque Marcello Dantas, usa a arte eletrônica e a interatividade para mostrar hábitos, falares e paisagens de Sergipe. Entre as atrações, um vendedor virtual que conversa com o visitante, uma pracinha com carrossel que a gente gira para ver diversas praças do estado (foto) e um trenzinho que “passa” por vários ecossistemas de Sergipe em telões que simulam a viagem. Eu e Rosane percorremos o museu em companhia de Fernando Mendonça, companheiro da comunidade cinéfila Making Off, que conheci offline nessa viagem. Fernando mudou-se de Recife para Aracaju recentemente e vai lecionar Literatura na UFSE. Em compensação, minha outra referência sergipana, o jornalista e escritor Paulo Lima, trocou Aracaju por Brasília apenas duas semanas antes da minha chegada. Consta que não fugia de mim.

Mercado MunicipalAtravés de fotos e documentários do Paulo, eu já era mais ou menos íntimo de lugares como a “Ponte” do Imperador, na verdade um ancoradouro construído para o desembarque de D. Pedro II em 1860, e o coloridíssimo Mercado Municipal (foto à direita), meca da gastronomia e do artesanato sergipanos. E por falar em gastronomia, duvido que alguma refeição da viagem se compare à carne de sol com pirão de leite servida no restaurante O Miguel, tido como um dos melhores da cidade – mas estranhamente vazio nas duas vezes que baixamos por lá. Já o interior da catedral metropolitana enche os olhos pela abundância de pinturas trompe l’oeil imitando decoração em estuque.

Catedral

Passamos um dia inteiro visitando o centro histórico de duas cidades coloniais, São Cristóvão e Laranjeiras, ambas situadas num raio de 20 e poucos quilômetros de Aracaju. São Cristóvão - praçaSão Cristóvão, a antiga capital até 1855, tem um belíssimo casario antigo, um Museu de Arte Sacra riquíssimo em torno da capela com teto magnificamente pintado por José Teófilo de Jesus e diversos outros prédios e igrejas quase encostados um no outro. Ninguém pode sair de lá sem provar os bricelets, biscoitos finíssimos (nos dois sentidos) supostamente feitos pelas freiras do Lar de São Francisco.

Laranjeiras, por sua vez, tem ruas e praças que ainda parecem quadros de Debret, com carroças puxadas a cavalo e crianças soltas no mundo. Há um pequeno e interessante Museu Afro-brasileiro, uma velha ponte de pedra que já foi linda e hoje se encontra encoberta pelo mato, e igrejas em promontórios de onde se tem vistas bucólicas do conjunto da cidade.

Laranjeiras panorama

Mas subir até lá parece ser uma temeridade, pois todos alertam o turista contra os assaltos praticados por motoqueiros. O clima é relativamente tenso nas duas cidades. O medo da criminalidade se conjuga com a ausência de infraestrutura turística e um flagrante desleixo na conservação do patrimônio, especialmente em Laranjeiras. Ainda assim, são lugares que vale a pena correr um risco calculado, viajando com um tour de agência ou, como fizemos, com um taxista experiente.

Jegues vira-latasUm dos sinais mais comoventes das mudanças em curso são os jumentos sem dono nas ruas de Laranjeiras e São Cristóvão. Com a adoção de motocicletas, as carroças vão sendo abandonadas e, com elas, os animais agora sem uso. Surge assim a figura dos jegues vira-latas, descansando em pé na sombra de alguma árvore ou igreja.

Cerca de três horas de estrada separam Aracaju de Piranhas, já em Alagoas, mas encostadinha na margem do Rio São Francisco, que marca a divisa entre os dois estados. Ali as coisas mudam bastante em termos de segurança e cuidados públicos. Piranhas é uma das joias mais cativantes do Nordeste com seus prédios históricos bem conservados, suas casinhas coloridas, sua posição altaneira debruçada sobre o Velho Chico. Vista do alto de uma das várias elevações circundantes, como o hotel em que nos hospedamos, lembra uma cidade romântica do Reno ou da Toscana. Ao rés do chão, é de uma limpeza impecável e transborda simpatia nos habitantes, comerciantes e prestadores de serviços.

Piranhas do alto

O Museu do Sertão, instalado na antiga e célebre estação ferroviária, abriga memorabilia do cangaço e apetrechos da vida sertaneja. Na torre do relógio há um pequeno e charmoso café. Na praça principal, sob uma amendoeira gigante, espalham-se as mesas da Cachaçaria Altemar Dutra, na verdade uma dupla de restaurantes italiano e japonês de menus sofisticados e confecção irrepreensível. Não, Altemar não era de Piranhas, mas amava a cidade e ajudou a promovê-la. Seu nome está também numa rodovia e na rua da orla fluvial, mas não ouvi sua música. Piranhas - forróNa hora do jantar, os alto falantes da praça preferem tocar Fagner e Gil, entre outros. E calam-se no sábado à noite, quando o forró pé-de-serra come solto, animado por cangaceiros e marias bonitas ensinando xaxado, organizando quadrilha e disparando garruchas no ar. É puro amor.

A prefeitura da cidade mudou de formato os degraus em que ficaram expostas as cabeças de Lampião e seus 10 companheiros mortos com ele em Angicos. Apenas uma placa na fachada lembra o episódio, mas Lampião é onipresente em forma de souvenires, marcas de cachaça e até balas redondas de doce de leite conhecidas como “a bala que matou Lampião”.

Por do solPiranhas é um ponto de partida ideal para diversos passeios. Ali bem perto está a Barragem do Xingó com suas imensas comportas segurando o rio pela cintura. Do restaurante Caboclo d’Água se descortina um belíssimo por do sol sobre o Lago Xingó. Os passeios pelo Chico podem ser feitos em catamarãs mais ou menos lotados, ou em pequenos grupos nas voadeiras, lanchinhas a motor com teto para proteger do sol. Essa foi a nossa opção, que oferece mais privacidade e liberdade de tempo e movimentos.

Aos famosos Canyons do Xingó, um dos poucos navegáveis no mundo, se chega depois de 20 minutos de navegação no grande lago formado pela represa. Seguimos, então, ladeados pelos imponentes rochedos de arenito em todos os tons entre o cinza e o ocre, num bonito contraste com as águas verdes do São Francisco. É espetacular a visão dos canyons separados por um quase-mar onde antes passava apenas um braço raso do rio, 120 metros abaixo.

Canyon Xingó

O ponto mais extremo do trajeto fica na belíssima Gruta do Talhado, uma formação explorada em pequenos barquinhos a remo, com paredões coloridos que se projetam sobre nossas cabeças a ponto de termos de nos curvar. Uma área protegida forma uma espécie de piscina natural onde os visitantes se banham perante a “catedral” de rochas. Ao contrário dos passageiros dos catamarãs, que têm um determinado restaurante vinculado ao seu passeio, os da voadeira podem escolher entre três opções para o almoço. Em todas elas, há uma Sorvetesprainha aprazível para se desfrutar um pouco mais do São Francisco antes da viagem de regresso. Não sem antes degustar delicadezas como a cocada de cactus e os sorvetes cremosos de rapadura e ouricuri (foto).

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Praia de Angicos

Outra excursão deliciosa é a da chamada Rota do Cangaço. A voadeira sai do portinho de Piranhas – visão encantadora – e segue rumo ao município de Angicos, a 12 km de distância. Ali também há um complexo de restaurante, praia, bar com mesas dentro da água e até um tobogã para se cair dentro do rio. Angicos expõe ainda a casa sertaneja do coiteiro Pedro de Cândido, que apoiava e armava o bando de Lampião mas acabou denunciando seu paradeiro a custo de torturas.

Trilha de AngicosEssa é a mais confortável das duas opções de partida disponíveis  para se chegar ao destino principal: a Grota do Angico, acessível por uma trilha agreste em meio à vegetação da caatinga. Os 700 metros, com alguns trechos levemente ascendentes, são vencidos em meia hora de caminhada com uma guia, naturalmente vestida de cangaceira (acima). É impossível não sentir um calafrio diante do lugar onde Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros tombaram pelas balas da volante do Tenente Bezerra em 28 de julho de 1938 (abaixo).

Grota do Angico

Existe uma dialética constante na percepção de quem são os heróis na saga do cangaço. Lampião e companhia são tratados como bandidos, mas também como justiceiros e fornecedores de uma rica mitologia que nutre o interesse pela região. Os “macacos”, soldados que os combatiam, são reverenciados pela oficialidade, mas vistos com desdém pelo povo. “Os coronéis eram os coronéis, e são assim até hoje”, comentou nossa guia Uedja.

O que ainda impera nesse Nordeste menos metropolitano é um discreto deslizamento da política para o plano das relações pessoais. Estão presentes as duas faces do “homem cordial” descrito por Sérgio Buarque de Holanda. A face perversa é a confusão do público e do privado, a mistura do poder econômico com o poder político e a aceitação humilde das grandes diferenças sociais. Mais que criticar, admira-se quem amealha um grande patrimônio e exerce o domínio de determinado setor. Em Piranhas, por exemplo, um mesmo empreendedor, conhecido como Manuel Foguete, possui os restaurantes da praça principal e o complexo turístico mais ativo do Xingó, além de iates, catamarãs e muitos investimentos em Aracaju.

A face positiva do homem cordial é a cordialidade propriamente dita, essa permanente mistura do profissional e do familiar. É o que se manifesta, por exemplo, nas mil placas como “Bar Pai e Filho”, “Hotel Três Irmãos” ou “Ailton Veículos” que vemos nas ruas e estradas. Ou na maneira sorridente, informal e mesmo íntima como que tratam os turistas e forasteiros. A beleza de tudo isso é que, apesar de tanta descontração, não faltam a atenção e o respeito pelos interesses, os direitos e a conveniência de quem chega em visita. Todas as nossas atividades durante a viagem se beneficiaram da eficiência dos serviços, da pontualidade nos compromissos e de uma tranquila atmosfera de honestidade. São valores que nos reconciliam com um Brasil que às vezes pensamos não existir mais.

Meninos

SERVIÇO
Taxista Aracaju: André – (79) 99879-4848
Hotel Aconchego do Velho Chico (Piranhas): (82) 3686-3497 ver site
Motorista Piranhas: Ricardo – (82) 98810-7855
Voadeira “Aventureiro”: Rogério – (82) 98889-0652

4 comentários sobre “Entre o cangaceiro e o homem cordial

  1. Que beleza de registro, Carlos! Fez-me pensar em algumas crônicas de viagens que tantos autores já nos legaram e parecem meio perdidas pelo assalto no tempo de nossos dias. Precisamos muito destes olhares sensíveis sobre o que temos e somos. E feliz eu fico por ter participado em parte destas suas novas memórias. Um grande abraço!

  2. Me deu uma saudade danada… Também em Riachuelo, cidadezinha da minha mãe, os jegues foram substituídos pelas motos, e a insegurança marca presença tanto quanto em Laranjeiras e São Cristóvão… Uma pena. Aracaju é uma belezinha, mas também no Mercado fui alertada duas vezes sobre o número de assaltos a turistas. Amei Piranhas, mas passei lá apenas uma tarde. Espero voltar, com tempo para explorar aquelas casinhas coloridas. Você se banhou no Velho Chico? Foi um dos momentos mais gratos da minha passagem meteórica por lá. Só estou numa dúvida atroz: não sei se gosto mais dos seus textos ou das suas fotos… Juntos então…. melhor do que doce de ouricuri…

    • Ter amigos-leitores como você é um privilégio que muito me orgulha, Cris. Seu olhar de viajante apaixonada dialoga direto com o meu.
      Claro que me banhei no Chico, em três momentos e locais diferentes. Emoção absoluta.
      Piranhas e você se merecem mutuamente. Não deixe de voltar.

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