Muito deserto, pouca alma

ALMA DO DESERTO       

Acho que já vi documentários demais e talvez deva parar de comentá-los publicamente. Desenvolvi certos parâmetros críticos que me tornaram uma pessoa intolerante para abordagens insuficientes como a de Alma do Deserto (Alma del Desierto). Esta coprodução colombiano-brasileira, com trilha sonora de O Grivo e uma aparente e longínqua inspiração na obra de Cao Guimarães, tem uma personagem e uma questão potencialmente interessantes, mas simplesmente não sabe o que fazer com elas.

Minha opinião pode estar contaminada pelo meu histórico, uma vez que o filme ganhou um Leão Queer no Festival de Veneza e um prêmio no Festival de Havana. O fato é que, para mim, um documentário não basta ter uma personagem e uma questão. É preciso saber extrair o que ambos têm de importante, único e, se possível, universal.

Georgina, indígena da etnia Wayúu (norte da Colômbia), nasceu Jorge e há 45 anos luta para ter sua identidade transgênero reconhecida pelo poder público. Ingênua para os padrões “civilizados”, ela andava com uma carteira de identidade alheia, que dizia ter achado em algum lugar e não lhe servia para nada. Ter o seu próprio documento, com o nome de Georgina Epieyú, lhe permitirá votar, receber ajuda do governo e ter direito ao seguro-saúde. Ou seja, exercer a cidadania e sobreviver.

A diretora Mónica Taboada-Tápia a segue em suas andanças de mulher solitária na busca do documento e no reencontro com parentes e conhecidos que não via há muitos anos. Sua casa tinha sido queimada por vizinhos que não toleravam sua condição. Os dois irmãos a ignoravam. Um único companheiro a trocou por outra mulher. A perseverança com que ela requer os seus direitos é admirável.

Ou seja, o material é rico, caso houvesse uma direção capaz de mobilizá-lo em proveito do filme. Mas Alma do Deserto  parece se contentar com a mera apresentação desse quadro e a construção de imagens bem compostas, mas vazias. Georgina é visivelmente colocada em cenários naturais para a obtenção de quadros esteticamente ressonantes. Mas o roteiro é desconexo e se rende à introspecção da personagem, incapaz de nos aproximar de sua personalidade singular. Resta uma contemplação algo miserabilista do povo indígena e de aspectos isolados do seu rústico habitat. Muito deserto e pouca alma nesse filme.

>> Alma do Deserto está nos cinemas.  

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