Para a lista dos melhores

Amanhã vou publicar minhas listas de melhores filmes de 2016. Elas incluem filmes vistos mas ainda não lançados comercialmente no Rio. Sobre três desses eu tinha textos prontos mas ainda não publicados: ERA O HOTEL CAMBRIDGE, QUASE MEMÓRIA e EU, DANIEL BLAKE. Aqui vão eles.

ERA O HOTEL CAMBRIDGE é uma experiência rara no cinema brasileiro contemporâneo. Avança várias casas em relação a longas documentais já em si reveladores sobre o funcionamento das ocupações de moradia em São Paulo, como “À Margem do Concreto”, de Evaldo Mocarzel, e “Dia de Festa”, de Toni Venturi. Em seu melhor filme até hoje, Eliane Caffé costurou diversos tecidos numa emenda quase inconsútil de ficção e documentário. O antigo e luxuoso Hotel Cambridge, ocupado desde 2012 pela Frente de Luta por Moradia (FLM), é o cenário da história fictícia de um prédio cujos ocupantes estão ameaçados de despejo “dentro de 15 dias”. Atores como José Dumont (protagonista de três longas de Eliane) e Suely Franco se mesclam aos ocupantes reais tanto nas atividades cotidianas do coletivo, como em ações da trama ficcional. Por exemplo, ensaiam uma peça de “artivismo” e editam um videoblog sobre a sua luta.

Dentro desse espaço de resistência e compartilhamento, o filme se detém na relação entre brasileiros e refugiados estrangeiros. Muitos desses imigrantes costumam procurar as ocupações como porta de entrada no Brasil. Dá-se então um convívio feito não somente de solidariedade e interação, mas também de disputas e choques culturais. A xenofobia e o preconceito rondam as mentalidades, mesmo nesse tipo de contexto em que todos, inclusive os brasileiros, são refugiados. Eliane trata desse tema com extrema habilidade através de conversas, discussões e romance entre os personagens.

É onde ERA O HOTEL CAMBRIDGE se assemelha aos filmes do português Pedro Costa com seu personagem caboverdiano Ventura. Realidade e invenção se confundem para captar o espírito de uma  situação de deslocamento e acerto de contas com a memória. As comunicações por skype entre os refugiados e seus parentes distantes são especialmente tocantes, assim como os momentos em que a poesia se sobrepõe às trivialidades do dia a dia.

O filme se ergue acima de sua própria altura quando sai em campo para registrar o drama das ruas: o ato de ocupação de um novo edifício e o ataque policial para reintegração de posse de outro prédio. Essas últimas cenas, registradas em local distinto, foram habilmente incorporadas à ficção do Cambridge para comporem uma sequência absolutamente eletrizante entre o fora e o dentro de um imóvel sendo retomado com violência.

Carmen Silva Ferreira, coordenadora da FLM, tem um papel de destaque no filme ao encarnar a si própria e deixar transparecer algo mais que a sua verve de líder e mulher forte. Ela foi figura fundamental no processo de construção coletiva do filme, que contou ainda com a direção de arte de Carla Caffé com os alunos da Escola da Cidade (centro de estudos focado em arquitetura, história, cultura, território e natureza) e os ocupantes do Cambridge. Cabe mencionar, ainda, o poder imersivo proporcionado pela fotografia de Bruno Risas, a montagem de Marcio Hashimoto e a trilha sonora do grupo de arquitetos (!) Vapor 324.

Um filme para ecoar durante muito tempo na consciência da cidade – melhor dizendo, das cidades.



Duas idades de um mesmo personagem se encontram numa dobra do tempo em QUASE MEMÓRIA. Esse personagem é Carlos Heitor Cony, autor do romance original, que se põe em cena duplamente para recordar-se do passado e principalmente da figura paterna. Mas esse personagem é também Ruy Guerra, que aos 84 anos continua um jovem e ousado cineasta. A adaptação que ele fez do livro de Cony tem, ao mesmo tempo, a gravidade do velho que se bate nos desvãos da memória precária – o Carlos maduro do filme – e a euforia do pai relembrado como um inventor clownesco, mitômano e aventureiro apaixonado (João Miguel em estado de graça).

Uma assumida inflexão teatral anima esse 14º longa de Ruy. É numa sala-palco, posteriormente dotada de um telão eletrônico, que o jovem e o velho Carlos somam suas lembranças e esquecimentos para remontar o passado da família. As lembranças, por sua vez, introduzidas por imagens distorcidas, logo ganham formato, colorações e gestual teatrais, como a indicar que o ato de lembrar é sempre uma reencenação, uma falsificação. Ao mesmo tempo, esse teatro da memória é recriado por um trabalho de câmera minuciosa e ludicamente coreografado, e por uma montagem que dinamiza os pontos de vista para além das convenções do teatro. Coroando tudo, um tecido operístico (paixão do pai) lança mais uma camada de tempo e de significados.

“Onde há um contador (de histórias), não existe o acaso”, diz a certa altura o texto de Cony, que é também um sinuoso tratado de metalinguagem e paradoxo temporal. Enquanto os dois Carlos conversam e tomam uísque, a falta de memória do velho protege o jovem de conhecer o seu futuro. Mas, aos poucos, reconduzido pelas lembranças ainda frescas do jovem, o velho vai recobrando suas reminiscências, processo que culmina com um eletrizante monólogo de Tony Ramos. Ruy Guerra, dublando a voz de um sapo de pântano, assume o papel desse contador de imagens que não se contenta com a literalidade. QUASE MEMÓRIA é a invenção que atravessa o tempo e as idades para demolir a clausura do presente. Um filme espantoso.



Palma de Ouro em Cannes, EU, DANIEL BLAKE repõe Ken Loach na linha direta dos descamisados britânicos. O operário viúvo e solitário Daniel Blake (Dave Johns), recém-saído de um ataque cardíaco, se bate com a intolerância burocrática do sistema de auxílio-doença e auxílio-desemprego. No caminho, conta somente com a solidariedade de alguns poucos, geralmente destituídos como ele, e chega a formar uma família afetiva com uma jovem desempregada (Hayley Squires) e seus dois filhos.

Loach e seu roteirista pelos últimos 20 anos, Paul Laverty, dominam como poucos esse realismo das bordas da sociedade e o manancial dramático do choque entre trabalhadores humildes e estruturas do governo conservador. A rematada simplicidade com que tudo é encenado provoca um acúmulo de identificação, carinho e preocupação em torno dos protagonistas à medida que eles afundam cada vez mais na aflição pela sobrevivência digna.

Nesse filme, porém, senti um certo automatismo na sucessão de infortúnios dos personagens. O roteiro parece preencher um daqueles formulários excruciantes da assistência pública. Tem funcionários insensíveis? Sim. Tem seguranças durões? Sim. Tem serviços telefônicos que nunca atendem? Sim. Tem humilhação informática de idosos? Sim. Tem roubo vexaminoso no supermercado? Sim. Tem acesso de fome na fila da cesta básica? Sim. Tem recurso à prostituição? Sim. Tem bullying infantil por causa da pobreza? Sim. Tem desespero levado às ruas em forma de protesto? Sim. Tem limite para o calvário de Daniel Blake? Não.

Ainda que avance em linha reta por essa rota de adversidades, o filme só não comove os mais empedernidos. Seja pela “verdade” passada pelos atores e a direção, seja pela convicção do libelo contra a crueldade do sistema para com os cidadãos mais humildes. Na Inglaterra, já se toma o filme como bandeira em atos políticos (“Somos todos Daniel Blake”) ou, por outro lado, se o acusa de exagerar com fins de propaganda de esquerda.

A verdade é que o caso exemplar desse Daniel Blake, afinal, não expõe somente o quadro da previdência inglesa terceirizada por uma empresa americana (!). Em cada passo ou queda de sua via sacra, vemos refletidos os tantos trabalhadores que, no Brasil e em muitos países, levam meses para conseguir marcar um exame médico ou obter um benefício. Ou mesmo qualquer um de nós quando tenta arrancar uma informação por telefone e fica padecendo por horas com um torturante Vivaldi. É a prestação de serviços transformada em opressão, quando não em escárnio.

3 comentários sobre “Para a lista dos melhores

  1. Pingback: Meus filmes prediletos de 2016 | ...rastros de carmattos

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