Betinho, Drummond, a seca e o verão

Que Betinho foi sempre um sobrevivente, isso já estamos cansados de saber. O que BETINHO, A ESPERANÇA EQUILIBRISTA faz melhor é mostrar como ele sobreviveu por tanto tempo, e como transformou a luta pessoal contra a morte num combustível para melhorar o país. O documentário de Victor Lopes se aproxima do hagiográfico por concentrar-se nos gestos de generosidade e superação.

A história de Betinho é contada de maneira linear e convencional, conjugando a sua própria voz com muitas outras. De qualquer maneira, ver essas informações reunidas e organizadas ajuda, claro, a formar um contexto mais amplo para a biografia: a militância católica de esquerda, a experiência da clandestinidade e do exílio, as relações conjugais com duas mulheres engajadas, o retorno com a anistia, a criação do Ibase, a dizimação dos hemofílicos pela Aids (inclusive dos “irmãos de sangue” Henfil e Chico Mário), a ligação com os artistas pelas causas sociais, as campanhas contra a fome e a grande mudança de paradigma nas ações cidadãs de solidariedade como forma de instar o governo a acompanhar.

Um reparo: a informação de que Betinho foi ghost-writer de Allende no exílio chileno merecia ser melhor desenvolvida. E duas observações que, a partir do filme, se refletem no panorama atual: a) fato pouco lembrado, a Ação da Cidadania surgiu de uma proposta de Lula e do PT ao então presidente Itamar Franco; b) vale comparar a qualidade dos intelectuais, juristas e ativistas que pediam o impeachment de Collor à dos que hoje pleiteiam o de Dilma.


thumbÀ primeira vista causam estranheza as imagens diáfanas de textos flanando em folhas ao vento, paisagens enevoadas e tecidos esvoaçantes. São coisas que definitivamente não combinam com a poesia dura e concreta de Drummond. Mais parecem almejar àquela qualidade de “imagem poética” com que se equivocam tantos filmes sobre poesia. Mas aos poucos vamos compreendendo que O ÚLTIMO POEMA não é exatamente um filme sobre Drummond, mas sobre a percepção do poeta por Helena Maria Balbinot, uma professora gaúcha que com ele trocou cerca de 60 cartas durante 26 anos.

Drummond era conhecido por não deixar interlocutor sem resposta, mas o caso de Helena é excepcional pela duração e pelo teor de familiaridade que se estabeleceu com o tempo em suas “trocas poéticas”. Helena também é poeta, e a estética do filme de Mirela Kruel ecoa mais a postura melancólica e feminina dela do que os versos afirmativos dele. Na relação singela e sóbria entre o escritor célebre e sua fã humilde, encontramos dois lados de uma mesma timidez, de uma mesma delicadeza.

O documentário, em cartaz exclusivamente no Cine Joia, lança mão de atores para complementar a evocação dos personagens, mas poderia perfeitamente prescindir da atriz que duplica a Helena real, uma vez que esta se sai bem quando é instada a se autoencenar. Algumas bonitas instalações artísticas ajudam a tornar o filme visualmente atraente. E é particularmente sensível a solução encontrada para definir se Helena e Carlos alguma vez chegaram a se encontrar pessoalmente, como aconteceu com Socorro Nobre e Franz Krajcberg.


vlcsnap-2015-10-29-22h39m52s700SECA, documentário que Maria Augusta Ramos estreia hoje (sexta) na Mostra Internacional de Cinema de SP, guarda semelhanças e diferenças importantes com seu trabalho prévio. Entre as semelhanças, o mesmo olhar paciente e pouco intervencionista sobre a realidade filmada, no caso a relação dos moradores da região pernambucana do Pajeú com a água difícil e preciosa. Uma câmera que espera as coisas acontecerem no seu tempo, mas está sempre preparada para captá-las de um ponto de vista privilegiado e em condições de clareza absoluta. Entre as diferenças, a horizontalidade e o silêncio desse filme, ritmado pelo caminhão-pipa, os homens e os animais que atravessam o quadro panorâmico de um extremo a outro.

A estiagem é grave, a gente vê; o proselitismo político é evidente, a gente sente; mas Guta não apela ao miserabilismo nem à retórica para sublinhar a situação. O caminhão-pipa é, mais que tudo, um elo entre os povoados e os personagens, um dispositivo de narratividade. Ele conecta não só os consumidores de água com seus tonéis e galões, mas também o lavrador que cava um poço sem fim na esperança de encontrar um lençol freático, os meninos que tapam buracos da estrada e pedem trocados aos motoristas, os vaqueiros que se reunem numa festa, a comemoração do aniversário de uma cidade. No fundo, SECA é uma crônica sertaneja, uma imersão no tempo do semiárido, um “Vidas Secas” mitigado pela passagem auxiliadora do Disk-Água.


Parte do resgate da obra de Gerson Tavares, exibida na Cinemateca do MAM, conheci finalmente o raro ANTES, O VERÃO. Baseado na obra de Carlos Heitor Cony, o longa de 1968 é um corpo relativamente estranho na filmografia brasileira daqueles anos. Formalmente, traz influências de Antonioni e da Nouvelle Vague, e mais especificamente ainda de ”Os Cafajestes” (que Gerson ajudou a produzir), do contemporâneo “Terra em Transe” e de filmes de Walter Hugo Khouri. Tematicamente, porém, distancia-se muito das preocupações dominantes no Cinema Novo.

Numa narrativa temporal sofisticada, conta uma história de traições conjugais, um assassinato e uma família de alta classe média tentando se estabelecer numa casa de praia em Cabo Frio. O vento, a areia e o sal, que a tudo invadem, são metáforas das forças que ameaçam o casulo da felicidade burguesa. O povo local, os amantes clandestinos, as drogas e a investigação policial representam os intrusos contra os quais o casal Jardel Filho-Norma Bengell precisa lutar para preservar seu casamento.

Num doc realizado por Rafael Luna sobre Gerson e seus filmes, o próprio Cony classifica o filme como “conservador, mas muito bem realizado”. A decupagem, de fato, é classuda, e a fotografia P&B de José Rosa evoca imagens do seu tio Edgar Brazil. É digna de antologia a cena em que Jardel ajuda Norma a se desfazer do maiô e os dois acabam num abraço sensual de reconciliação. Apesar dos diálogos empolados e de uma certa tendência à pose, “Antes, o Verão” merece um lugar de destaque como estudo da classe média isolacionista e predadora em tempos de um Brasil sufocado.

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