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Jean-Claude Bernardet, 80, trocou há mais ou menos dois anos os ofícios de crítico e professor pelo de ator. Um ator radical, disposto a investir sua debilidade física e saúde vulnerável em papéis que ponham em xeque os limites da atuação. Assim ele vai construindo uma espécie de laboratório de dramaturgia junto a realizadores de cinema e de teatro em São Paulo. Nesse período já contaram com ele os filmes “Periscópio” e “Filmefobia”, de Kiko Goifman, “Pingo d’Água”, de Taciano Valério, e “O Homem das Multidões”, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes.

Fome, de Cristiano Burlan, talvez seja sua experiência mais desafiadora nesse campo. Ele faz um ex-professor que virou sem-teto a vagar por ruas emblemáticas e terrenos baldios de São Paulo, empurrando com grande esforço um carrinho cheio de tralhas, deitando-se em escadaria de igreja ou em folhas de papelão, exibindo-se em semáforos. O filme é parte uma coreografia entre ator e cinegrafista – performance a céu aberto no meio do povo, em preto e branco, como nos tempos do Cinema Marginal – e parte uma discussão sobre cinema e miséria urbana.

O velho Joaquim (corruptela de Jean-Claude) tem diversas interações em seu deambular pela cidade. Cada uma desvela uma faceta da ação e da personalidade do próprio Bernardet. Ele dá uma entrevista fantasiosa a uma jovem estudante (Ana Carolina Marinho), que a partir dali vai questionar a postura do jornalista e documentarista diante do personagem carente; discute longamente com um ex-aluno (o crítico Francis Vogner dos Reis) sobre as (más) influências teóricas do professor a respeito do cinema brasileiro; confronta um casal que lhe oferece sobras de comida em tom arrogante; flerta com um cantor crossdresser; dança em roda de música de rua.

Jean-Claude tem interpretação magnífica, no limiar da autoimolação. Afora esse eixo principal, o filme oscila entre diversos registros, às vezes dentro de uma mesma cena. Não se trata mais de verificar limites entre ficção e documentário, mas de observar como a encenação e a improvisação livre podem furar a capa da ficção e tocar no cerne de certas ideias. Daí que Fome se avizinhe ora da parábola social à Sérgio Bianchi (o casal burguês), ora do teatro espontâneo com discurso autocrítico (a entrevista à estudante e a discussão com Francis), sempre num regime de cinema da crueldade, oposto baziniano ao cinema da piedade humanista.

Vale ressaltar a continuidade entre o trabalho escrito de Bernardet e esta sua nova fase de interventor dramatúrgico com o pensamento e o corpo. Ali está o mesmo olhar crítico à relação entre cinema e realidade, a mesma disposição para escavar o sentido das imagens em busca das motivações da representação. Fome se refere mais que tudo à fome de sentido.