Semana dos Realizadores, vol. 1

Os longas “de terror” de Juliana Rojas e Marco Dutra (“Trabalhar Cansa” e “Quando Eu Era Vivo”) não me satisfizeram por conta de uma contradição entre o tema fantástico, supostamente inquietante, e a encenação distanciada e monocórdica. A linguagem, a meu ver, ficava sempre aquém das intenções. Para minha surpresa, essas limitações se tornaram virtudes em SINFONIA DA NECRÓPOLE. O antinaturalismo encontra um material adequado para funcionar não mais como travamento, mas como gerador de ironia e humor. Já desde o título, o filme de Juliana se propõe como paródia (das Sinfonias da Metrópole). Se a história começa num clima de filme dos Trapalhões, logo o irrompimento do primeiro samba entre os coveiros vai abrir o cortejo de uma sátira ao universo funerário, empreendimento tanto ingênuo quanto engenhoso. Um musical passado entre túmulos e caixões, uma espécie de Jacques Demy dos umbrais. E é assim que a comédia vai se firmando cena após cena, entre o tosco e o absurdo, entre a canastrice e a ideia brilhante. No centro de tudo, o quase-romance entre um aprendiz de coveiro que não consegue “vestir a camisa” do seu ofício e uma aplicada especialista em verticalização de cemitérios. No pano de fundo, uma ousada e improvável combinação de três gêneros – o musical, a comédia e o terror. A qualidade das canções de Juliana e Marco e a sagacidade cômica de algumas falas ou versos (“esse trabalho mexe com a gente”, “isso não é da nossa ossada”, “a pessoa é para o que morre”…) são trunfos de um filme que não para de crescer em hilaridade enquanto também adensa o caráter dos personagens. Visto na Semana dos Realizadores.

14223224COM OS PUNHOS CERRADOS é outra travessura dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti, mais o primo Pedro Diógenes. É o primeiro longa-manifesto do neo-anarquismo trendy. Ou o segundo, se incluirmos “Riocorrente”, de Paulo Sacramento, nessa mesma correnteza. Os três diretores-atores fazem um trio de jovens anarquistas que transmitem uma rádio pirata e saem às ruas com lenços no rosto para colocar cartas obscenas nas caixas de correio da alta burguesia de Fortaleza. O nome da capital cearense serve já de signo dos poderes do Capital e da Ordem, contra os quais os meninos se insurgem. O filme tem uma trama típica de policiais mainstream: um patriota direitista e religioso, daqueles bem caricatos, move uma perseguição aos anarquistas e contrata uma strip teaser para seduzi-los e traí-los. O resto é para saber vendo o filme. Em tom de suposta brincadeira, os Pretti-Parente na verdade falam sério sobre a necessidade de “quebrar o espelho” da democracia e superar o capitalismo à margem do Estado. Mas são lúcidos o suficiente para reconhecer a derrota desse ideário apenas negacionista. O vazio das dunas cearenses é o que lhes sobra depois que a guerra é perdida, restando-lhes somente uma voz clamando no deserto, um companheiro morto no caminho e uma bandeira negra empunhada contra o vento. A lembrança de “Terra em Transe” me parece inevitável. O filme inclui uma emocionada e magnetizante entrevista com o poeta e cineasta Uirá Reis (“Doce Amianto”), leitura de textos de Bakunin (não creditado), James Joyce, Artaud, Elie Faure e Oswald de Andrade, além de diversas canções de inspiração anarquista de variada procedência. Nisso tudo, concorde-se ou não com o teor do manifesto, ou mesmo com sua amarga conclusão, existe a energia cinematográfica sempre muito interessante dos filmes da Alumbramento. Tem sempre ali uma combinação de doçura e fúria, uma engenhosidade na construção das cenas e uma sinceridade de propósitos que não pode deixar de nos tocar.

foto_03022014084704Para mim um filme, melhor dizendo qualquer obra de arte, precisa ter sentido e/ou potência. Sem nenhum dos dois, está fadada ao fracasso. Não vi sentido nem potência em A VIZINHANÇA DO TIGRE, filme vencedor da última Mostra de Tiradentes e exibido agora na Semana dos Realizadores. Com aspirações a Pedro Costa em sua crônica do bairro de Fontainhas, Affonso Uchoa passou cinco anos filmando com jovens do bairro Nacional, periferia de Contagem (MG). Eles aparecem em conversas fiadas, brincadeiras, sessões de rap e pequenas atividades no limite da legalidade. Estão entre a ingenuidade pueril e o culto da violência de classe, entre o documentário passivo e o rascunho de ficção. Mostram marcas de bala e de facadas no corpo, apontam os dedos como armas uns para os outros, cantam ameaças ao mundo dos ricos, consomem drogas, enfim, tudo aquilo que já vimos em tantos filmes do gênero. A proposta de mostrar fatias de vida, valendo-se de uma especial disposição dos atores naturais para se soltarem diante da câmera, é o que mais tem agradado aos apreciadores do filme – e de fato diverte aqui e ali –, mas é também o que o esteriliza na observação impotente que se quer apenas solidária, acrítica, naïf. Além disso, os problemas de comunicação se avolumam pela má qualidade da captação de imagens (uma escuridão indiscernível apresentada como forma de realismo) e de som. Se não fossem as legendas em inglês na sessão da mostra, eu não teria entendido metade dos diálogos nem dos caracteres supostamente legíveis na tela. É preciso dizer, sem medo de soar careta, que o elogio do precário e a adesão populista à vizinhança do crime tornaram-se moeda corrente em certa faixa do cinema brasileiro.

Sobre HOMEM COMUM, de Carlos Nader, vencedor da competição nacional do último É Tudo Verdade, escrevi essa resenha na ocasião. Role a tela até aparecer o título do filme.

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