Uma grande viagem pela África

"Congo em Quatro Atos"

“Congo em Quatro Atos”

Quando foi que você viu o último longa-metragem africano? Dificilmente terá sido no circuito comercial ou na TV. Possivelmente, foi na Mostra África Hoje, exibida no Rio, São Paulo e Porto Alegre no ano passado. A mostra chega agora ao Canal Brasil com 13 documentários vindos de 10 países africanos. A curadoria é de Mariana Marinho e Luciana Hees.

A programação se inicia amanhã à 0h15 (de terça para quarta), com Congo em Quatro Atos”, um painel dramático da vida na República Democrática do Congo, ex-Congo Belga e ex-Zaire. O filme reúne quatro curtas de diferentes diretores, enfocando aspectos como mães miseráveis que viram reféns de maternidades, a exploração de trabalho infantil em minas de diamante, uma delegacia de mulheres no interior do país e o caos urbano da capital, Kinshasa.

Eu escrevi os textos de apresentação da mostra, ditos por Zezé Motta antes de cada filme. Na sessão de gravação, Zezé comentava: “Quase não tem espaço pra sorrir nessas falas”. De fato, a maioria dos docs retrata situações difíceis, que envolvem maus tratos a mulheres, pobreza, conflitos bélicos e segregações sociais por diversos motivos. As Bruxas de Gambaga, por exemplo, revela uma aldeia de Gana que acolhe mulheres acusadas de bruxaria.

Mas há também histórias de outra natureza, como a crônica coral de Luanda, a capital angolana, colhida pelos diretores Ondjaki (o escritor residente no Brasil) e Kiluanje Liberdade no razoavelmente conhecido Oxalá Cresçam Pitangas. Eles usam a câmera para colher impressões sobre a cidade e também para flagrar seu cotidiano nas ruas de periferia, nas casas, salas de aula, quadras de esporte e apresentações de kuduro, o fenômeno musical que nasceu em Angola. Outro filme de exceção na mostra é Doce Vida Africana, delicioso perfil de um famoso fotógrafo da alta sociedade do Máli. E ainda o trabalho da coreógrafa contemporânea Ana Clara Guerra Marques em Angola, retratado em Outras Frases.

Destaques incontornáveis são os três filmes de Kim Longinotto, a premiada documentarista inglesa. Em Sisters in Law, ela aborda o trabalho de uma associação de advogadas em Camarões, empenhadas em defender esposas agredidas ou forçadas ao sexo por maridos brutais, meninas estupradas ou maltratadas por parentes, mulheres vendidas pelos pais a homens que não amam. O Dia que Eu Nunca Esquecerei trata da prática da mutilação genital no Quênia. Já em Rough Aunties (algo como Tias Duronas), Kim nos apresenta um grupo de mulheres dispostas a tudo para proteger as crianças vítimas de todo tipo de abuso em Durban, África do Sul. 

É sul-africano também um dos mais curiosos docs da mostra: Dias de Sea Point conta com poucas falas, muita observação do cotidiano, senso de humor e de oportunidade para deixar entrever a mescla de aceitação e rejeição que ainda prevalece entre brancos, negros e mulatos num bairro chique da Cidade do Cabo.

Vale ainda ressaltar o impacto emocional de Tarrafal – Memórias do Campo da Morte Lenta (foto acima), que reúne depoimentos de velhos revolucionários que estiveram presos na colônia penal de Tarrafal, em Cabo Verde. Para ali a metrópole portuguesa enviava os mais perigosos opositores do regime em todas as suas colônias durante os anos da ditadura salazarista. 

Por fim, a história da luta de libertação da Guiné-Bissau é contada através de depoimentos de ex-combatentes dos dois lados, além de excelente material de arquivo, em As Duas Faces da Guerra, dirigido a quatro mãos pela portuguesa Diana Andringa e por Flora Gomes, cineasta pioneiro da Guiné.

Veja abaixo a programação da mostra no Canal Brasil, sempre às terças à meia-noite e quinze:

2/4 – Congo em Quatro Atos, de Divita Wa Lusala, Kiripi Katembo Siku e Dieudo Hamadi (R.D.Congo)
9/4 – Dança aos Espíritos, de Ricardo Íscar (Camarões)
16/4 – Doce Vida Africana, de Cosima Spender (Máli)
23/4 – Outras Frases, de Jorge Antonio (Angola)
30/4 – Dias de Sea Point, de François Verster (África do Sul)
7/5 – 
Tarrafal – Memórias do Campo da Morte Lenta, de Diana Andringa (Cabo Verde)
14/5 – O Dia que Eu Nunca Esquecerei, de Kim Longinotto (Quênia)
21/5 – As Bruxas de Gambaga, de Yaba Badoe (Gana)
28/5 – Onde a Água Encontra o Céu, de David Eberts (Zâmbia)

Ainda não foi definida a ordem de exibição dos seguintes títulos:
Oxalá Cresçam Pitangas, de Ondjaki e Kiluanje Liberdade (Angola)

Rough Aunties, de Kim Longinotto (África do Sul)
Sisters in Law, de Kim Longinotto (Camarões)
Dias de Sea Point, de François Verster (África do Sul)
As Duas Faces da Guerra, de Diana Andringa e Flora Gomes (Guiné)

Leia mais aqui sobre os filmes de abril.

2 comentários sobre “Uma grande viagem pela África

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