A porta giratória

Por mais que a crise americana de 2008 nos tenha afetado com a “marolinha”, e por mais que estejamos iniciados em swaps, subprimes, rating agencies, derivatives, Lehman Brothers & Cia., existe algo que nos escapa completamente em Trabalho Interno. É o potencial catártico de ver tantos vilões gaguejarem mais que Colin Firth em O Discurso do Rei. Ou ficarem a nu em seu cinismo diante da câmera e das perguntas incisivas de Charles Ferguson. Para os americanos que conviveram por tanto tempo com aquelas autoridades e megaexecutivos nos telejornais diários, o efeito é especialmente forte – e sem dúvida contribuiu para a estima crítica que leva Inside Job ao favoritismo no Oscar de melhor longa documentário.

As cenas de abertura sugerem o estilo de Oliver Stone: Wall Street goes pop. Mas não vai muito longe a impressão. Logo em seguida somos assoberbados por uma pletora de cabeças falantes, gráficos, fac-símiles de jornais e documentos, créditos de identificação – e ainda as legendas da tradução, muitas vezes impressas em branco sobre fundo branco, ou seja, null. É árdua a tarefa de ver Inside Job. Por vezes você vai sentir saudade dos alívios cômicos e da escala “humana” de Michael Moore. Mas Ferguson não quer entreter nem fazer cinema criativo. Cientista político, matemático e especialista em tecnologia da informação, tendo prestado consultoria à Casa Branca e a empresas como Apple, Xerox e Motorola, sua carreira no cinema começou em 2008 com No End in Sight, doc sobre o envolvimento dos EUA na guerra do Iraque. Seus dois filmes, portanto, são dossiês destinados a “fechar” capítulos da história americana. Por isso são pesados, sóbrios e detalhistas.

Trabalho Interno tem uma pegada didática. Pretende explicar as raízes da crise, lá no governo Reagan, e a rede de interesses que se armou ao longo dos governos Clinton e Bush, unindo o sistema financeiro com as esferas governamentais. A escalada da especulação, a bolha dos empréstimos imobiliários, o jogo das grandes corporações financeiras com o dinheiro dos clientes, o enriquecimento estapafúrdio dos altos executivos, tudo é dissecado em flashes, falas editadas no essencial e pequenos blocos de narração. Mas acompanhar o ritmo das informações e a trama das relações é um desafio para o espectador que desconheça os personagens e o idioma economês. Ferguson não facilita as coisas em prejuízo da fidelidade aos pormenores.

Os personagens são muitos – e muito mais seriam se todos os figurões tivessem concordado em dar entrevista para o filme. A sucessão de cartelas informando quem não topou participar funciona como acusações implícitas: quem se omite tem culpa no cartório. Na virtual impossibilidade de seguir o fluxo de tantas acusações e defesas vacilantes, resta-nos aceitar a argumentação indignada do diretor e sua câmera-dedo apontada para os vilões. No fundo, é mais uma questão de confiar no cineasta que de entender e posicionar-se.

Boa parte dos fatos já haviam sido abordados, com igual apetite e um pouco menos de aridez, em Capitalismo: uma História de Amor, de Michael Moore. Mas há pelo menos dois pontos de vantagem para Ferguson. Um deles é a inclusão da academia na rede de falsificações e consultorias forjadas. Segundo o filme, professores das universidades de Harvard e Columbia contribuíram decisivamente para sustentar as mistificações da bolha e o status quo do neoliberalismo predatório. O outro ponto é a decepção com o governo Obama, que não implementou as reformas prometidas e cedeu cargos públicos às velhas raposas do sistema anterior. A nota de esperança que encerrou vários docs americanos recentes, o de Moore inclusive, é severamente desmentida em Trabalho Interno. Houve mesmo quem interpretasse a narração de Matt Damon (um eleitor Democrata) como um sinal de que Hollywood estaria abandonando Obama.   

A boa causa e o caráter direto do filme não lhe garantem, porém, uma qualidade cinematográfica distintiva. A retórica de Ferguson baseia-se em falas, dados e imagens-padrão de reportagens sobre corporações. Planos aéreos de Nova York indicam a amplitude da abordagem, torres simbolizam poder e cobiça, fachadas envidraçadas sugerem impessoalidade. E ainda um elemento dramático que se impõe a cada dez minutos: a porta giratória. Ela representa o movimento contínuo, a roda da fortuna que acolhe como expulsa, o equipamento que engole e expele seres humanos das entranhas do dragão financeiro. Tudo bem. Mas depois da quinta ou sexta porta giratória, você começa a achar que sobra razão mas falta cinema em Inside Job.         

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