Presentes de documentaristas

A rede de solidariedade e desprendimento que está se formando nesses dias de confinamento social pode ser uma das melhores heranças dessa catástrofe para os dias futuros. Jovens se oferecem para cuidar de idosos que não conhecem, pessoas se postam em suas janelas para conversar e alegrar os vizinhos, artistas disponibilizam suas criações para consumo gratuito na internet.

Agora mesmo Bebeto Abrantes e Evaldo Mocarzel, dois dos mais ativos e criativos documentaristas brasileiros, abriram o acesso a seus filmes em plataformas virtuais. Juntos, formam uma playlist estupenda de atrações para retirar nossos espíritos da quarentena.

Bebeto Abrantes

No canal de Bebeto Abrantes, no Vimeo, pode-se encontrar, por exemplo, o já clássico Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto, que parte de uma entrevista do poeta para compor um perfil do João Cabral viajante e ao mesmo tempo um belíssimo ensaio poético audiovisual. Leia aqui minha resenha completa do filme.

3 Antonios e um Jobim, dirigido por Dodô Brandão a partir de argumento e roteiro de Abrantes, conseguiu a rara proeza de reunir Antonio Houaiss, Antonio Candido, Antonio Callado e Antonio Carlos Jobim para a macarronada mais inteligente e divertida da cultura brasileira. Não sem antes ouvir um pouco das diferentes aptidões e formações de cada um. Aqui um texto sobre esse doc.

Abrantes dedicou um longa-metragem à evolução do samba através dos seus instrumentos e suas bossas de percussão. É uma visão original do tema, uma suíte rítmica de falas e batidas que delicia os ouvidos e mexe até com nossos músculos. Leia a resenha aqui.

O canal do diretor contempla, ainda, Histórias de um Brasil Alfabetizado, em que o aprendizado das letras surge como um dado transformador na vida – ou pelo menos na consciência – de pessoas em situação-limite; Até Quando?, investigação sobre a mortandade de adolescentes no Brasil dirigida com Belisário Franca; e TV,  Quem Faz, Quem Vê, realizado para a comemoração dos 50 anos da TV no Brasil.

Evaldo Mocarzel

Prolífero e incansável experimentador de formas documentais e também dramaturgo, Evaldo Mocarzel está inteiro num canal do Youtube. Ele realizou diversas parcerias com grupos teatrais de São Paulo, que resultaram em filmes situados na fronteira entre teatro e documentário. Destacam-se os trabalhos sobre/com/a partir de espetáculos do Teatro da Vertigem (BR-3, A Última Palavra é a Penúltima), do Grupo XIX (Hysteria), do Satyros (Cuba Libre, Vila Verde, Os Satyros)e Os Fofos Encenam (Assombrações do Recife Velho).

Uma boa iniciação para a longa playlist de “documentários cênicos” e experimentações de Mocarzel nessa área fronteiriça é a matéria que escrevi em 2012 para a revista Filme Cultura (leia aqui).

Mas a filmografia do diretor no Youtube abrange também documentários “puros”, inspirados no cinema-verdade, como sua famosa Trilogia à Margem, formada pelos filmes À Margem da Imagem (resenha), À Margem do Lixo (resenha) e À Margem do Concreto (resenha). E ainda Mensageiras da Luz – Parteiras da Amazônia (resenha) e o popularíssimo Do Luto à Luta, sobre famílias que lidam com a Síndrome de Down (resenha).

Entre os melhores trabalhos de Mocarzel estão o etnomusical Quebradeiras (resenha), sobre o trabalho das quebradeiras de coco de babaçu na região fronteiriça de Maranhão e Tocantins, e a intensa história de amor fraternal contada em Até o Próximo Domingo (resenha), com o dramaturgo Nelson Baskerville a propósito de sua peça Luís Antonio Gabriela.

6 comentários sobre “Presentes de documentaristas

  1. Pingback: #fiqueEmcasa com filmes – CSociais Online

  2. Pingback: Mais cinema (brasileiro) em casa | carmattos

  3. Muito boa essa “caixinha de surpresas” que v. nos oferece para xeretar o que tem dentro, nestes dias de tantas incertezas e apreensões. Difícil é saber por onde começar, tantas são as sugestões nessa riquíssima variedade de autores e temas. No nosso caso, nestes dias de “cólera”, por afinidade com a Literatura e a Música, sem descartar a Política, decidimos abrir o cenário revendo “Três Antonios e um Jobim”, delicioso documentário de Dodô Brandão, sempre acreditando na utopia de que, apesar “deles”, “dias melhores virão”.

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