Lisboa psicodélica

CAMINHOS MAGNÉTYCOS

Para a plateia brasileira, Ney Matogrosso aparece como atrativo principal de CAMINHOS MAGNÉTYCOS. Nessa coprodução luso-brasileira, ele vive um personagem mutante, misto de vidente espírita, líder revolucionário e performer musical reavivando a “Rosa de Hiroshima”. O miscast absoluto é apenas disfarçado pela atmosfera de farsa surrealista-psicodélica que caracteriza inteiramente o filme de Edgar Pêra. Esse diretor português é sempre pretensamente ousado, mas raramente atinge seus alvos.

Aqui, trazendo para uma suposta atualidade a trama de um conto publicado por Branquinho da Fonseca em 1938, ele narra a crise de consciência de um imigrante que acha ter “vendido” sua filha em casamento com um homem rico e ultraliberal, íntimo de Donald Trump. Raymond – assim se chama o sogro arrependido – é um fotógrafo francês arruinado que vive em Portugal desde a Revolução dos Cravos, interpretado por Dominique Pinon, ator-fetiche de Jean-Pierre Jeunet.

Raymond vive uma noite de pesadelo, vagando por cenários de uma Lisboa (filmada também em Guimarães) deserta por conta do toque de recolher de uma ditadura de extrema-direita que instalou um certo “Portugal Integral”. Em seu périplo, às vezes seguido por um drone, ele se desespera pela filha, ouve conselhos do vidente e acaba sendo preso por estar próximo ao grupo de ativistas da resistência.

A intenção de oferecer uma parábola política sobre a onda fascista que se instalou nesse nosso “Novo Mundo”, se é que existia, se esvai no excesso de invencionices e na ausência de substância. Para plasmar visualmente a confusão mental do protagonista, Edgar Pêra criou um incessante caleidoscópio de imagens superpostas, fusões, colorações cambiantes, perspectivas distorcidas e cenários virtuais a envolver e se confundir com os atores. No pesado trabalho de pós-produção e montagem, raramente se consegue discernir uma imagem concreta dentro do palimpsesto geral.

A banda sonora tem pique alucinógeno, as falas são ruminações ou proclamações retiradas de obras literárias. Se Peter Greenaway fosse duas vezes mais diletante do que já é e duas vezes menos virulento do que sempre foi, faria algo parecido com CAMINHOS MAGNÉTYCOS.

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