O mistério Siron

SIRON – TEMPO SOBRE TELA no streaming

Siron Franco é um pintor visceral e inquieto, cuja obra sofre mutações radicais de quando em quando, a ponto de desnortear críticos e decepcionar colecionadores que julgavam já tê-lo “absorvido”. O que não sabíamos é que ele também gosta de cinema e se deixou filmar no ato de criação em várias fases de sua carreira. No documentário Siron – Tempo sobre Tela, os diretores André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos atuaram como uma espécie de curadores desse vasto material, dispondo-o de forma a nos dar a impressão de que, enfim, “absorvemos” Siron.

As imagens em Super 8 e VHS mostram a postura intensa e ao mesmo tempo brincalhona do pintor diante das telas. A edição faz com que ele às vezes apareça pintando e despintando, desenhando e desdesenhando, muito de acordo com o movimento do seu gesto criador. Nisso lembra ocasionalmente o clássico O Mistério Picasso, de Henri-Georges Clouzot. Algumas de suas famosas séries são resultado de muita feitura e desfeitura, sobreposição de camadas e ideias pictóricas. “Metade da tinta que eu gasto não vai para o quadro, vai para o chão”, quantifica. Vê-lo criando é como desvendar um pentimento (vestígios das alterações de um quadro revelados pelo tempo). Ou como assistir à performance de um prestidigitador. Bichos fantásticos, gente transfigurada, madonas ultrajadas – tudo parece brotar de um misto de transe, catarse e êxtase lúdico.

Ninguém fala no filme além do próprio Siron. Ele se auto-examina no trânsito entre os pesadelos e a tela, na busca da exaustão que dispara seu inconsciente, na inspiração colhida na pele dos animais, na estética do soterramento que adensa boa parte da sua pintura, nas viagens em que busca motivos para se renovar. Do seu Goiás natal, porém, ele nunca se separou. 

Entre as belas e parcimoniosas cenas captadas na atualidade, duas me chamaram particularmente a atenção. Uma delas é a triste visita de Siron ao local da periferia de Goiânia onde em 1992 construiu o grandioso Monumento às Nações Indígenas, um conjunto de 500 totens decorados com motivos nativos, depois vandalizado e demolido a marretadas. Outra é a sequência silenciosa das casas de colecionadores que expõem em suas paredes as várias fases do artista. “Quadros que eu não teria dinheiro para comprar de volta”, diz Siron, na sua costumeira descontração.

Conciso nos recursos e arejado na forma de apresentar o personagem, esse documentário cumpre bem a difícil tarefa de investigar um processo de criação.

>> Siron – Tempo sobre Tela está nas plataformas Belas Artes à La Carte, Now, Vivo TV, Sky Play e Looke.

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