Festival do Rio: “Madres Paralelas”

O Festival do Rio começa hoje em modo apenas presencial. De minha parte, ainda não estou frequentando salas de cinema, nem comentando filmes lançados no circuito de salas. Numa deferência especial, porém, vou resenhar alguns filmes do festival a que já tive acesso online, a começar pelo longa de abertura, Madres Paralelas. A programação e as informações estão no site do evento.

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Da maternidade à exumação de antepassados, Almodóvar convoca os arquétipos do melodrama em toda a sua glória.

Para o meu gosto, Pedro Almodóvar voltou a sua grande forma com Madres Paralelas, um sofisticado entrelaçamento de questões envolvendo maternidade e ancestralidade. Se de um lado, temos o presente e o futuro se articulando nas histórias de Janis e Ana, que se conhecem por acaso na espera pelo parto, de outro há o passado gritando debaixo da terra semeada de mortos e desaparecidos na Guerra Civil espanhola.

O roteiro de Almodóvar pode parecer “armado” demais para juntar essas duas pontas através da figura do arqueólogo Arturo (Israel Elejalde). Mas a convicção dramatúrgica do diretor acaba tornando tudo muito natural e fluente à medida que o filme avança.

A fotógrafa Janis (Penélope Cruz) é uma mulher madura, independente e feminista que assume sozinha os cuidados com a filha, fruto de uma relação fortuita com Arturo, um homem casado. Ana (Milena Smit), por sua vez, é uma adolescente vítima da crueldade de amigos que resulta numa gravidez precoce e indesejada. Um laço se forma entre as duas na sala de espera da maternidade. Um laço que vai se desdobrar em diversas direções – algumas bem surpreendentes – a partir do que elas passam a viver com suas respectivas filhas. Os arquétipos do melodrama são convocados em toda a sua glória.

Almodóvar expande o arco dramático para alcançar também a mãe de Ana (Aitana Sánchez-Gijón), atriz cuja obstinação com a carreira abre um vazio na conexão com a filha. Ou seja, estamos em pleno coração da temática almodovariana. Os elos entre mulheres são sempre múltiplos e multifacetados. O sofrimento de uma ou de outra pode provocar desde a mais profunda amizade até rasgos de indignação.

Quando o paralelismo entre as duas mães (Ana e Janis) atinge o ponto de ebulição, o diretor simplesmente inverte o foco para um tema que se anunciava desde as primeiras cenas. Janis promove a exumação dos ossos de seus antepassados numa pequena aldeia. Vivos e mortos se contrapõem num desfecho belíssimo, que soa como um pequeno conforto para todas as dores, do passado e do presente.

Madres Paralelas é Almodóvar em sua matriz mais clássica, com poucos e sutilíssimos acenos ao humor. A encenação prima pela elegância e pelo encadeamento de planos sedutores. Como em tantos de seus filmes, aqui também o design de interiores disputa nosso olhar com os atores. A fotografia “quente” do indefectível José Luis Alcaine e a predominância de cores primárias e secundárias na cenografia, ao mesmo tempo que aquece visualmente o filme, cria uma palheta pouco natural, quase expressionista. Almodóvar conta com essa ambiguidade para sustentar seu universo paralelo ao realismo.

A predominância de verdes e vermelhos – e são poucos os planos sem essas duas cores em destaque – não somente remete a valores simbólicos (coração, fogo, Natureza, renovação), mas também instaura um cromatismo subliminar que mantém acesas nossa atenção e nossa afetividade. Fundamentos de um cinema das emoções.

>> Madres Paralelas vai passar somente na sessão de abertura (9/12), com reservas já esgotadas.

3 comentários sobre “Festival do Rio: “Madres Paralelas”

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  3. Que texto lindo Carlinhos! Me deu mais vontade de assistir esse filme do grande Almodóvar e ver a Penélope que dizem estar radiante!

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