Chico e suas construções

LeiteAcabo de ler Leite Derramado. Admito que não me interessei muito pelo que teria acontecido na saga dessa linhagem de Eulálios, estendida dos tempos dos jesuítas à era dos celulares. Mesmo assim, adorei o livro. Mas como assim? É que me deixei carregar pelo fluxo de reminiscências e ruminações do velho Eulálio Assumpção num leito de hospital, as camadas se sobrepondo, as memórias se confundindo, os tempos se misturando como tintas na paleta de um pintor. A linguagem defasada e preconceituosa do moribundo é a ferramenta perfeita para esculpir um mundo de antigo fausto que se desfaz pateticamente na decadência, na paranoia e nas armadilhas familiares.

Ao fim da leitura de mais um livro de Chico Buarque, quase compreendo as razões dos que não gostam deles. Seja em Estorvo, Benjamim, Budapeste ou neste último romance, a arrumação das ideias importa mais que a obra acabada. A construção é mais atraente que a casa pronta; a viagem mais que o destino; a correnteza mais que o rio. O problema é que nem todo mundo aprecia essas obras em curso, cheias de errâncias e hesitações. Muita gente prefere histórias aparentemente sólidas, caracterizações precisas, narrativas clássicas ainda que sob a aparência de pós-alguma coisa.

Isso eu posso entender, embora não partilhe. Mas o que não tolero mesmo é ver os críticos do Chico escritor o compararem com o compositor. Já virou um clichê de opinião: “Como escritor, Chico é um ótimo compositor”; “Adoro as músicas dele, mas os livros…”

Acho esse tipo de comparação:

a) Descabida – pois não vem ao caso julgar um artista em função de suas diferentes produções. Sem querer incorrer em outra comparação descabida, diria que não faz sentido diminuir a importância do Da Vinci cientista porque ele pintou a Monalisa. É preciso esquecer do Chico compositor para avaliar o escritor.

b) Desprezível – já que muitas vezes a comparação se presta a “fazer uma média” com o Chico. Critica-se sua literatura, mas, veja bem, adora-se sua música. Por que ele não ficou quietinho no campo que já o consagrou?

c) Improcedente – uma vez que a matéria do compositor é basicamente a mesma do romancista: narrativas poéticas, metáforas sonoras, transfigurações líricas do cotidiano, melodramas condensados em imagens comoventes, microretratos de tragédias e paixões brasileiras.

Para ilustrar esse último ponto, destaquei alguns fragmentos curtos de Leite Derramado que bem poderiam estar em letras de Chico Buarque. Reparem se não são o mesmo universo e a mesma dicção. Chico seria craque em ambas as posições mesmo que uma nada tivesse a ver com a outra. Mas o diabo é que têm.

“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório.”

“Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto da minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas de faculdade que eu já tinha esquecido…”

“É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.”

“Era como se, na calada da noite, Matilde passasse para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou dos brincos na gaveta.”

“Encontrei o vaso entre teias de aranha na despensa, os móveis estavam empoeirados, a casa inteira carecia do olho da dona.”

“Uma roupa rígida feito uma armadura, estranha mesmo ao corpo dela, e um corpo nu ali debaixo poderia até dançar sem dar na vista.”

“E corava pouco a pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol.”

“Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco, porque minha pele tinha ficado presa naquela mulher.”

“Assunção (…) foi o sobrenome que aquele escravo Balbino adotou, como a pedir licença para entrar na família sem sapatos.”

“(…) um bisneto sempre vai nos parecer familiar e ao mesmo tempo tão estranho, como o rio da nossa cidade léguas adiante.”

Um comentário sobre “Chico e suas construções

  1. Pela primeira vez gostei MUITO de um romance do Chico. Vi qualidades em sua escrita desde “Estorvo”, mas, aos meus olhos, predominava sempre a busca de um tipo de narrativa que chamo de “des-afetivada”, coisa de epígono de autores badalados da literatura contemporânea (“muderna”) que buscam um formato intelectual mais do que afetivo – o que para mim é indispensável, seja em grandes obras-primas ou até, para distrair, em romances policiais.
    Este livro me pareceu ser um desenvolvimento da bela canção “Velho Francisco” onde um certamente idoso acha que vai ser visitado no asilo por seu amor que virá “toda de brinco com cheiro de flor” – ou algo assim, lembram? “Toda de brinco” lembra “toda de branco” sem serdito, uma aliteração (é assim que se diz?) sugestiva, impressionista.
    Este livro mais recente correu fácil, li de uma sentada só em duas horas e meia. Muito superior (aos meus olhos – o que não é subjetivo nesta vida?) aos anteriores, mesmo ao “Budapeste” que já encantou muitos amigos, mas que li empurrando com a barriga…

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