Brasília, festival de exceção

O 53º Festival de Brasília começou ontem com formato de exceção. Pela primeira vez online, não conta com a entusiasmada – e politizada – adesão do público presencial. Sob a direção artística de Silvio Tendler, compôs uma mostra competitiva de longas-metragens com cinco documentários e apenas um de ficção, todos sendo exibidos no Canal Brasil às 11 da noite. Orlando Senna, autor do drama camponês Longe do Paraíso, é a rigor a única grande estrela da mostra. Veja aqui a programação das mostras oficiais e atividades paralelas.

Além da competição de curtas e da tradicional Mostra Brasília, transmitidas na plataforma dos canais Globo, o interesse recai sobre a mostra paralela online curada por Cavi Borges, que reúne 33 filmes de várias épocas, alguns deles bem raros e que não estão disponíveis na internet. Esse programa inclui títulos históricos de Maurice Capovilla, Rogério Sganzerla, Vladimir Carvalho, Luiz Rosemberg Filho, Fernando Coni Campos, André Luiz Oliveira, Jairo Ferreira, Sergio Peo, Sylvio Lanna e Sergio Ricardo, assim como filmes recentes de Sinai Sganzerla, Bruno Safadi, Douglas Duarte, Noilton Nunes, Felipe Cataldo e Luiz Carlos de Alencar. Veja aqui esta programação especial. Todos os filmes estão disponíveis até o dia 20 através deste site.

As atividades paralelas incluem uma extensa agenda de debates online sobre temas como a situação da Cinemateca Brasileira, as mulheres documentaristas, cinema ambiental e a representação do negro no cinema. O músico David Tygel dará uma oficina sobre o seu métier e Daniela Broitman, sobre “senso crítico e olhar sensível no documentário”. Daniela também estará à frente de uma mesa sobre “liberdade de criação, direitos autorais e usos livres”.

Uma das grandes atrações é uma live com Ken Loach, programada para hoje (quarta, 16/12) às 11h.

A Mostra Brasília traz três filmes já comentados aqui no blog: Candango – Memórias do Festival de Brasília, Utopia e Distopia e Cadê Edson?

Nos próximos dias vou publicar comentários sobre alguns filmes do festival. Começo por um que acredito ser forte concorrente na competição de longas, o documentário Por Onde Anda Makunaíma, de Rodrigo Séllos. Este e A Luz de Mario Carneiro, de Betse de Paula, foram viabilizados pelo canal Curta! através do Fundo Setorial Audiovisual e estreiam no canal em 2021.

Por Onde Anda Makunaíma

Para os comuns dos leitores e espectadores, Macunaíma é uma criação de Mario de Andrade que se tornaria, a partir dos anos 1960, matriz de invenção para espetáculos que incluem os filmes de Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma) e Paulo Veríssimo (Exu-pià) e as peças de Antunes Filho e mais recentemente Bia Lessa. Além de samba-enredo da Portela.

O cineasta Rodrigo Séllos resolveu aprofundar esse conhecimento remontando às origens do mito e analisando o sentido de cada reencarnação do “herói sem nenhum caráter”. Por Onde Anda Makunaíma é um projeto ambicioso como estudo cultural. Rodrigo foi à região fronteiriça de Brasil, Venezuela e Guiana, onde está o Monte Roraima, suposto berço da entidade. Ali recolheu relatos míticos sobre o “criador de tudo”, incluindo uma inestimável descrição de Dona América, indígena idosa que ouviu tudo dos pais e explica por que acreditou: “Era quase verdade”.

“Quase verdade” é uma expressão cara a qualquer documentarista. Rodrigo vai buscar o nascedouro do mito nas andanças do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que gravou as histórias de Makunáima (assim, com a tônica no ‘a’) e nas margens de cujo livro Mario de Andrade rascunhou as primeiras ideias do seu. O resgate antropológico, contudo, não é estanque, pois deságua numa discussão sobre decolonização e a necessidade de redescobrirmos as nossas próprias origens, que estão nas comunidades indígenas.

Esse movimento entre diversas temporalidades vai sendo incrementado à medida que o documentário passa a se ocupar dos filmes e da peça de Antunes. Nesses, o personagem era reapropriado como anti-herói de resistência modernista-tropicalista à ditadura militar, da mesma forma como a montagem recente de Bia Lessa (ausente no filme) se insurgia contra os descalabros políticos do nosso tempo.

Grande Otelo é o personagem condutor, com sua veia macunaímica nata. Mas lá estão também, entre outros, Paulo José voltando às imagens de Joaquim Pedro; Antunes e Cacá de Carvalho reexaminando a revolução que Macunaíma provocou no teatro. Antes que o filme retorne aos indígenas para um final poético que reafirma a presença do mito.

A pluralidade de linguagens e registros pode causar certo espanto no início. Afinal, temos imagens projetadas em prédios, antigas fotografias sobrepostas a cenários de hoje, murais fotográficos colados no espaço urbano – uma série de procedimentos performáticos que se mesclam com entrevistas, deslocamentos geográficos e manipulação de materiais de arquivo. Aos poucos, o método se impõe como uma forma de navegar entre o tempo mítico, o período ditatorial e a atualidade brasileira. Fica claro, assim, que Makunaíma, com todas as suas ambiguidades, permanece como um espelho partido de nossas virtudes e nossos fracassos.

4 comentários sobre “Brasília, festival de exceção

  1. Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem (PE, RJ, MS)
    (Natara Ney, Documentário, PE/RJ/MS, 83 min) Ontem assisti este primeiro filme da Mostra.Gostei muito de sua leveza e seu tema, da busca da autora, dos depoimentos. Escrevo cartas e sempre escrevi. Ninguém responde mas,continuo escrevendo para a família e raros amigos. É o modo de ser de cada um. Guardo as cartas recebidas e são como relíquia posto que alguns já se tornaram encantados.

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