Mandioca sobrenatural

Ex caos 2

Só agora assisti a O Exercício do Caos, filme maranhense lançado no Rio no ano passado. Fiquei muito bem impressionado com o trabalho (direção, roteiro, fotografia e produção) de Frederico Machado, dono de uma das mais cultas distribuidoras de filmes e DVDs do país, a Lume Filmes.

Não conheço a ópera O Anjo de Fogo, de Prokofiev, na qual Frederico diz ter baseado seu argumento. A sinopse da ópera não sugere grandes semelhanças além de um difuso tom fantástico que perpassa o filme. O que vejo é uma densa e ao mesmo tempo sutil história de sexo, morte e poder entre quatro personagens isolados numa lavoura de mandioca. Em torno de três jovens irmãs gravitam o pai delas (Auro Juriciê, numa performance sóbria e impecável) e um capataz que parece deter os segredos de todos. Além deles, há o espectro da mãe desaparecida (morta?), que faz aparições ocasionais e desfia o tecido temporal da história.

O filme é dominado pelo ciclo do cotidiano, seja no trabalho ou nas tarefas domésticas. O pai lamenta o sumiço da mulher, tempos atrás, no encalço de um certo “homem de branco”. A filha do meio vê o despontar da sexualidade, enquanto a mais velha já vive a sua de maneira pouco ortodoxa. O capataz pressiona o pai lavrador em nome dos interesses do misterioso patrão. Duas camadas de significação se colocam para o espectador. Numa, as relações de poder econômico e familiar, encarnadas nos corpos, no suor e na sensualidade. Na outra, mais profunda e menos visível, insinua-se um subtexto de fábula sobrenatural, em que a natureza tem papel importante.

Ex caos 3

O rigor minimalista, ao mesmo tempo físico e espiritualizado, de Frederico Machado remete tanto a Robert Bresson, a quem o filme é dedicado, quanto ao Leon Hirszman de São Bernardo. Não faltam ecos também de A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., embora talvez involuntários. Isso entre várias outras referências possíveis de um realizador que parece ser também um cinéfilo devotado. Mas o que se destaca é mesmo a segurança com que Frederico desenha seus personagens e constrói suas atmosferas. Ele se vale de uma luz rembrandtiana, no limite do virtuosismo, de uma trilha sonora corajosamente impositiva (que inclui Alfred Schnittke e Béla Bartók) e do poder de sugestão dos seus belíssimos enquadramentos. O silêncio determina a tensão entre os personagens, cabendo registrar que a primeira fala (do pai) só chega aos 12 minutos de projeção e a primeira de uma das filhas aos 35 minutos.

De mansinho, quase sem ser percebido quando de sua discreta passagem pelas salas de exibição, O Exercício do Caos mostrou um autor de pulso firme e ousadia estética. O DVD do filme sai ainda este ano. Frederico Machado está montando O Signo das Tetas,  segundo longa de uma pretendida trilogia que finalizará com As Órbitas das Águas. De minha parte, já estou no modo espera.

Um comentário sobre “Mandioca sobrenatural

  1. Carlos,

    Este foi mais um filme muito bom que o pessoal do Estação já lança jogando-o na sala mínima que é o Botafogo 2, em um só horário. Mesmo assim, motivado por crítica bastante elogiosa de José Geraldo Couto em seu Blog do IMS, fui correndo assistir, pois antevia uma carreira meteórica quando é lançado/jogado assim em cinemas.

    Com seu texto agora, o filme me veio todo na cabeça. Mas acredito que mesmo com várias revisões, o filme tem camadas de mistério que não serão entendidas. Isto não rebaixa ao filme. Muto pelo contrário. Mostra a sua grandeza.

    Não gosto nada de uma ideia que alguns lançam de que Robert Bresson, seja um cineasta exemplar e quase que único, para se ter como inspiração. Existem grandes cineastas como Fellini, Buñuel, Bergman, Kubrick etc…gênios do Cinema, cujas obras não tem nada de bressoniana.

    “O Exercício do Caos” lembra-me mesmo Bresson, pela “perfeição” e rigor dos enquadramentos, os longos silêncios, atores pouco ou nada conhecidos etc. O diretor é discípulo. O que não gosto é da ideia que muitos querem nos passar que depois de Bresson, todos tem de “rezar sobre sua cartilha”. Exagero total. No DVD do extraordinário “Pickpocket-O Batedor de Carteiras”, com textos muito bons, comprado em coleção de banca de jornal, Eric Rohmer, diz que a partir de Bresson o Cinema nunca mais seria o mesmo, onde só haveria palavras quando as imagens não pudessem ter equivalências. Mas nem Rohmer é bressoniano. Como se fala em seus filmes! Mais que nos dele, só em Woody Allen, que angaria detratores por isso, como Karim Aïnouz .

    Enfim, gosto muito de ” O Exercício do Caos”, mas não gosto nada da ideia de que Robert Bresson seja um Deus do Cinema como Susan Sontag , por exemplo. Isto me parece fanatismo. Mas não posso “jogar pedras”….. Tenho como Deus do Cinema, de longe, mas de longe mesmo, Ingmar Bergman.

    Abs,
    Nelson

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