Miguel Littin, entre o Chile e o exílio

Miguel Littin com Gabriel García Márquez

Artigo raríssimo em cinemas, televisão e internet, o cinema de Miguel Littin com legendas em português ganha uma mostra online e gratuita a partir desta quinta-feira, 1º de abril, na plataforma SPCine. Não tem preço essa oportunidade de ver 12 filmes de uma figura chave do cinema moderno latino-americano. A programação traz ainda uma masterclass e um debate reunindo Alexsandro de Sousa e Silva, especialista na obra do cineasta, a curadora Lívia Fusco e Francisco César Filho, diretor do Festival de Cinema Latino-americano de SP.

Datas, horários e detalhes podem ser conferidos no site da mostra Cinema Latino-americano de Miguel Littin.

Filho de imigrantes – pai palestino e mãe grega –, Littin estudou teatro antes de se lançar no cinema com curtas-metragens e uma estrondosa estreia no longa em O Chacal de Nahueltoro, em 1969. O sucesso desse filme fez Salvador Allende nomeá-lo diretor da empresa de fomento Chile Films, na época estatal. Após o golpe de 1973, Littin exilou-se no México e na Espanha, passando a filmar no exterior. Só voltou ao Chile clandestinamente em 1985 para realizar o documentário Ata Geral do Chile, episódio que Gabriel García Márquez imortalizou no livro-thriller A Aventura de Miguel Littin Clandestino no Chile. Expoente do Novo Cinema Latino-americano, na teoria e na prática, Littin consagrou-se como exemplo de cineasta comprometido com causas sociais, embora nunca tenha se filiado a qualquer partido político.

A maior parte de sua obra nunca foi lançada nos cinemas brasileiros, o que amplia a importância dessa mostra. “Ao assistir aos filmes de Miguel Littin o público não tem apenas a chance de conhecer a história recente do Chile, mas pode também montar junto a ela o grande quebra-cabeça chamado América Latina”, adianta Lívia Fusco. E complementa: “Começando nos anos 1960, com o fervilhar do Novo Cinema Latino-americano feito por jovens cineastas que usaram o cinema como arma frente ao imperialismo e em favor de mudanças sociais e de uma descolonização cultural de seus países; passando pela desesperança da era de chumbo das ditaduras: mortes, exílios, clandestinidade, sempre revelando congruências entre nossos povos”.

A seguir, algumas notas sobre os filmes da mostra:

O Chacal de Nahueltoro (El Chacal de Nahueltoro), 1969

Em seu primeiro longa, Littin reconstitui a história do camponês José del Carmen Valenzuela Torres, um homem brutalizado desde sempre, que termina preso e condenado à morte pelo assassinato de uma camponesa e seus cinco filhos. Através de vários recursos narrativos inovadores e uma montagem de choque, o filme narra brevemente a infância do chamado “Chacal de Nahueltoro”, mas concentra-se na execução do crime bárbaro e no tempo que ele passa na prisão sendo reeducado e ganhando consciência sobre si mesmo e o mundo. O mais chocante é que, mesmo depois de “amansado” e praticamente “recuperado” para a sociedade, José é enfim levado ao pelotão de fuzilamento. O padre endossa a pena de morte e José calça sapatos de couro, lava o rosto e se penteia antes de se dirigir ao paredão.

Littin trabalha pela primeira vez com o ator Nelson Villagra, que teria lugar cativo no elenco dos seus filmes futuros. A estética de Chacal é muito semelhante à do Cinema Novo brasileiro, com a fotografia em preto e branco de Pedro Chaskel (outro nome forte do cinema chileno) e uma atenção especial para as fisionomias populares. Os rostos do povo são destacados em três circunstâncias diferentes: a comoção pela morte da família camponesa, a fúria dos potenciais linchadores do assassino e uma sequência de festa. José, por sua vez, é um homem opaco e perdido, cujo único sorriso se dá quando ele chuta uma bola no pátio da prisão.  

Companheiro Presidente (Compañero Presidente), 1971

Em 1971, o filósofo francês Régis Debray, célebre por ter participado junto a Che Guevara na incursão boliviana que custaria a vida a Che, chegou ao Chile para conhecer a experiência que rumava para o socialismo. Nesse contexto, Debray entrevistou Salvador Allende sobre as características do processo e desafios, tanto ideológicos como políticos dessa experiência. Littin transformou esse encontro num documentário.

A Terra Prometida (La Tierra Prometida), 1973

Baseado em fatos das primeiras décadas do século XX, misturando recursos documentais e ficcionais, o filme relata as lutas camponesas, seus mitos e lendas da instauração de uma fugaz república socialista no Chile. A fotografia em cores é do brasileiro Affonso Beato. Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 1974.

Gian Maria Volonté

Atas de Marusia (Actas de Marusia), 1976

Primeiro filme de Littin no exílio, foi rodado no México, mas reconta a história de um levante popular ocorrido em 1907 no norte do Chile. O assassinato de um operário acirra os conflitos entre trabalhadores e a repressão particular da inglesa Marusia Mining Company. O processo leva à paralisação dos trabalhos nas minas, os primeiros crimes esparsos, torturas e finalmente a intervenção do Exército e o massacre generalizado de homens, mulheres e crianças.

Quando vi o filme em 1979, enxerguei semelhanças com Eisenstein, não só pelo forte apelo visual, como por uma cuidadosa arquitetura narrativa. Era um petardo dirigido ao Chile de Pinochet. Littin baseou-se nos escritos de Patricio Manz, um sobrevivente da chacina. Duas coisas são especialmente memoráveis: a atuação de Gian Maria Volonté no papel do mineiro Gregorio e o recurso genial encontrado pelos trabalhadores: envolver a cintura com bananas de dinamite para, no caso de serem atacados, provocarem também a morte dos agressores.

O Recurso do Método (El Recurso del Método / ¡Viva el Presidente!), 1978   

Adaptação da obra homônima de Alejo Carpentier. O presidente de uma república latino-americana recebe em Paris a notícia do levante de um general. Parte imediatamente e sufoca a rebelião, mas as consequências vão se estender até a deflagração de uma guerra mundial. Carpentier explicou o título do seu romance: “Trata-se da inversão do Discurso do Método de Descartes, pois creio que a América Latina é o continente menos cartesiano que se possa imaginar”. Música do cubano Leo Brouwer e fotografia de Ricardo Aronovich, argentino que fez as imagens de alguns clássicos do nosso Cinema Novo.

Geraldine Chaplin

A Viúva de Montiel (La Viuda de Montiel), 1979

Baseado no conto homônimo de Gabriel García Márquez, integrante do livro Os Funerais da Mamãe Grande. Geraldine Chaplin interpreta a viúva de um comerciante que enriqueceu através de delações e do terror. Numa viagem de trem ao lado da filha, ela recorda os fatos de sua vida. Rodado no México, o filme foi recebido como um relativo interlúdio no cinema político de Littin, aqui mais voltado para o drama individual da personagem. É um dos filmes mais apurados visualmente da carreira do diretor.

Alsino e o Condor (Alsino y el Cóndor), 1982

Uma equipe de nicaraguenses, cubanos, mexicanos, costarriquenhos e chilenos se reuniu para produzir este primeiro longa-metragem de ficção do cinema nicaraguense. O filme conta a história de um garoto camponês que sonha em voar ao mesmo tempo em que é envolvido na guerra de libertação da Nicarágua, em 1979. Um misto de política, poesia e fantasia que recebeu indicação ao Oscar de filme estrangeiro representando o México.

Ata Geral do Chile (Acta General de Chile), 1986

Em 1985, Miguel Littin regressa ao Chile na clandestinidade e realiza esse documentário sobre a realidade política do país na primavera de Allende e na ditadura de Pinochet. Dividido em três partes, intituladas “Miguel Littín: Clandestino no Chile”, “Norte do Chile: Quando Fui para o Pampa” e “Da Fronteira ao Interior do Chile: A Chama Acesa”, inclui depoimentos de García Márquez, Fidel Castro e Hortensia Bussi. A versão a ser exibida tem duração de 115 minutos, ao contrário da original de 270 minutos.

Os Náufragos (Los Náufragos), 1994

Aron volta depois de 20 anos de exílio a um Chile completamente diferente. Seu pai foi morto durante sua ausência e o irmão faz parte dos milhares de desaparecidos. Em meio a fantasmas familiares, ele se sente um náufrago perdido em um lugar irreconhecível, onde trata de compreender o que aconteceu com os seus entes queridos e o seu país. “No Chile, todos os inocentes estão mortos”, conclui. Depois de quase 20 anos de exílio, com o retorno da democracia no Chile, Miguel Littin volta oficialmente, num paralelo com o personagem central desse filme.

Terra de Fogo (Tierra del Fuego), 2000

Em meados do século XIX, o engenheiro romeno Julius Popper chega à Patagônia em busca de ouro e para conquistar terras em nome de sua rainha Carmen Sylva. Na bela e inóspita paisagem encontra imigrantes provenientes de todos os lugares do planeta que, como ele, chegaram a estas terras cegados pela ambição e dispostos a qualquer coisa para fazer fortuna. Logo Popper é ajudado por Armenia, uma italiana dona de um bordel, e por um grupo de homens comandados pelo alemão Fritz Novak, que lhe juram obediência em troca de ouro. No elenco, Jorge Perrugorría, Ornella Mutti e o onipresente Nelson Villagra.

A Última Lua (La Última Luna), 2005

Palestina, 1914. O jovem palestino Solimon e seu amigo judeu Jacob começaram a construir uma casa na colina judia de Beit-Sajour com pedras trazidas de Beit- Yala. Durante a aparente calmaria do lugar, explosões de violência antecipam os dias de guerra. Com esse filme Littin dá prosseguimento a um retorno às raízes de seus antepassados, já iniciado com o documentário Crônicas Palestinas, de 2001. Na direção de fotografia e câmera, seu filho Miguel Joan Littin.

Dawson, Ilha 10 (Dawson, Isla 10), 2009

Baseado no livro de Sérgio Bitar, o filme mostra a estada de ministros e colaboradores do destituído presidente Salvador Allende no campo de concentração da ilha Dawson, no Sul do país. Uma passagem pouco conhecida da história sul-americana é retratada por Littin com riqueza de detalhes. Muitos dos soldados encarregados de supervisionar o campo sentiam-se também como prisioneiros, numa missão que lhes causava desconforto moral. Esse foi o único filme de Littin com participação brasileira na coprodução, juntamente a Chile e Venezuela. Os atores baianos Bertrand Duarte e Caco Monteiro integram o elenco.      

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