Cartas contra a dor

Englobado na onda de filmes espiritistas, o documentário As Cartas Psicografadas por Chico Xavier não tem o caráter espetacular de títulos como Chico Xavier, Nosso Lar ou mesmo o mais modesto Bezerra de Menezes. Ao contrário, é um filme franciscano em sua simplicidade de “cinema de conversa”. Uma câmera frontal “ouve” mães e pais que perderam seus filhos jovens e recorreram ao famoso médium para se comunicar com eles.

O doc de Cristiana Grumbach não tem tampouco o caráter de peça promocional da doutrina, como Bezerra de Menezes e Nosso Lar. Apesar do respeito com que a diretora interroga seus personagens, há nessa justaposição de cartas (a maioria lida pela voz de Cristiana) um efeito inquietante para quem não está inteiramente envolvido pela fé espírita. Por mais diversos que sejam os supostos remetentes, as cartas exibem um estilo semelhante, rebuscado, fazendo uso de um vocabulário mais ou menos regular. Dado ainda mais intrigante é a leitura de duas cartas praticamente idênticas de filhos artistas, uma no início, outra no final do filme, por duas mães diferentes. Depois de evocar Eduardo Coutinho (com quem trabalha regularmente) nos planos vazios – habitados por espíritos – de Santo Forte, subitamente Cristina parece citar Jogo de Cena.

Mas não se trata aqui de nenhuma travessura com verdade e representação. A semelhança das duas cartas – e, de certa forma, das cartas em geral – nos alerta para um certo caráter “industrial” da psicografia. Nada que perturbe a convicção dos crentes, já que a comunicação com os seres perdidos significa um paliativo para a dor da perda. Essa função de consolo, ainda que precário, fica clara na sucessão reiterativa de depoimentos. O simulacro de comunicação soa como grande upgrade perante o catolicismo, com seus “santos mudos” e as “conversas bobas” dos padres, como menciona uma das mães entrevistadas.

Não cabe aqui discutir a maior ou menor tendência à mitificação que está por trás do discurso dos convertidos. Isso é assunto para textos especializados. Mas é interessante notar as provas (documentais) frequentemente citadas como fatores de credibilidade. São principalmente as informações citadas nas cartas sem que Chico Xavier delas tivesse conhecimento. Essas evidências mobilizam a crença, tal como as “provas” comumente exibidas pelos documentários levam o público a crer no que vê.

As Cartas Psicografadas por Chico Xavier não promove nem investiga o fenômeno. Limita-se a recolher relatos e exibir manuscritos como se meramente expusesse sua pesquisa. Sem personagens carismáticos nem revelações mais contundentes, pode ser um bálsamo para alguns espectadores e uma experiência maçante para outros.   

Update: Comentário de Cristiana Grumbach, que destaco aqui para dar maior visibilidade:

“Caro Carlos Alberto,
escrevo para esclarecer que a carta lida no início do filme é a mesma do final, na voz de Maura, mãe de José Roberto. Não há nenhuma citação a Jogo de Cena, como você supôs. E, em Santo Forte, os vazios têm representação bem diversa da dos vazios de As cartas, justamente porque lá estes estavam preenchidos pelos seres invisíveis que habitavam as narrativas, em “As cartas…” não há ocupação, é vazio mesmo, ausência, perda.
Agradeço sua atenção.
com um grande abraço,
Cristiana”

2 comentários sobre “Cartas contra a dor

  1. Caro Carlos Alberto,
    escrevo para esclarecer que a carta lida no início do filme é a mesma do final, na voz de Maura, mãe de José Roberto. Não há nenhuma citação a Jogo de Cena, como você supôs. E, em Santo Forte, os vazios tem representação bem diversa da dos vazios de As cartas, justamente porque lá estes estavam preechidos pelos seres invisíveis que habitavam as narrativas, em “As cartas…” não há ocupação, é vazio mesmo, ausência, perda.
    Agradeço sua atenção.
    com um grande abraço,
    Cristiana

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