Pílulas 35

Meu problema com as comédias brasileiras se agrava agora por causa de VENDO OU ALUGO. O filme ganhou quase tudo no Cine PE, foi razoavelmente elogiado por críticos a quem respeito e chega aos cinemas como mais uma tentativa de fazer comédia popular de qualidade entre nós. E o que encontro? Uma chanchadinha de costumes bastante careta, calcada nas ideias mais gastas de humor urbano e sem imaginação para desenvolver as poucas situações mais promissoras. O cenário atual do Rio fornece os previsíveis clichês de UPP, valorização da favela e convivência entre a classe média e a “gente ruim” do tráfico. Nada contra o clichê bem usado, mas convenhamos que senhorinhas comendo doces eróticos e todo mundo caindo na gandaia por causa de bolo de maconha não rendem mais do que um tédio profundo. Para fazer comédia não basta que os atores digam qualquer coisa em “tom de comédia”. Aliás, o “tom de comédia” não existe nas melhores comédias, onde é a espirituosidade das falas e situações que faz a graça. Acho que Betse de Paula já foi bem melhor em filmes  como CELESTE E ESTRELA e mesmo O CASAMENTO DE LOUISE. Seu senso de oportunidade se mostra novamente afiado, mas o aproveitamento aqui me pareceu aquém das expectativas mais básicas.

DEIXE A LUZ ACESA tem uma deficiência comum em filmes que procuram “naturalizar” a relação gay. Pontuando cenas de uma união de oito anos, o filme de Ira Sachs acaba por tornar tudo tão corriqueiro que logo perde o interesse. Anotei apenas uma sequência memorável: quando Erik apoia seu namorado enquanto este transa com um garoto de programa. De resto, são ciúmes, drogas e desentendimentos se alternando com momentos de uma harmonia familiar e social quase idealizada. Contenção e sobriedade fazem bem a qualquer drama conjugal, mas uma curva dramática interessante também contribui muito. E falta isso ao roteiro do brasileiro Mauricio Zacharias. Na lista de agradecimentos consta o nome de Karim Aïnouz.

Saí como entrei no cinema: sem saber qual a proposta de NA QUADRADA DAS ÁGUAS PERDIDAS. “Vidas Secas” desdramatizado? Manual de sobrevivência no agreste? Catalogação de fauna e flora da caatinga? Sinais de chuva metafísica no semi-árido? Filme-performance para mais uma composição de Matheus Nachtergaele? Videoclipão de instrumental nordestino? É um pouco de tudo isso e ao mesmo tempo não é nada. Apesar do talento do ator, a ideia de colocá-lo em sintonia com a rudeza do cenário gera um artificialismo atroz, uma impressão de que ele está sempre posando para a câmera e tentando disfarçar a pose em macetes de atuação naturalista. A caminhada do nada para o nada, num sertão meio simbólico onde reinam os animais e quase não há vestígios humanos, instala apenas um grande vazio. Entre lajedos, lagartos e lágrimas, o filme me pareceu um ensaio fora do tempo, fora de todo sentido. 

Já está disponível o novo doc média-metragem de Werner Herzog para uma campanha contra o hábito de digitar mensagens de texto enquanto se dirige. Herzog mostra cinco casos, enfocando principalmente os sentimentos envolvidos: perda, sofrimento, remorso e perdão. FROM ONE SECOND TO THE NEXT é bem básico, calcado em depoimentos doloridos e emocionados. O detalhe mais “herzoguiano” é revelar as frases que alguns motoristas estavam digitando quando causaram os acidentes. O filme está Youtube com legendas (captions) que podem ser traduzidas para o português. A tradução tem muitas falhas, mas ajuda a quem não domina o inglês do interior dos EUA.

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