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É pouco provável que a maioria de nós jamais tenha visto um filme do Nepal. Um filme autenticamente nepalês, quero dizer, e não alguma aventura de cinema rico rodada naquele país. Esse é o maior atrativo de NAS ESTRADAS DO NEPAL, primeiro longa do diretor Min Bahadur Bham, vencedor da Semana da Crítica do Festival de Veneza 2015. Apesar de ser uma coprodução com países europeus, toda a equipe técnica e artística é nepalesa da gema. O filme é profundamente fincado na paisagem física e imaginária do Nepal.

A ação se passa em 2001, quando a guerrilha maoísta tentava fazer a revolução e era caçada pela guarda do Exército Real. Numa aldeia perdida nas montanhas do Norte, os ecos do conflito chegam através do sequestro de burgueses pelos guerrilheiros e a eventual adesão de jovens à causa maoísta. Mas os protagonistas do filme não têm nada a ver com isso. São dois meninos de castas diferentes que se juntam para tentar recuperar a galinha de estimação do mais pobre deles. O título original, “Kalo Pothi”, significa literalmente “Galinha Preta”.

Que não se espere continuidade narrativa, nem muita clareza nas relações entre os personagens e deles com o contexto sócio-político. A encenação é tão rústica quanto o cenário montanhoso, em que pese a expressividade do menino de casta inferior (Khadka Raj Nepali). O roteiro dispersivo avança aos trancos e barrancos, integrando com dificuldade o lastro neorrealista às irrupções oníricas do menino. O desfecho alusivo ao desapego tem um inequívoco toque budista.

Malgrado suas insuficiências dramatúrgicas, o filme agrada não só pela beleza das imagens e as peculiaridades da topografia do Nepal, mas também pelo imenso interesse etnográfico que emana de praticamente todas as sequências. Da arquitetura rural às comidas, das roupas aos costumes, do gestual às formas de trabalho, todo um modo de vida rudimentar e fascinante se apresenta aos nossos olhos e ouvidos. Vale, se não como um cinema refinado, como uma viagem compensadora.