Tags

O “Decameron” é uma obra-matriz do caráter italiano, com sua mistura do romântico e do picaresco, do cômico e do trágico, da crônica de época e da paródia de costumes. A adaptação escrita e dirigida por Paolo e Vittorio Taviani tem sido criticada por supostamente não contemplar o caráter subversivo do original, ao contrário do que fez, por exemplo, Pasolini na sua versão devassa de 1971. Mas MARAVILHOSO BOCCACCIO, se não chega perto das obras-primas dos fratelli, está longe de ser um mau momento na carreira deles.

Há, sim, um calcanhar de Aquiles no filme: a moldura narrativa, com um grupo de jovens que se afasta de Florença fugindo da peste e, para passar o tempo, narram histórias de amor uns para os outros ao mesmo tempo em que fazem uma greve de sexo. Essa espinha dorsal é frágil, um tanto confusa quanto às relações entre os personagens, visivelmente mal concebida. Fica a impressão, portanto, que os jovens contam melhor suas histórias do que os Taviani contam a história deles.

É nos seis contos-dentro-do-filme que residem a graça e o frescor de MARAVILHOSO BOCCACCIO. O amor desponta ora como força geradora de vida, ora como revolução contra a hipocrisia. Ou ainda como obsessão psicótica, ou razão de sacrifício. Não há nudez nem sexualidade explícita, mas nem por isso o filme deixa de ser fiel ao espírito satírico de Boccaccio, principalmente se considerarmos a moral medieval. Os valores da riqueza e da beleza são cortejados, mesmo quando se fala de amor e de ética. A impiedade não se disfarça sob a capa de uma pretensa bondade. A época era perversa e pervertida, o que fica patente por trás das imagens idílicas de uma Itália quase mítica. Talvez seja preciso ir além da aparência bem-comportada para sorver a ousadia desse Boccaccio.



Baseado, mas não decalcado, no livro “Mãos de Cavalo”, de Daniel Galera, PROVA DE CORAGEM lida com o difícil material do medo, das culpas e das decisões difíceis. Material que, por depender muito da interiorização, desafia cineastas tanto quanto a escalada árdua e a gravidez de risco desafiam os protagonistas desse filme. Hermano (Armando Babaioff) é um cirurgião e alpinista destemido que, diante da surpresa da paternidade, passa a sofrer vertigens psicossomáticas. Adriana (Mariana Ximenes), sua companheira, é uma jovem pintora que “amarela” diante do convite para uma Bienal, mas não hesita em levar adiante sua gestação. Essas cenas de um casamento da classe média gaúcha são assombradas ainda por fantasmas do passado de Hermano, que reaparecem na forma de uma namorada da adolescência.

Roberto Gervitz viaja entre os dois tempos ajudado pela esplêndida fotografia de Lauro Escorel e pela precisa direção de arte de Adrian Cooper, dois craques com quem ele está acostumado a trabalhar. Mas a viagem não é desprovida de contratempos. Em sua maior parte, o filme resulta frio, com diálogos que soam duros e monocórdicos como dublagem. A intenção de desdramatizar se choca com a natureza eminentemente melodramática das situações, o que gera a impressão de que o filme está o tempo todo tentando fugir do que ele de fato é.

A escalada, mote de algumas das melhores cenas, fornece as metáforas para a história humana que se desenrola na tela: que riscos na vida vale a pena enfrentar? Quando soltar a corda do outro é necessário para salvar um dos dois? Até que ponto olhar para trás (ou para baixo) inviabiliza o avanço na subida? O alpinismo era hobby e tema artístico da produtora Monica Schmiedt (1961-2016), que dirigiu o longa documental “Extremo Sul”. Seu trabalho em PROVA DE CORAGEM é digno de toda atenção, por mais que o filme não suba muito além da plataforma do convencional.



A ASSASSINA, primeiro filme wuxia (artes marciais) de Hou Hsiao-Hsien, é um thriller de ação contemplativo, por mais que esse conceitos soem contraditórios. A ação é mais mencionada do que vista e, quando acontece, é em cenas rápidas e curtas que parecem feitas apenas para cumprir o gênero. Na maior parte do tempo, HHH segue o seu figurino habitual: planos lentos, movimentos comedidos, um senso de composição virtuosista, imagens mediadas por cortinados transparentes e névoas.

A história, tão difícil de acompanhar que cada sinopse a conta de um jeito, se passa na China do século VII, quando o clã Weibo estava em conflito com a corte imperial. A personagem-título é uma moça sequestrada na infância e treinada como máquina de matar por uma monja taoísta. Agora ela deverá assassinar o homem a quem fora prometida, vivendo um conflito entre o dever e os sentimentos. Sempre que o filme ameaça se tornar um “Kill Bill”, a parcimônia do diretor se impõe e o ritmo se desacelera. Impera o esplendor visual das paisagens e dos interiores nobres, em que a figura humana desaparece dentro dos figurinos e se confunde com a cenografia.

Esse tipo de encenação de época funciona como um refúgio da frenética e pragmática China atual, evocando períodos mitológicos em que os senhores viviam um mundo formalmente perfeito em meio a rios de sangue. O prêmio de Cannes para a direção recompensou o esmero cênico de HHH, enquanto o de trilha sonora foi para a partitura discreta e minimalista de Lim Giong, o músico habitual de Jia Zhang-ke.



Passei os olhos rapidamente pelo que disse a crítica internacional sobre DE AMOR E TREVAS e encontrei sempre o mesmo tipo de apreciação que eu tive: um digno empenho de Natalie Portman em compreender e fazer compreender sua terra natal, mas limitado por uma série de problemas narrativos e falta de energia cênica. O livro autobiográfico de Amos Óz, passado durante sua infância na Palestina dos anos 1940 e na vida juvenil num kibbutz, tem como foco principal a sua mãe, uma burguesa romântica confinada à vida de esposa simplória em Jerusalém. O filme, por sua vez, concentra-se nos anos de 1945 a 1948, quando se dá a formação da consciência do pequeno Amos, ouvindo conversas dos adultos, parábolas da mãe e ensinamentos etimológicos do pai. Esse eixo interessante praticamente desaparece quando a doença da mãe passa a ocupar o centro de uma dramaturgia um tanto modorrenta.

Um dos aspectos mais bem sucedidos é a fantasia de Amos em salvar a mãe, cuja morte chegaria por overdose voluntária de remédios. Pelos olhos e ouvidos do menino, vemos sinais da crescente desconfiança entre árabes e judeus, a fundação do Estado de Israel e a guerra árabe-israelense de 1948. Os dados estão lá, mas apresentados de maneira burocrática, sem repercussões mais visíveis no âmbito dos personagens. O conflito ideológico entre Amos e o pai direitista tampouco merece qualquer espaço nessa adaptação. O recurso à narração por um Amos Óz idoso (desempenhado por um ator) não ajuda tampouco a criar uma conexão mais forte entre os pontos de vista do escritor e da cineasta. “Recordar é como restaurar um edifício com as pedras de sua ruína”, diz a voz do autor a certa altura. O filme honesto e esforçado de Natalie Portman, estreando por trás das câmeras, reuniu com carinho essas pedras, mas não contou com a argamassa necessária para botar o prédio em pé.