Pílulas 31

“Fizeram mais um filme sobre Macalé?”, pergunta-me alguém no Facebook. Sim e não. JARDS não é mais um filme sobre Macalé, e sim um ensaio a partir de coisas que a música e o jeitão de Macalé sugerem à sensibilidade artística de Eryk Rocha. JARDS faz a gente perceber como a música nasce do quase-nada. As imagens dançam no foco doce da câmera de Miguel Vassy como se flagrassem a gênese das canções, o antes delas. Macalé está lá como figura diáfana, aparecendo e sumindo nos estouros de luz e na dissolução dos contornos. Isso só faz jus à presença sempre fugidia do compositor na música brasileira, sua maneira de sair inesperadamente do silêncio e de uma aparente inércia para os solavancos do blues. Os closes intensos no estúdio jogam na nossa cara a visceralidade do canto de Jards, coadjuvado às vezes por Adriana Calcanhotto, Luís Melodia, Thais Gulin, Ava Rocha, Victor Biglione, Roberto Frejat, Elton Medeiros e outros. JARDS não conta nada “sobre” Jards. Interessa a quem quiser vê-lo no seu mais puro elemento, flagrado em “cinema direto” por um realizador a quem a poesia diz mais que a informação. Resultado: um prazer audiovisual ininterrupto, em que cabe destacar também o som direto de Renato Vallone e o desenho sonoro de Edson Secco. Sessões únicas diárias às 22h no Espaço Itaú Rio, com entrada grátis modo “passe livre”. Corra porque periga ficar só até quinta.

A ESPUMA DOS DIAS é uma apropriação hostil do surrealismo de Boris Vian pela estética bric-à-brac de Michel Gondry. Na história desse rapaz que se apaixona por uma moça que tem um nenúfar no pulmão, meclam-se todo o tempo animação, ação ao vivo e retroprojeções. Muitas vezes são os corpos dos atores e as leis da física que se distorcem. No início, a gente até fica impactado pelos efeitos e a velocidade com que tudo acontece naquele mundo de pura cenografia e virtualidade. Mas o filme se estende (125 minutos) muito além do que o material suporta, tornando-se repetitivo e estéril. Mais que isso, o tempero melancólico da história original de Vian se perde no acúmulo de tiques infantiloides e não chega a ser resgatado no súbito humor negro das cenas finais. Não faltam referências ao universo do escritor/músico francês, como a música de Duke Ellington (vivido por Kid Creole) e a amizade com Sartre, aqui satirizado como Jean-Sol Partre. Gondry é uma usina de ideias, mas que, como os shows de luz e som, não passam da superfície nem imprimem algo que dure pelo resto do dia. Espuma de cinema.  

Minhas expectativas eram baixas em relação a O FILHO DO OUTRO, mas acabei me surpreendendo com uma história muito bem contada. Uma troca de bebês na maternidade serve de mote para um estudo de sentimentos e convicções entre judeus e palestinos. O filme de Lorraine Levy se vale de algumas ingenuidades aqui, algum esquematismo ali, mas tudo isso é superado por uma grande sensibilidade na condução dessa “troca” de identidades, em que cada lado não renuncia ao que era antes. Eis uma forma bem resolvida de tratar assunto delicado por um ângulo que, se não é original, rende ótimas observações sobre o choque de culturas entre judeus e palestinos. O uso expressivo das locações, o desenho coerente dos personagens e uma simplicidade bem eficaz tornam o filme mais sólido e emocionante a cada nova sequência. Um momento em particular, que coincide com outro do brasileiro O QUE SE MOVE, é particularmente comovente. 

Não me entendi muito bem com A MEMÓRIA QUE ME CONTAM. Não acho que Lucia Murat tenha conseguido ir além de uma ruminação previsível e um pouco melosa sobre os ecos da luta armada. O recurso de corporificar Ana como representação da memória diferenciada de cada um é, em tese, um bom achado. Mas a personagem monocórdica de Simone Spoladore falha em passar a fagulha do mito que Ana teria representado. Restam, então, os discursos, as discussões um tanto batidas sobre se valeu a pena, se a esquerda também errou, se o poder de hoje corrompe os heróis de ontem, etc. Um certo ar de canastrice impregna muitas falas, apesar das boas atuações dos atores. O problema é que cada cena parece concebida para passar um recado, seja sobre os dilemas do passado, seja sobre a nova liberalidade e a relativa indiferença política dos tempos atuais. Lúcia avança um pouco mais na personalização de um tema que lhe é caro, mas às vezes deixa a impressão de que falta justamente  um certo distanciamento para lidar com algo tão próximo.    

RHINO SEASON (Temporada de Rinocerontes), inédito nos cinemas brasileiros mas figurinha fácil na baixaria da internet, é mais um grande filme iraniano. Bahman Ghobadi é o diretor do também ótimo TARTARUGAS PODEM VOAR – e numa cena desse novo filme ele confirma sua obsessão com essa possibilidade. No centro da história está um poeta curdo-iraniano (inspirado em personagem real) que ganha liberdade após 30 anos de prisão e, dado como morto há mais de 20, sai à procura da mulher (Monica Bellucci). Ela vive agora em Istambul e tem uma profissão misteriosa. Gobadi narra esse possível reencontro com uma parcimônia dramatúrgica admirável, mas também com um grande apetite poético para quebrar a realidade em dois tempos e em reflexos abundantes que exprimem os ecos de memória e as lacunas de conhecimento de Sehel, o poeta. Uma segunda história de amor, igualmente dolorida, tangencia a de Sehel, insinuando-se na ruptura política da revolução islâmica, em 1979, e fazendo com que o filme alcance um registro emocional poderoso. Às vezes fica a impressão de um rebuscamento narrativo exagerado para a simplicidade da história, mas a beleza ininterrupta das imagens acaba compensando essa tendência ao efeito. Uma curiosidade: o ator protagonista, Behrouz Vossoughi, é radicado nos EUA, onde costuma fazer papéis de terrorista.

2 comentários sobre “Pílulas 31

  1. Macalé.o JARDS pode ser visto no cinema como ator de Nelson Pereira em Tenda dos Milagres e outros que filmes não me lembro. Minha contribuição para o des memoriado Cinema Brasileiro. Fiquei curioso, mas o Jards jamais passará em Montes Claros, ainda mais que só está em uma sala aí no SulMaravilha! Lastimo.

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