É preciso falar sobre HIV agora

CARTA PARA ALÉM DOS MUROS – resenha de Léa Maria Aarão Reis

O documentário Carta para Além dos Muros, com depoimentos de médicos dermatologistas e infectologistas, pacientes, sanitaristas e ativistas que operam no tema, narra a história da epidemia de HIV/Aids no Brasil. O seu objetivo, segundo o diretor, André Canto, é refletir sobre o preconceito que ainda hoje atinge aqueles que vivem com HIV e a partir daí contribuir para tentar acabar com esse estigma.

”Percebo que os negros e a comunidade LGBTQ estão morrendo mais de Aids, e precisamos ficar atentos para o que vem ocorrendo. Infelizmente, o Brasil coloca na mesma balança o racismo e a questão social econômica. Mas, o fato é que racismo é racismo”, disse André esta semana, na pré–estréia do filme, em São Paulo, que precedeu seu lançamento em diversas cidades do país.

Ele lembra que mais de 11 mil pessoas morrem de Aids, por ano, no Brasil, ”onde, por outro lado, temos uma gama de estratégias de prevenção que vão além da camisinha e ainda não são devidamente divulgadas, como a PrEP e a PEP. E mais: vivemos numa época em que o tratamento para o HIV está sempre avançando e garantindo uma expectativa de vida igual à das pessoas não infectadas”.

”Mesmo informações sobre o que significa indetectável = intransmissível ainda não são divulgadas de forma clara. No entanto, isto poderia contribuir para diminuir, e muito, o estigma que sofrem as pessoas que vivem com HIV”.

Pois o filme de Canto contribui e muito para derrubar esse estigma. É sereno, singelo, sério e muito bem montado ( observa–se não apenas a experiência, mas também a competência do autor em edição de TV e montagem cinematográfica), conta com depoimentos preciosos e objetivos e segura a atenção do espectador do começo ao fim que é musicado por uma nota de nostalgia dos (talvez) últimos tempos de uma juventude inocente.

A historiografia da Aids que ele traça, desde os dias dançantes do último desbunde dos anos 80 até os tempos presentes; desde quando o sarcoma de Kaposi era chamado vulgarmente de ”bolha assassina” até agora, em que ”o vírus está muito mais presente no nosso imaginário que no nosso corpo”, como é observado no documentário, essa historiografia também denuncia a desigualdade vigente: gays negros e pardos continuam evoluindo para a Aids, no Brasil, ao contrário dos gays brancos.

No filme está claro: ”Acreditamos que o silêncio sobre a temática HIV e Aids seja um dos grandes fatores para a perpetuação do estigma e do preconceito, aprofundando os círculos de exclusão que atingem as populações mais vulneráveis”.

E é preciso desvincular poderes políticos da situação da saúde da população, adverte o doc; quebrar tabus e procurar vencer a dificuldade de falar sobre o assunto. Uma dificuldade que persiste ainda hoje!

Carta para Além dos Muros (uma homenagem ao escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, autor do célebre Morangos mofados e de um belo livro com aquele título) também alerta: o Brasil está se tornando uma teocracia. Influenciar na dinâmica do processo do conhecimento, negando à sociedade informações – como, no caso, os métodos existentes e eficazes de proteção da infecção antes de ela se manifestar e da profilaxia pré–exposição – é simplesmente um crime.

Resumindo: ninguém deveria ter medo de se testar e, em caso positivo, iniciar o tratamento. E ninguém deveria ser discriminado por viver com HIV.

Sentados numa singela cadeira, conversando com o espectador e tendo ao fundo uma porta pintada muito simbolicamente de vermelho/laca – ou vermelho/sangue? – e aberta para o mundo em movimento, indiferente, lá de fora, os entrevistados relembram grupos históricos de proteção como o Gapa e o Abia. Rememoram a ”o choque com o nível de grosseria que eu tinha vendo como o tema era tratado”, diz o escritor José Silvério Trevisan.

Os primeiros gays saindo do armário e o ”misticismo envolvido numa doença fatal”, como lembra o dermatologista Paulo Roberto Teixeira.

O filme de André Canto se inicia com as meninas das Frenéticas cantando, é claro, Dancing days. No fim, ecos distantes do ”entre nessa festa e abra suas asas”.

Mas procure não soltar todas as suas feras.

Léa Maria Aarão Reis

(publicado originalmente no portal Carta Maior, em 27.9.19)

Leia também uma entrevista de Léa Maria Aarão Reis com o diretor André Canto.

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