Festival do Rio: Ferrante Fever + Matangi/Maya/M.I.A.

A artista /não/ está presente

Assisti no sábado, no Festival do Rio, a dois documentários antípodas por força da extrema diferença entre suas personagens-título: FERRANTE FEVER e MATANGI/MAYA/M.I.A.. A maneira como cada uma delas se coloca na arte e no mundo determinou o formato dos respectivos filmes.

Elena Ferrante é uma entidade misteriosa, uma autora (autor? Autores?) que renunciou à persona pública e quer existir somente através dos seus livros. De Elena não se conhece história pessoal, nem qualquer registro visual. Não se trata apenas de fugir da condição de celebridade, mas de manter-se radicalmente incógnita para o mundo.

Já a cantora M.I.A. baseia sua carreira na auto-exposição, como convém a uma pop star. Nascida em meio aos conflitos políticos do Sri Lanka (seu pai fundou o Movimento de Resistência Tamil), ela emigrou para Londres ainda criança e galgou o estrelato em pouco mais de 10 anos. Agora usa a fama para afrontar convenções do showbizz e denunciar o genocídio da população tamil em seu país natal.

Uma artista reclusa e alheia ao cenário político-social, outra em plena evidência e engajada em vários níveis. Como, então, esses filmes vão refletir tal disparidade?

FERRANTE FEVER lida com a ausência física da personagem, que é substituída por diversos recursos. Temos animações e imagens estilizadas de uma mulher sem rosto vagando por locais não identificados; cartas abertas e textos de Elena em primeira pessoa lidos por uma narradora em off; comentários de escritores, editores e da tradutora americana sobre sua obra e sobre a lacuna fundamental da figura do autor. Alguém elogia “a beleza da ausência de um rosto”.

Não deixa de ser irônico ver alguns literatos vaidosos dissimulando seu egocentrismo em elogios ao desprendimento de Elena.

FERRANTE FEVER traz considerações relevantes sobre as personagens da obra, seu estilo absorvente e a perspectiva feminista – mas não anti-homem – de sua literatura. O foco, naturalmente, está na Tetralogia Napolitana, com que Elena conquistou os EUA, e dali o mundo.

O filme passa ao largo da questão da identidade, abordada como algo já dado, que não suscita curiosidade. Muito já se especulou e investigou sobre quem será Elena Ferrante, e seria lícito esperar que um documentário sobre ela ao menos citasse essas inquirições. Mas o diretor Giacomo Durzi parece mais interessado em colher elogios à obra e à postura da suposta autora.

Por sua vez, Steve Loveridge estruturou MATANGI/MAYA/M.I.A. como um mosaico de materiais majoritariamente alheios, valendo-se da quantidade de registros domésticos produzidos pela própria M.I.A. desde sua infância. A vocação de estrela dos palcos transparecia nos pequenos vídeos de dança gravados ainda em Sri Lanka. Por conta do desejo de ser uma documentarista, ela filmou muito a si mesma, sua família e suas viagens. Por sinal, M.I.A. já dirigiu alguns de seus clipes mais polêmicos, denunciando violência contra minorias e imigrantes.

De garota numa família perseguida no Terceiro Mundo a revelação da cena pop londrina, sensação mundial e personalidade política emergente, a cingalesa franzina conseguiu “encaixar tudo” (a expressão é dela) com base na exposição de seu rosto e de suas ideias pessoais. Ao contrário de Elena Ferrante, ela quis aparecer muito para atuar mais. No fundo, é também uma forma de contestação do status quo artístico, mas pelo caminho inverso.

Confrontados, os dois filmes refletem no formato as escolhas de suas personagens. A ocultação de uma gera uma abordagem indireta e elegíaca. A presença obsessiva da outra garante um tratamento frontal, incisivo e magnetizante.

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