Festival do Rio: Até o Próximo Domingo

ATÉ O PRÓXIMO DOMINGO é um dos mais radicais experimentos de Evaldo Mocarzel na sua já longa viagem pela fronteira entre documentário e teatro. Enquanto a peça Luís Antonio Gabriela é um sucesso na vertente do teatro-documentário atualmente em voga no Brasil, o filme de Mocarzel pode ser chamado de um documentário-teatro. Aqui o espetáculo serve de detonador para uma obra que põe a mesma matéria autoral em cena, mas numa cena cinematográfica.

O ator, diretor e artista plástico Nelson Baskerville é o autor da peça sobre sua família, com ênfase no irmão adotivo Luís Antonio, que ainda jovem partiu para o estrelato na cena gay de Bilbao com o pseudônimo Gabriela. A ação teatral privilegiava a viagem da irmã Cristina para resgatar Luís Antonio, enfermo de Aids. Já o filme contém apenas cenas curtas e esparsas da peça. O eixo principal é a narração em off de Nelson a respeito do inferno familiar em sua infância em Santos e as emocionadas lembranças do irmão.

Havia ali um pai tirânico, muitas brigas entre filhos de mães distintas e o horror dos mais velhos diante da homossexualidade do pequeno Luís Antonio, que o pai tentava corrigir à base de surras. Num texto de franqueza excepcional, mesclando crueza e ternura, Nelson confronta um passado em que sua imagem e a do irmão parecem espelhar-se. A peça foi uma maneira dele se “reencontrar” com Luís Antonio, morto em 2006, depois de não vê-lo por 30 anos. O filme, colocando o irmão em segundo plano, atua como um mergulho em suas próprias lembranças e reflexões.

Mocarzel elabora uma evocativa colagem de filmes domésticos da família, pinturas de Baskerville e imagens de conotação poética. Na montagem com Joaquim Castro, perseguiu a ideia do monólogo interior de Serguei Eisenstein, visando estruturar o filme com “textura e cadência de sinapses”. A trilha sonora de Jorge Amorim, Piqueiras Santangelo e Raul Zito, bem como a edição sonora da imbatível dupla Miriam Biderman e Ricardo Reis, ajudam a transportar o espectador para o caudal de memórias de Nelson Baskerville.

Para quem viu a peça, este é um mergulho em sua gênese e seu magma de origem. Para quem não viu, é a chance de conhecer por dentro uma história de intenso e atribulado amor fraternal.

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