Wajda e seu “J’accuse” ao stalinismo

Logo no início de AFTERIMAGE (Powidoki), uma cena ilustra com propriedade plástica a condição do pintor construtivista Wladyslaw Strzeminki durante o recrudescimento do stalinismo na Polônia em 1948. Ele vai começar a pintar um quadro quando a tela de repente se cobre de vermelho. O quarto fora invadido pela cor de um enorme retrato de Stalin que está sendo erguido na fachada do seu prédio. Strzeminski faz um rasgo no tecido para restituir a luz natural e assim dá início a seu calvário junto às autoridades comunistas.

O trabalho com a cor prossegue no contraste entre o cromatismo da arte vanguardista de um pintor que trabalhou com Chagall e Malevitch, e os cenários cinzentos da cidade de Lódz (ela sempre foi e continua cinzenta, independente do regime). Ou na maneira como o casaco vermelho da filha de Strzeminki circula em seu cotidiano cada vez mais penoso.

Wajda e Boguslaw Linda

Em seu filme de despedida, Andrzej Wajda (1926-2016) ocupou-se de um alterego bem mais infeliz. Wajda também teve problemas com o governo socialista, embora muito menores, que nunca o fizeram interromper a carreira. Essa biografia dos últimos anos do grande pintor polonês foi feita como um “J’accuse” ao stalinismo.

Strzeminski teve seus dias de alinhamento com a revolução russa, mas depois, desencantado com as imposições do realismo socialista, passou a defender a liberdade artística. Criou um pioneiro museu de arte moderna e orientou uma geração de jovens estudantes no rumo da arte de vanguarda. O filme o mostra passando por sucessivos infortúnios: perda do emprego de professor de arte e da identidade de artista, humilhação profissional, ocultamento e destruição de suas obras, censura à sua “Teoria da Visão” e uma asfixia financeira e social que, no final, o impedia mesmo de comprar tintas e comida. O retrato dramático é agravado pelo fato de que o pintor não tinha uma perna e um braço, perdidos em decorrência de ferimentos da I Guerra.

Wajda não poupa tintas no seu quadro anticomunista: a oficialidade é toda composta de gente autoritária e desumana, enquanto muitas pessoas ligadas às artes sucumbem às chantagens do Partido. Nem o povo é poupado, como na cena em que Strzeminski desmaia na rua e só uma mulher (católica) se dispõe a socorrê-lo. Se falta sutileza nesse aspecto, seria bom também um pouco mais de clareza na relação de Strzeminski com a mulher enferma (a escultora Katarzyna Kobro) e com a filha. Um melhor insight na obra do artista seria igualmente bem-vindo, já que de seu passado recebemos apenas informações genéricas através de diálogos criados visivelmente com essa função.

Strzeminski talvez não seja um personagem fascinante por soar muito passivo e um tanto vago nas suas concepções de arte e nos vínculos da vida pessoal. De certa forma, o ator Boguslaw Linda compensa essa fragilidade com uma interpretação persuasiva, auxiliada pela perfeição dos efeitos especiais que apagaram uma perna e um braço.

Apesar de não estar entre os trabalhos mais brilhantes de Wajda, AFTERIMAGE deixa uma boa impressão final do seu legado. O título refere-se à pós-imagem que fica em nossa retina depois de observarmos alguma coisa fixamente. De Wajda retemos essa pós-imagem de um cinema sólido e comprometido com sua visão da história da Polônia.

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