Pílulas 21

A CAÇA causa forte impressão pela sobriedade do estilo e a aparente complexidade de seu estudo de comportamento social. Aquela comunidade é uma das tantas dominadas pela paranoia do abuso sexual de menores, a ponto de transformar qualquer fagulha casual num incêndio de grandes proporções. A luxúria do linchamento é proporcional à suposta luxúria do suposto abusador, bastando para isso um rastilho de suspeita que destrave o irracionalismo coletivo. A partir de certo ponto, nem a menina é mais capaz de desmentir-se, pois a fantasia acusatória já se alastrou irremediavelmente. Mas o roteiro do filme me pareceu cheio de buracos. A passividade agressiva do acusado é inconvincente. Como educador ele poderia desarmar a farsa relatando um evidente caso de paixão infantil não correspondida. Tudo bem que as pessoas não acreditassem nele, mas ele teria pelo menos que tentar. Não o fazendo, “facilita” demais a tese do filme. A ausência de qualquer esforço dos parentes adultos para investigar a sério e argumentar a seu favor também causa estranheza. Ou seja, o filme me pareceu falsamente complexo. O roteiro inclui pequenas falsificações como a de Klara. E tem mais: qualquer psicólogo conta com a possbilidade da mentira infantil. A crença monolítica em que criança não mente soa um tanto grosseira, portanto.

Há um notável empenho naturalista em A BUSCA, do qual Wagner Moura é a chave-mestra. E um roteiro que o sabota completamente. Como engolir todas aquelas coincidências que levam o pai ao filho quase como num caminho de tijolos amarelos? Como acreditar que as pistas do sítio e do Espírito Santo não indicassem o destino logo no início? Mas o que mais me incomodou foi o caráter meio apátrida do filme. Quase nada ali corresponde à realidade brasileira. Tudo parece formatado como um filme independente americano – locações, personagens, a mitologia do cavalo, e principalmente a maneira como tudo isso é apresentado. Uma sequência numa favela paulista parece ter sido filmada por um norueguês de primeira viagem. As cenas da rave parecem saídas de um comercial globalizado. Não por acaso, o filme estreou mundialmente em Sundance, para onde deve ter sido mesmo gestado. Não vai nenhuma xenofobia nesse comentário, mas o questionamento de um modelo.

Longas vistos na Mostra do Filme Livre 

AUGUSTAS, de Francisco Cesar Filho, passou em sessão de homenagem ao Carlão Reichenbach na Mostra do Filme Livre. Chiquinho abre seu filme com o curta inteiro ESSA RUA TÃO AUGUSTA, feito pelo Carlão em 1969, um institucional anarquizado. Depois entra com sua ficção em que mistura influências reichenbáchicas com o livro do Alex Antunes e traços do Mario Bortolotto, seu protagonista. Em torno da Rua Augusta, um personagem à deriva se relaciona com diversas mulheres. Juntas elas compõem uma mítica Lilith, noturna, sensual e dominadora de homens. O roteiro é bem bagunçado, algumas falas soam meio pueris, o ritmo às vezes se esgarça um pouco. Mas o entendimento entre diretor e atores garante uma atmosfera estimulante, um sabor paulistano que fica bem ali entre a vida crua e a performance flambada no rock dos anos 80. Caroline Abras, essa menina-fenômeno, agarra nossa atenção com unhas e dentes. Entre putinha e mulher-mito, ela mostra que é mesmo uma camaleoa.

Marcelo Ikeda exibiu ENTRE MIM E ELES na Mostra do Filme Livre. Na manhã do dia seguinte o filme já estava disponível no site Making Off. É cinema de garagem pra ninguém botar defeito. Ikeda faz um “making” de OS MONSTROS. Ou seja, não tem o “of”. Ao registrar as filmagens, ele não estava interessado na cena em preparação, mas na preparação da cena. A câmera dele estava voltada para os Pretti-Parente, em seu trabalho de dirigir, atuar e tocar a vida ao mesmo tempo, sem muita distinção entre uma coisa e outra. Daí que há planos lindos, que expressam o “barato” dos caras com o fazer cinema; e também momentos em que não parece haver razão visível para se olhar por tanto tempo para a tela. No prólogo e no epílogo, o geralmente silencioso Ikeda faz mais um de seus filmes-carta, entre seu banheiro e a beira do mar de Fortaleza. É sua maneira de assinar um filme sobre outros que no fundo é sobre ele mesmo, ainda uma vez.  Mar 2013

A FLORESTA DE JONATHAS, exibido na Mostra do Filme Livre, é talvez a mais incisiva e bem-sucedida “aclimatação” do hiperinfluente estilo de Apichatpong Weerasethakul à paisagem brasileira. Sérgio Andrade adapta bem os tempos agonizantes, o laconismo dos personagens e o misto de sensualidade e esoterismo do tailandês a uma mitopoética amazônica, apoiado numa fotografia e numa edição de som cheias de personalidade. Não é um filme que compra barato a atenção do espectador. Exige disponibilidade de imersão para fazer ecoar a história de um jovem vendedor de frutas que encontra o anjo da morte na figura de uma turista ucraniana. Talvez seja um pouco “quero ser Apichatpong” demais, mas a coesão de todos os elementos acaba convecendo de que ali tem um filme, e não apenas uma curiosidade estilísitica dentro do cinema brasileiro. 

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