Zhang-ke em cópias novas

No próximo dia 3 de setembro entra em cartaz o documentário Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang, de Walter Salles. O filme, como se sabe, repassa a obra de Jia e o leva de volta aos cenários de sua infância e de vários de seus filmes.

Antes disso, porém, o público de São Paulo terá a oportunidade de ver ou rever três filmes do diretor chinês em cópias novas na Semana Jia Zhang-ke. Plataforma, inédito comercialmente no Brasil, se junta aos premiados Em Busca da Vida (Leão de Ouro em Veneza) e Um Toque de Pecado (prêmio de roteiro em Cannes). Em São Paulo, as exibições já começam hoje (quinta). No Rio, a partir de 5/9. Clique nas imagens abaixo para ver a programação nas duas cidades.

programação

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E fique atento à programação da Cinemateca do MAM-Rio, que vai exibir outros filmes de Zhang-ke em 12 e 13 de setembro.

Sobre cada um dos três filmes da Semana Jia Zhang-ke, transcrevo abaixo os textos que escrevi para o material de divulgação da mostra.

PLATAFORMA (Zhantai, 2000)

A década compreendida entre 1979 e 1989, repleta de mudanças estruturais na sociedade chinesa, é vista aqui através das aventuras de um pequeno grupo de teatro amador da cidade de Fenyang. Os quatro personagens principais são jovens ansiosos por amor e liberdade. De início, eles se submetem à cartilha dos espetáculos propagandísticos, compostos de coreografias militarizadas e enaltecimentos à figura de Mao Tsé-Tung. Com o passar do tempo e as reformas econômicas da era Deng Xiaoping, a troupe perde os subsídios e tem que se reinventar sob o signo da cultura pop.

A dimensão política do filme se manifesta sutilmente na vida das pessoas, na transformação de suas vestimentas, hábitos de consumo e referências culturais. A abertura da China para a cultura ocidental repercute internamente nas viagens do grupo por cidades próximas em busca de sobrevivência material e da sua arte. Entre uma e outra performance de música ou dança, testemunhamos situações envolvendo romance, aborto, diferenças de temperamento, desejo de evasão, alegria e desencanto. Ao mesmo tempo, a paisagem provinciana vai sendo modernizada de maneira brutal.

Este foi o segundo filme de Jia Zhang-ke, seguindo-se a Xiao Wu, mas foi o seu primeiro projeto, adiado por falta de condições para realizar. Plataforma estabeleceu todo um vocabulário de estilo do diretor, que incluía tomadas longas e distanciadas em planos-sequência; lentas panorâmicas laterais que descortinam aos poucos situações e espaços e valorizam o tempo real; atores naturais mesclados a profissionais e figurantes; preferência por cenários naturais a estúdios. A produção independente garantiu completa autonomia em relação às normas do cinema oficial chinês. Em contrapartida, o filme nunca teve um lançamento comercial na China.

Plataforma compõe com Xiao Wu e Prazeres Desconhecidos a chamada “Trilogia da Terra Natal” de Jia Zhang-ke. Aqui aparecem pela primeira vez a atriz Zhao Tao, futura esposa do diretor e que integraria o elenco de quase todos os seus filmes subsequentes, e Han Sanming, um primo de Jia que ele escalaria outras vezes no seu papel real de operário.

Para Walter Salles, Plataforma é “uma delicada e aguda meditação sobre o tempo, sobre desejos não realizados, sobre ideais que não se cumprem”. A um crítico do The New York Times o tema da caravana de atores que enfrenta a modernização suscitou uma aproximação com Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues.

EM BUSCA DA VIDA (Sanxia haoren, 2006)

Um homem e uma mulher, desconhecidos entre si, acorrem à velha cidade de Fengjie, às margens do Rio Yang-tsé. Ele (Han Sanming), um mineiro pobre do norte, procura a ex-mulher que não vê há 16 anos e a filha que ainda não conhece. Ela (Zhao Tao), uma enfermeira da mesma procedência, busca o marido que saiu de casa há dois anos. O lugar está passando por um frenesi de demolições para a construção da gigantesca barragem das Três Gargantas, sendo que parte da cidade já se encontra submersa.

Como efeito colateral desse icônico empreendimento da Nova China, encontramos miséria, exploração, desenraizamento e perda de heranças culturais. Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas em função das obras da represa. Os personagens do filme deambulam por um cenário insólito, quase de ficção científica, o que explica algumas vinhetas surrealistas enxertadas por Jia Zhang-ke no profundo realismo da história.

Em Busca da Vida sintetiza o grande extravio humano ocasionado pelas metamorfoses na geografia do país. Jean-Michel Frodon refere-se ao filme como “a melhor realização dessa tarefa sobre-humana dada ao cinema chinês: mostrar, sem complacência e sem simplismo, a colossal transformação que atravessa o país no início do século XXI”.

Um pouco antes dessas filmagens, Jia Zhang-ke realizou, em parte no mesmo cenário, o documentário Dong, centrado no pintor Liu Xiaodong, que viria a ser um dos produtores associados de Em Busca da Vida. Trata-se de filmes-irmãos que se complementam. Algumas tomadas dos trabalhos de demolição chegam a aparecer em ambos, sublinhando o cotidiano dos operários e a alienação do seu esforço em relação ao megaprojeto governamental.

O filme ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza e teve destacadas a personalidade do estilo de Zhang-ke e sua ternura para com os personagens. No Brasil, foi escolhido pelos críticos como melhor filme estrangeiro e melhor diretor estrangeiro do ano de 2006 no Festival de Filmes do SESC.

UM TOQUE DE PECADO (Tian zhu ding, 2013)

Quatro histórias, conectadas de maneira tênue, tratam de personagens que se rebelam contra a frustração de seus projetos de vida (amores, trabalhos, reivindicações) e assumem atitudes violentas contra corpos alheios ou os próprios. Uma recepcionista humilhada pelos clientes de uma sauna, um trabalhador inconformado com a corrupção do seu patrão, um desempregado convertido a ladrão e assassino impiedoso, um rapaz desiludido com o destino de sua amada – todos os episódios foram inspirados livremente em acontecimentos reais.

Pela primeira vez Jia Zhang-ke adota o padrão dos filmes de gênero, no caso os wuxiapian, filmes chineses de artes marciais. Mas não abandona suas preocupações centrais. Ao levar cada narrativa a um paroxismo meio irônico, ele quis deixar um comentário sobre o estado da violência na sociedade chinesa, que leva pessoas comuns a se tornarem justiceiras armadas. Com esse filme Zhang-ke continua sua busca por uma representação da China contemporânea entre os choques do capitalismo e uma herança maoísta que vai virando vestígio kitsch. Lá estão os cenários de transformação não concluída: galpões e plantas industriais como monstros inacabados, estradas sem alma, trânsitos sem sentido. O sangue explícito propõe uma imagem atualizada do país, reflexo de suas novas contradições e de um mal-estar típico da época.

No entender de Walter Salles, o que singulariza o ponto de vista do diretor é a sua recusa em julgar os personagens, mesmo envolvidos em situações extremas. “O cinema, para Jia Zhang-ke, não é um tribunal. Da mesma forma, seus personagens se recusam a ser mártires. São homens comuns, que às vezes resistem sem saber como”.

Um Toque de Pecado foi filmado em quatro cidades diferentes da China, mas Zhang-ke acrescentou um epílogo ambientado em sua Fenyang natal. O filme ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2013. A conciliação dos temas habituais do cineasta com o filme de gênero prosseguiria com seu longa mais recente, o drama romântico e familiar Mountains May Depart (2015).

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