Documentários: a teoria do Chokito

Os números falam muito, mas será que dizem tudo?

Minha amiga Helena Sroulevich, pesquisadora do Laboratório do Audiovisual do Instituto de Economia da UFRJ – Núcleo de Economia do Entretenimento, enviou-me em primeira mão um estudo que acaba de fazer sobre a performance dos documentários brasileiros em salas de cinema desde a Retomada, ou seja, após 1995. As cifras são, à primeira vista, desanimadoras.

Cito seu trabalho textualmente: “Dos 666 filmes brasileiros lançados desde a Retomada, 178 correspondem a documentários; o que demonstra que pouco mais de ¼ de todos os filmes brasileiros (26,73%) são deste gênero. No que tange à audiência, documentários foram vistos por 2,52%, equivalente a 3.473.633 espectadores, em um total de 137.871.094 de público do cinema brasileiro.”

Ainda segundo o estudo, os docs representam, em média, 20% de todos os títulos brasileiros lançados em um determinado ano. Em 2009, essa participação chegou à marca de 40% dos títulos – a maior fração encontrada em toda a Retomada.

Trocando em miúdos: há muitos docs nas telas, mas pouquíssima gente para vê-los. 

Isso leva água para a fonte de quem acha que lugar de documentário é na televisão. Mas a TV no Brasil, com as clássicas exceções das TVs públicas e do Canal Brasil, se interessam muito menos pelo produto do que um exibidor como o Unibanco Arteplex. Por que, então, passar docs brasileiros no cinema?

Eu tenho uma resposta. É minha teoria do Chokito. Suponhamos que as lanchonetes dos cinemas vendam cerca de 10 Chokitos a cada 100 sacos de pipoca e 100 cafezinhos. Deve ser mais ou menos assim, não? Mas por que vendem Chokito? Ora, porque há quem goste. Não muitos, mas há. O Chokito já vem pronto, é mais simples de estocar e manusear, não ocupa muito espaço no balcão nem mão-de-obra. Então vale a pena ter Chokito para os poucos que o procuram.

Os docs são uma espécie de Chokito. Num trecho do seu estudo, Helena dá uma explicação que me ajuda:

“Como a maioria dos documentários é produzida em HD (high digital – baixo custo de captação/produção), seu destino de exibição é, prioritariamente, as salas do circuito Rain, que detêm projetores digitais não reconhecidos pelas majors e, portanto, não ocupados por títulos distribuídos por estas empresas. É um circuito com grande potencial de escoamento para a produção nacional em geral – detalhe que merece estudo mais aprofundado -, em que a variável público/ingresso tem menos influência na decisão do distribuidor (custos de cópias e marketing são infinitamente menores). Explica-se, portanto, porque documentários que representam em média 20% dos lançamentos brasileiros são viáveis nestas salas, mesmo representando pouco mais de 2,5 % do público frequentador.”

Ou seja, os docs não devem ser analisados na ponta do lápis das estatísticas. Eles são pontos fora da curva do mercado – ou, melhor dizendo, constituem um submercado à parte, onde as contas fecham em escala diferente. É fonte de prestígio para uma cadeia de cinema exibir o último doc do Lírio Ferreira, do João Moreira Salles ou do Sylvio Back, digamos. Existe um pequeno público para eles, que justifica uma sala, alguns horários. Como o Chokito.

Avançando em suas considerações, Helena Sroulevich examina os tipos de docs do período. Conclui que “dos 178 documentários, 19 (10,50%) são biográficos; 21 (11,60%) são musicais e 12 (6,63%) são esportivos; restando mais de 70% de documentários sobre assuntos ou episódios gerais da História e da Sociedade Brasileiras”. Já em relação à procura do público, constata que os números se alteram: “os documentários esportivos ficaram com mais de 25% dos espectadores; pouco mais de 20% assistiram a musicais; em torno de 17,5%,  biográficos; e os não categorizados refletem pouco mais de 35% do público”.

A partir desses dados, a pesquisadora infere que uma expansão do público de docs poderá se dar caso a produção “esteja mais sintonizada com os resultados de público dos subgêneros”. Ou seja, se produzirmos mais docs esportivos, musicais e biográficos, podemos esperar uma maior atenção dos espectadores de cinema.

Do ponto de vista mercadológico, isso pode ser verdade. Mas significaria um empobrecimento do doc autoral e uma concentração ainda maior nas formas convencionais que se confudem com a reportagem de televisão. Eu acho que o doc hoje é um campo privilegiado da invenção cinematográfica no Brasil, e como tal deve ser absorvido entre pipocas e cafezinhos.  

5 comentários sobre “Documentários: a teoria do Chokito

    • Fala Helena Sroulevich: “Devo publicar, primeiramente, no Instituto de Economia da UFRJ, como texto para discussão, e depois em outras publicações, como em outros textos que já escrevi.”

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