Nelson para dar um play

Numa hora em que os DVDs começam a sair de cena, dando lugar ao consumo doméstico de filmes através de serviços on demand e via internet, cobre-se enfim uma lacuna abissal na oferta de filmes brasileiros em discos digitais. A Bretz Filmes está lançando a primeira de quatro caixas da Coleção Nelson Pereira dos Santos. Nesse pacote, cinco filmes – todos restaurados – cobrem o período de 1956 a 1967. A rigor, começa em 1957, ano de lançamento de Rio Zona Norte, o clássico dos clássicos sobre o destino do compositor popular brasileiro.

Todos logo se perguntam: cadê Rio 40 Graus? A ausência se explica por uma pendenga jurídica entre a produtora de Nelson, a Regina Filmes, e a Cinemateca Brasileira em torno da preservação dos negativos do filme. Enquanto isso não se resolve, ficamos todos privados desse filme seminal, a não ser por cópias piratas que, felizmente, não deixam de circular.

Além de Rio Zona Norte, a caixa traz Mandacaru Vermelho, Vidas Secas (certamente um dos dez melhores filmes já feitos no Brasil), Boca de Ouro e El Justicero. São todos exemplares de diferentes facetas da obra de Nelson – do projeto pessoal de RZN ao trabalho como diretor contratado em Boca de Ouro, passando pelo filme surgido de uma circunstância casual (Mandacaru) e a adaptação literária (Vidas Secas e El Jus).

Os discos incluem extras preciosos, como o curta Um Moço de 74 Anos, realizado por Nelson a propósito do Jornal do Brasil e que integra o DVD de Boca de Ouro. Em outro bônus desse disco, o próprio Nelson comenta detalhes do elenco e da cenografia do filme, além da celeuma que causou esse encontro entre o cineasta (então) comunista e o escritor reacionário Nelson Rodrigues. Daniel Filho também comparece com um depoimento em que esbanja bom-humor e vivacidade ao recordar detalhes das filmagens – como Nelson dançando twist após a conclusão de cada tomada.    

O DVD de Rio Zona Norte vem acompanhado do curta Meu Compadre Zé Ketti, em que Nelson homenageou postumamente o compositor que lhe servira de inspiração para o longa de 1957. O diretor conta num depoimento a gênese do filme e fala de sua amizade profunda com Zé Ketti e Grande Otelo, ao passo que a pesquisadora Mariarosa Fabris tece um minucioso painel da chegada do neorrealismo italiano no Brasil.

Junto com Mandacaru Vermelho vem um depoimento de Nelson sobre os fatos que o levaram a improvisar um nordestern, com ele próprio no papel principal, já que a chuva “estragou” o cenário do sertão propício à filmagem de Vidas Secas. No DVD desse último, inclui-se o curta Como se Morre no Cinema, de Luelane Corrêa, deliciosa fantasia em torno da cadela Baleia e seu sucesso em Cannes.

No DVD de El Justicero, Nelson aparece explicando o contexto em que surgiu o filme (planejado como um “Rio Zona Sul” para completar a trilogia) e a participação de seus ex-alunos da UnB. A pesquisadora Leonor Souza Pinto faz ampla análise das mudanças nas razões da censura e do processo que levou “El Jus” a ter suas cópias destruídas pela polícia. Por sua vez, a atriz Marcia Rodrigues e o cineasta Octavio Bezerra (ator do filme) relembram a era da inocência e a juventude transviada que o filme retratava.

A filmografia destacada nos DVDs não inclui os dois filmes sobre Tom Jobim, uma vez que estacionou em 2009, ano em que foram tomados os depoimentos. Essa defasagem deverá ser corrigida pelo lançamento, a cada dois meses, das próximas três caixas, que cobrirão a obra de Nelson até 2012. No ano que vem, o mestre completará 90 anos.

 

 

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