Dois bons brasileiros antípodas

Enquanto LOVE FILM FESTIVAL corteja um certo gosto contemporâneo, UM HOMEM E SEU PECADO toma o caminho alternativo dos subtextos.
Vale a pena ver os dois, mas o segundo só fica em cartaz até domingo no MAM  

Com um título que resume perfeitamente sua proposta, LOVE FILM FESTIVAL é uma comédia romântica ambientada em quatro festivais de cinema ao redor do mundo. A diretora Manuela Dias explora o fetiche romântico dessas viagens, onde relações às vezes começam com a mesma fortuidade com que acabam, no hall de um aeroporto. Contudo, para a roteirista e diretora brasileira Luiza (Leandra Leal) e o ator colombiano Adrián (Manolo Cardona), que se conhecem no simpático Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal, o encontro imprime algo mais que um flerte de festival.

Assim é que a história deles se estende ao Curta Cinema carioca, ao Festival de Cartagena (Colômbia) e ao Festival de Cinema Latino de Chicago. Em cada reencontro ou desencontro, algumas peças do quebra-cabeça amoroso se encaixam ou se perdem, entre hesitações, separações, traições e, claro, sessões de premiação.

Cada cidade tem um diretor específico: Bruno Safadi para o Rio, Vinicius Coimbra em Portugal, Juancho Cardona (irmão de Manolo) na Colômbia e a própria Manuela nos EUA. Ainda assim, e apesar da passagem de tempo real, o filme obtém uma relativa unidade, garantida principalmente pelo charme dos atores, a propriedade naturalista dos diálogos e a intenção de transmitir simpatia, um pouco de turismo e impasses amorosos bastante plausíveis. Está bem resolvido também o desafio de integrar a trama ficcional ao fluxo dos festivais em pleno andamento, coisa em que Terrence Malick fracassou com o seu De Canção em Canção junto aos festivais de rock do Texas.

Canções americanas pontuando o romance, vinhetas em outras línguas carimbando o toque internacional, links entre vida e cinema buscando um efeito pseudodocumental… Vários recursos são usados para sintonizar o filme com um certo gosto do momento. Nada contra isso, mas não precisava apelar para os clichês do sambinha na Cidade de Deus nem a boba discussão do epílogo sobre o final do filme. Em compensação, o plano-sequência do flagra com Leandra Leal e Du Moscovis é um grande momento num filme cheio de bons momentos para quem busca diversão leve e bem feita.



Em cartaz somente até domingo na Cinemateca do MAM, o novo longa de Luís Rocha Melo é uma espécie de Bresson tropical envenenado. UM HOMEM E SEU PECADO começa como uma variante de “Pickpocket” e termina com uma explosão de pulsões familiares represadas. No centro de tudo está Lívido (Pedro Henrique Ferreira), rapaz esquisitão, obcecado por relógios e crucifixos, adepto das técnicas de bater carteiras alheias. Depois de um estranho encontro com Baudelaire (Hernani Heffner!) no Outeiro da Glória, ele resolve convencer a irmã freira (Anna Karinne Ballalai, esposa do diretor e parceira em quase todas as funções do filme) a visitar o pai, em Barra de São João. O segundo ato é um encontro de família cheio de incômodos, onde o subtexto religioso ganha corpo e a relação entre os dois irmãos começa a ganhar dubiedade.

Em seus filmes, Luís Rocha Melo costuma passar sua erudição pelo filtro de um humor mordaz, ainda que aqui bastante distanciado. A súbita transformação da freira numa femme fatale, as cenas da livraria onde Lívido trabalha e a súbita irrupção de cantos gregorianos em situações “inadequadas” são exemplares dessa assinatura algo buñueliana. Por trás da cortina fina da comédia, porém, há um mundo em negra ebulição. A passividade sacrificial de Lívido esconde um emaranhado de desejos e repressões, que se alimentam no sonho e arrebentam como ondas revoltas nos momentos finais.

Duas saudosas figuras do cinema brasileiro fizeram sua despedida em personagens do filme: o ator Otoniel Serra, no papel do pai devotado, e o cineasta Roman Stulbach, como o dono da livraria (o “pai” rigoroso). Nessa trindade, menos que filha, Anna Karinne deveria ser o Espírito Santo.

As sessões de UM HOMEM E SEU PECADO acontecem quinta e sexta, às 18h30, e sábado e domingo, às 16h.

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