Tabu

Festival do Rio

Projeções cinematográficas

Tabu e Aurora são nomes que inevitavelmente remetem a Murnau, paradigma de aventura e romance no cinema dos primórdios. Tabu, o novo filme de Miguel Gomes, trabalha com esses códigos numa chave de paródia para tratar da nostalgia colonialista portuguesa. O filme, premiado pela inovação em Berlim, estrutura-se em três partes: um prólogo de velho filme de aventura na África, uma primeira parte (“O Paraíso Perdido”) transcorrida em Lisboa e uma terceira (“O Paraíso”) passada nos anos 60 na Moçambique colonial.

A maneira como essas três partes se articulam é uma das muitas ousadias de Miguel Gomes (Aquele Querido Mês de Agosto). Até certo ponto o prólogo e a terceira parte são meras projeções “cinematográficas” de memórias e sonhos dos personagens da primeira parte. Daí seu aspecto retrô de cinema mudo com ruídos e música assincrônicos, uma espécie de delírio de cineasta fantasioso.

Em Lisboa, a velha senhora Aurora vive às turras com sua empregada caboverdiana e aos cochichos com sua vizinha solitária e engajada em lutas sociais. Quando Aurora morre, surge um homem “liró” (“meio lelé”, segundo a tradução) para contar a história da sua juventude, quando Aurora tinha “uma fazenda em África”, ao pé do fictício Monte Tabu. Estamos, portanto, no terreno do imponderável, algo que o cinema português sabe fazer com maestria.

Além de todas as qualidades do filme (belíssima fotografia em preto e branco, narrativas sonora e visual independentes, aprimorada consciência de estilo), é preciso reconhecer que o espectador brasileiro tem uma percepção única desse tipo de filme português. Ao mesmo tempo que podemos degustar a beleza literária das abundantes narrações, podemos também nos divertir com os usos verbais e as entonações lusitanas. O que pode soar costumeiro para os portugueses e passar desapercebido pelos estrangeiros é para nós um deleite singular. Os disparates dos personagens (eles mesmos assim os classificam) soam ainda mais disparatados aos nossos ouvidos.

No caso de Tabu, tudo isso contribui para uma experiência deliciosa. Mesmo que não atinemos para todo o subtexto desse paraíso colonial povoado por burgueses de pacotilha, crocodilos simbólicos e negros de olhares compridos numa África que estava prestes a virar memória ou delírio.

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