Japão, “Irã”, Austrália e Araguaia

A convivência tranquila entre vivos e mortos é uma marca tradicional da dramaturgia asiática, especialmente no Japão. O fantástico torna-se rapidamente corriqueiro sem muitas alterações. Assim é que, em PARA O OUTRO LADO, Yusuke reaparece para sua viúva e tem que tirar os sapatos antes de entrar em casa. Ele também queima a boca com a comida quente e pode adoecer como qualquer mortal. Mas Yusuke veio com uma missão. Acompanhado da mulher, vai ajudar outras pessoas a superarem seus problemas espirituais nos locais do interior onde vivia antes de morrer.

Neste seu primeiro filme lançado comercialmente no Brasil, baseado em romance de Kazumi Yumoto, o especialista em terror soft psicológico Kiyoshi Kurosawa criou uma sucessão de “causos” (ou sonhos?) em que vivos e mortos se ajudam mutuamente numa espécie de psicanálise sobrenatural. Culpas, mágoas e apegos sentimentais precisam ser superados para que uns e outros possam seguir seus caminhos. Dito assim, pode soar como presepada de auto-ajuda ou parábola espiritualista. Mas não é uma coisa nem outra, e sim uma bela história de amor cercada de outras tantas, contadas quase sempre com a delicadeza de uma cortina de seda balançando ao vento leve.

A situação inicial lembra a do também belíssimo “Hoje”, de Tata Amaral, assim como as sutis mudanças de iluminação ou entradas de névoa que fazem a conexão entre este e “o outro lado”. Duas aulas ministradas por Yusuke numa comunidade rural dão chaves supostamente científicas para os mistérios elencados pelo filme: o Universo é formado por partículas de nada, de tal forma que toda presença equivale a uma ausência fundamental; o Universo não tem idade, mas pode-se dizer que está apenas começando. O que significa, então, uma pequena vida como a nossa?


Eu já tinha visto vampiras de todos os gêneros e esquisitices, mas faltava uma que andasse de skate, falasse persa, gostasse de Lionel Richie e atacasse suas vítimas debaixo do xador. Agora não falta mais. Ela é a protagonista de GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE, uma tremenda curiosidade da cena cinéfila internacional. A diretora Ana Lily Amirpour, americana nascida na Inglaterra de ascendência iraniana, mostra uma visão, digamos, avançada da revolução feminina no Irã. A garota sem nome (Sheila Vand) ataca preferencialmente machos misóginos, atuando como uma justiceira de gênero na cidade fictícia de Bad City, que mais se assemelha a um subúrbio americano encravado em paisagem industrial pós-apocalíptica. O romance com um jovem faz-tudo a partir de um baile fantasia vai ser posto à prova pelo desenrolar de certos fatos.

O filme não perde nenhuma chance de exibir charme e inserir canções iranianas e música eletrônica, apesar de não haver plot suficiente para tanto estilo. Em alguns momentos, parece mais arrastado do que o recomendável. Ainda assim, é um saboroso passatempo para quem aprecia paródias à moda de um Tarantino light. A fotografia preto e branco, cheia de preciosismos de distância focal e enquadramentos (estes prejudicados pela projeção cortada nas extremidades na tela do Estação Net Rio), evoca toda uma tradição que passa pelos velhos thrillers com Bela Lugosi, filmes de James Dean, os primeiros longas de Jim Jarmusch e algo do cinema do Leste europeu dos anos 1960. E ainda tem o gato mais talentoso do cinema recente.


Se uma única rua de subúrbio de Sydney pode reunir tantos casais com fantasias e fetiches eróticos, como se vê em A PEQUENA MORTE, então a Austrália deve ser um país bem animadinho. Em seu primeiro filme como diretor e roteirista, o ator Josh Lawson (no papel do marido estuprador) intercala as histórias de quatro casais que decidem dar asas a seus caprichos sexuais em busca do orgasmo perfeito (a “pequena morte”). O menu inclui fantasia de estupro e fetiches abrangendo lágrimas, sono e criação de personagens (roleplay). Tudo bem, isso já foi explorado tanto em comédias vagabundas quanto em dramas pesados. Não é, portanto, pelo viés da originalidade que ninguém vai tirar seu prazer diante do filme. A satisfação que Lawson nos proporciona é pelo desenrolar engenhoso dos plots e o humor irresistível com que vemos os casais se complicarem quando os planos começam a dar errado. As situações hilariantes podem de repente assumir o aspecto de humor negro ou mesmo feições trágicas. O roteiro reserva uma série de pequenas surpresas – a última delas, sobre um envolvimento lúbrico-romântico ocorrido durante um serviço de tradução para surdos, este sim, bastante original.


OSVALDÃO, documentário em cartaz no Rio, deve imensamente ao cinema tchecoeslovaco. Foi num doc rodado por lá em 1961 que sobreviveram as poucas imagens em movimento de Oswaldo Orlando da Costa, o tenente da reserva, boxeador e garimpeiro que se notabilizou como comandante da guerrilha do Araguaia. As imagens do estudante brasileiro, um diamante negro de mais de dois metros de altura, brilham no filme tcheco como ouro no meio do cascalho. Assinado pelos diretores Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Lorenz Michiles (os dois últimos responsáveis também pelo recém-lançado “Através”), OSVALDÃO faz o que pode para reconstituir a história daquele incrível personagem através de rastros documentais, correspondência e depoimentos de amigos, parentes, ex-guerrilheiros e envolvidos na caçada aos guerrilheiros. Registra também como no imaginário camponês ele assumiu tinturas lendárias. Era “valente e invisível”, “transformava-se em cobra ou pedra” quando perseguido pelo Exército. Era benfeitor e “terrorista”, como um Lampião da era da ditadura. Se parece desestruturado aqui e ali, o filme se reapruma no sabor de algumas entrevistas e na disposição sincera para levantar a trajetória de um herói menos lembrado do que merece.

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