Festival do Rio: Minha Obra-prima

A filmografia do argentino Gastón Duprat (e seu habitual parceiro Mariano Cohn) é marcada por conflitos entre a arte e a fama, a celebridade e a mediocridade. Em O Cidadão Ilustre e O Homem ao Lado, tínhamos artistas arrogantes confrontados com a vulgaridade de pessoas comuns. Por sua vez, El Artista, filme de 2008, antecipava alguns temas presentes em MINHA OBRA-PRIMA, primeiro longa de ficção que Duprat assina sozinho, enquanto Mariano aparece como produtor.

A fraude artística está no centro da fantasiosa história da amizade entre Arturo, pequeno galerista de Buenos Aires, e Renzo, velho pintor que ficou para trás no mercado de arte. Arturo já ganhou muito dinheiro com as telas de Renzo Nervi, mas este, agora em fase decadente, se converteu num misantropo que pode facilmente confundir independência com inconveniência. O vínculo entre eles, porém, parece mais forte que qualquer desavença.

Assim é que, depois de um revés mais sério com o pintor, Arturo encontra a fórmula perfeita para reacender a chama de Renzo no meio artístico. Sobram, então, ironias quanto ao estatuto da arte contemporânea e às circunstâncias que fazem oscilar as cotações no comércio de arte e no interesse das curadorias. As farpas atingem também as boas intenções e os bons sentimentos, como os de um jovem aspirante que procura lições de Renzo para se tornar um artista “nobre”.

Há um tempero tipicamente argentino – e quiçá italiano – nesse misto de amoralismo impiedoso e simpatia humanística. A ética antissocial de Renzo e os truques de Arturo, se não inspiram admiração, tampouco suscitam condenação irrevogável. Nesse tipo de comédia “negra”, os vícios da realidade externa sempre justificam os estratagemas pouco louváveis a que recorrem seus personagens.

Em MINHA OBRA-PRIMA não encontramos a mesma medida perfeita de O Cidadão Ilustre. O roteiro custa um pouco a “decolar” e tem algumas facilidades e inverossimilhanças, sobretudo nas diversas “viradas” da trama. Mas não faltam inteligência, diálogos brilhantes, tiradas divertidíssimas e atuações estupendas de Guillermo Francella e Luis Brandoni, dupla de sucesso na TV argentina.

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